Os disparatistas e o paradoxo da ignorância

Peculiar espécime troca, invariavelmente, a coerência pela gritaria. Acredita que “atitude” suplanta ideias. Inverte a máxima de Sócrates: não sabe que nada sabe — por isso, tem certezas agudas, e fazem disso o combustível para barbáries

Já perceberam como as coisas mais estapafúrdias são quase sempre ditas com uma certeza inabalável? Terraplanistas seguram réguas entre a câmera do celular e o horizonte e declaram sem titubear que estão certos. Teóricos da conspiração, embora operem levantando dúvidas, falam delas como se fossem a prova cabal sem tremer a voz uma vez sequer. Se lêssemos em voz alta a manchete das fake news que recebemos naqueles grupos sem-vergonha de WhatsApp, a entonação que elas requereriam é a de juiz de filme, bem na hora em que ele profere a sentença irrecorrível.

A segurança deles todos é assombrosa!

Há quem chame a retórica de “a arte de bem falar” e os que preferem “a arte de bem enganar”. Baseando-se nisto, obteríamos a seguinte taxonomia para os espécimes acima: ou são oradores eloquentes, ou espertalhões ardilosos. Damos com uma catalogação insuficiente. Se somos forçados a reconhecer que têm seus momentos de eloquência e que existem entre eles oportunistas e charlatões, colocá-los no patamar de Cícero ou tomá-los por leitores temporãos de Maquiavel seria distorcer a realidade tanto quanto eles, além de dar-lhes crédito demais.

Ora, como se pode explicar a origem de sua segurança?

Parto da hipótese de que, para responder a essa pergunta, temos de pensar a segurança primeiro como uma questão de atitude para então entendê-la nos seus fundamentos, digamos, gnosiológicos. A mecânica mesma dos momentos inglórios em que falam olavistas e afins conspira nesse sentido: o traço mais saliente daquela segurança é a ausência de qualquer sombra de dúvida nas afirmações; e em seguida questões de outra natureza entram em jogo, isto é, a dimensão propriamente lógica da coisa. A ordem “atitude > lógica”, importante dizer, é uma hierarquia de prioridade e não uma fatalidade cronológica: precisamos considerar a atitude primeiro porque ela tem mais peso, e não porque ela acontece antes.

A título de didática, tomemos um exemplo. Alguém diz: “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”. Afirmações desse tipo costumam vir acompanhados de um certo inflar de peito, reedição torta do “J’Accuse!”. Colocamos na citação acima o ponto final por convenção de redação, pois em contextos verbais, o mais adequado é quase sempre o ponto de exclamação. Aproveitando estarmos no terreno linguístico, peço que notem a sintaxe e a morfologia da afirmação: o modo indicativo é mera concessão à gramática, pois o tom pretendido mesmo é o imperativo; não há espaço para meias-palavras. Enunciações tais como “pode ser”, “há chance de que”, “é possível que” e afins não têm lugar aqui, afinal, não expressam a ênfase que a atitude requer.

Afirmações como as do parágrafo anterior exigem antes a contundência que a coerência. Leia-se, atitude antes de consistência.

Ter dúvidas ou ser cauteloso é entendido por esses disparatistas como estar nu, por isso é preciso que a linguagem não deixe entrever qualquer rachadura, nem sequer como uma salutar reserva intelectual tática. Ceticismo? Só se for em relação aos outros. A atitude precisa conter o essencial, porque vem antes de tudo e é quase tudo. Os disparatistas parecem às vezes supor que seus ouvintes são como os cães, que se guiam antes pela entonação do que pelo teor do que dizemos.

Entender essa importância da atitude ajuda a explicar a forma, mas ainda não explica de onde vem a segurança dos eruditos do almoço de domingo. É por isto que agora precisamos nos deter sobre a mecânica propriamente lógica desse fenômeno.

Uma das coisas que mais chama a atenção nesse sentido é o quanto destoam esses pseudoutos do grande panteão intelectual ocidental, ou da maior parte dele. É instrutivo que Sócrates adotasse como um de seus pressupostos metodológicos o “só sei que nada sei”; ou que Santo Agostinho tenha adotado postura humilíssima ao refletir sobre a natureza das coisas nas suas Confissões. De fato, é difícil não encontrar passagens aparentadas a de Sócrates no cânone do pensamento humano: os pensadores parecem ter estado sempre bastante dispostos a admitir que não sabiam tudo o que gostariam. Descartes declarou “Penso logo existo”, e não “Penso logo sei tudo. Ajoelhem-se perante minha sabedoria”.

Se esses luminares prontamente admitiram que podiam estar errados ou ter esquecido de algo, porque os tweeteiros de banheiro não o fazem? Gosto de chamar esse fenômeno de paradoxo da ignorância. Diferentemente dos grandes filósofos e pensadores, que tinham uma noção bastante razoável do que não sabiam, os disparateiros ignoram o que ignoram, e isso lhes concede uma certeza particularmente aguda. Posto noutros termos: por saberem menos, eles parecem saber mais.

Consideremos a Introdução da Crítica da razão pura, de Kant. São páginas tortuosas e cheias de senões, em que o filósofo busca acertar as contas com seus predecessores e limpar o terreno para construir a argumentação que virá em seguida.

O que ele faz ali é colocar as escoras do que sabe para poder suportar o peso do que não sabe: para poder argumentar com alguma solidez, Kant considerou aquilo que ignora através do estabelecimento dos pressupostos dos quais parte – inclusive para dar ao leitor as condições de refazer suas pegadas e testar suas conclusões por si próprio. A segurança e a autoridade que Kant conseguiu ter, portanto, estão calcadas em seu reconhecimento de que havia coisas que ele não sabia, e no seu confronto com elas.

Os disparatistas, por sua vez, não necessitam passar pelos apertos de Kant, e precisamente porque ignoram que ignoram. O “lado de lá” do conhecimento deles simplesmente não existe, e por isso não os constrange. Suas convicções não são forçadas à reflexão com o contraditório, por vezes nem mesmo com o real. Banham-se preguiçosamente no sol das certezas absolutas, porque no céu de sua lógica não há nuvem alguma.

Se você prestar atenção àquela afirmação de antes, “O coronavírus foi produzido em laboratório pelos chineses”, vai perceber que, além de uma pausa no fim, onde encontrava-se o complemento “lá na Cochinchina” antes de ele cair em desuso, não há mais nada ali. Nada! Na superfície perfeitamente lisa dessas águas, que os pseudoutos tomam por plácidas por ignorarem a charneca ao redor, tudo é certeza. Donde a segurança.

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