Metamorfoses: para pensar o mundo após a grande crise

Ciclo de reflexões reunirá, entre 14 e 17/10, ativistas, pensadores e artistas que se dedicam à construção de saídas, em meio à pandemia e à crise civilizatória. Outras Palavras publicará textos provocadores dos participantes

Por Américo Córdula, Célio Turino, Hamilton Faria, Silvana Bragatto e Antonio Martins (Curadores) | Imagem: M. C. Escher

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Metamorfoses constitui-se de oito diálogos virtuais.
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A taxa de inscrição cobrada pelo SESC é R$ 80. Participantes de Outros Quinhentos pagam R$ 40 (instruções serão enviadas por email).
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Prospectar novos modos de vida – de pensar, de agir, de decidir, de relacionar-se e conviver. E pensar o mundo em tempos de pandemia, de peste e reclusão, em ambiente incerto e desfazimento do velho normal, que já não existe mais. O Instituto Casa Comum propôs ao SESC-CPF em parceria com Outras Palavras, a realização de um ciclo de reflexões, intercalando pensamento e artes durante a pandemia, por meio da internet, a partir de experiências concretas, que exemplifiquem metamorfoses que estejam acontecendo em meio à pandemia.

Nada mais atual do que iniciar este diálogo num dos momentos mais graves do mundo contemporâneo. Intelectuais, artistas, ativistas já trazem em suas reflexões novas formas de pensar, sentir e relacionar-se com a vida e seus desafios. A proposta com o ciclo “Metamorfoses: pensar o mundo em tempos de pandemia” busca realizar uma conexão a estes processos, não apenas imaginando outros mundos desejáveis, imagináveis ou utópicos, mas já analisando as metamorfoses em curso, tecendo possibilidades e interrogações a partir do mundo real, conforme vivenciado neste momento e que traz no bojo da destrutividade a sua própria resiliência.

A cada tema lançado para reflexão temos duas ou três experiências concretas e uma pensadora ou pensador, analisando as experiências do ponto de vista teórico e lançando questões para o público.

Mudança de época. Tempo obscuro e criativo. Tempos de crise e busca por novos caminhos. Tempos de metamorfose. O colapso de um paradigma centrado na espécie humana como única na comunidade da vida, trazendo consigo o desenvolver-se a qualquer custo, a desigualdade, o abandono dos valores mais preciosos da civilização e as poéticas da vida – parecem estar no seu estertor. Ao mesmo tempo uma onda criativa e solidária emerge dos porões da sociedade, dos seus vãos e desvãos para mostrar que a semeadura não morreu, os pequenos brotos persistem e alguns frutos já podem ser colhidos e repartidos em nossa casa comum. As sociedades afastaram-se da natureza, degradaram a verdade e a ética, mas ainda há vidas que multiplicam suas experiências em processos criativos e solidários, revisitando as comunidades e restaurando novos pensares e modos de vida. Quem sabe, talvez, a partir disso tudo, a humanidade esteja no limiar de um reencontro com a vida, ao passar por momento tão doloroso? A metamorfose em curso é, portanto, nossa mais preciosa metáfora.

Metamorfose é uma palavra para a imagem do casulo e seu processo de transformação, até que vire uma linda borboleta, com asas multicolores. Também pode ser em sentido inverso, remetendo a Kafka e a indefectível Barata. É nessa encruzilhada que nos encontramos! Se os mundos por vir expressarão um caminho ou outro, depende do que semearemos agora.
Conceitualmente, a proposta do ciclo virtual, e posterior seminário presencial, é pensada na relação agro/terra: semear, brotar, colher. De que maneira, em que solo, com qual organicidade?

A ideia está fundamentada no conceito de sintropia, que diz respeito ao grau de organização interna de um determinado sistema, seja ele um sistema agrícola, um organismo vivo, no caso, como uma empresa, organização ou sociedade. Uma metamorfose sintrópica para o porvir, levando as pessoas a um envolvimento para a regeneração de Gaia.

Os temas e as palestras seguirão a mesma lógica da sintropia, em reflexões relacionadas, conectadas e que afetam o todo, os humanos e os não humanos (montanhas, bichos, rio, mar, florestas, ar). Um exercício para pensar o Comum, ou commons, bem estar, novos padrões alimentares, emissão de carbono, novas economias, novas relações comunitárias e padrões de mobilização social e democracia. Também uma interconexão entre política, saúde, educação, cultura, modos de vida.

Muitos desses temas já estão sendo discutidos e implementados há décadas, porém, ainda seguem abafados, invisibilizados. O mérito com este ciclo de reflexões proposto está, exatamente, em tirar esse “manto da invisibilidade” em relação a muitas práticas e ideias que, agora, mais que nunca, se tornam fundamentais para que a humanidade se reinvente em um mundo Pós-Covid.

O desafio que nos autocolocamos está em construir uma curadoria a partir de fenômenos que estão se revelando em processo, durante a pandemia, ainda não compreendidos e com os quais a sociedade tem muito a aprender.

Voltar ao planeta, regenerar, desantropocentrar. Compreender que direitos humanos e os direitos da natureza são indissociáveis. Nesse contexto destacamos povos originários/populações indígenas que estão ameaçadas pela expansão exploratória do Humano-Mercadoria, conforme expressão cunhada por David Kopenawa, a coisificação do Ser.

A diversidade cultural e a biodiversidade estão, por sua vez, também ameaçadas comprometendo o Bem Viver. Para sobreviver e expandir-se, a cultura da vida necessita agregar experiências, valores e ideais já em curso e que evidenciam resistência e novas formas de vida, unindo trabalho e ócio, cooperação e contemplação, dando sentido e dignificando a vida e a criação no cultivo das artes e da poesia.

Semear, brotar/florescer, nascer/colher, são simbolismos dos mais antigos da humanidade; o porvir da planta nasce de uma boa semeadura; algumas não sobrevivem, outras brotam em terreno árido, milagrosamente resistindo às intempéries; uma boa colheita depende da qualidade da semente, da fertilidade da terra, da boa relação entre o agricultor e a terra, e de toda a energia da vida. Esta tríade está presente em todos os processos de nascimento de novos mundos em metamorfose. A lagarta põe os ovos (semeadura), formam-se larvas e crisálidas (brotar), e a vida celebra a existência de uma nova espécie (colheita), que é diferente da semente, mas inteiramente resultante dela. O mundo, ou os mundos, que está por vir já está sendo metamorfoseado dentro de nós, no curso da pandemia. Ou ele levará em conta a centralidade da vida ou seremos tragados pela peste.

Metamorfoses, a prospecção sobre o que está por vir. Um encontro no calor dos acontecimentos da pandemia, em ambiente de distanciamento físico, que resulta em um convite para reflexões e meditações profundas e sensíveis.

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3 comentários para "Metamorfoses: para pensar o mundo após a grande crise"

  1. Este tema é emergencial para pensar um novo mundo possível para além do capitalismo que hoje conhecemos, com base na fraternidade humana. Parabéns Célio, Silvana, Américo e demais provocadores do pensar, do fazer e do saber.

  2. Vivi Tuppy disse:

    Esta vem a ser uma reflexão fundamental e urgente em nossos dias. Unir ação com sensibilidade, redes e afetos, determinação e o ser determinado no pensar, sentir e agir com livre escolha e boa vontade, revela um caminho pedagógico e imperativo nestes dias de grandes metamorfoses.

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