O encanto indomável de Diego Maradona

Ele nunca sucumbiu ao individualismo dos atletas milionários. Ousou defender ideias socialistas. Sabia que ganhar uma Copa não traria pão aos argentinos. Forte, mesmo com suas fragilidades, pulsa no povo, do qual se via parte

Se podemos dizer que alguns atletas também são artistas, um deles é Diego Armando Maradona. Na Argentina ele é chamado apenas de El Diego, pelo efeito da sua paixão e de sua técnica nos corpos de quem ama o futebol. Além do gigante que foi em campo, Maradona sempre se posicionou contra injustiças de forma autêntica. Nunca sucumbiu ao individualismo tão comum em atletas famosos e milionários.

Morto aos 60 anos, Diego não morreu realmente. Como em uma ficção fantástica de Borges, Bioy Casares ou Cortázar, ficou encantado. Ou melhor: diante dos limites de seu corpo já fragilizado, passou de uma condição orgânica para um estado virtual, de pura criatividade, a espreitar os corpos de qualquer argentino que ouse trocar o sono pelo sonho – da a Patagônia até a fronteira do país com a Bolívia, no norte.

Aliás, seu norte não esteve nos Estados Unidos. Também não esteve na Europa, onde tanto encantou após sair do Boca Juniors. Até porque Nápoles fica no sul da Itália. Foi de lá que destruiu a defesa da Juventus de Turim, arrancando mais potente que os carros da Fiat. Também foi de lá que enfrentou o Milan de Berlusconi, avançando para cima da defesa e numa fração de segundo esperando o goleiro cair para dar um toque sutil que o encobrisse. Sem contar o aquecimento mágico antes da partida contra o Bayern, quando Diego dançou com a bola ao ritmo de Live is life. Diego agora é essa força criadora que, como diria Nietzsche, defende os mais fortes dos mais fracos. Essa força está nos povos latino-americanos, tão defendidos por Maradona. Uma força paradoxal, extraída da precariedade resultante de séculos de exploração mercantilista e capitalista. Paradoxos existem para inventar aquilo que a vida ainda não conseguiu criar. O escritor uruguaio Eduardo Galeano já disse que Diego é o mais humano dos deuses, pois podemos nos identificar com ele através de uma gama de fragilidades. Seus juízes estão entre os fracos. Nada como alguém tão paradoxal para ser um Aquiles latino-americano.

Com uma trajetória digna de tango de Gardel (Diego sempre vencia e perdia de um jeito trágico, por pouco, por uma cabeça), amado como Evita, Maradona inspirou a criação de uma igreja. É um tipo de salvação pelo qual não se pode rezar porque não se sabe o que virá pela frente. Em 1986 a Inglaterra enfrentou novamente a Argentina, agora em uma disputa futebolística. Quatro anos antes os ingleses venceram a Guerra das Malvinas, matando mais do dobro de argentinos. O que esperar de um Maradona que desde o primeiro minuto de jogo partiu para cima dos britânicos como um tigre debaixo de uma sela? Quando a bola ia sair na lateral ele correu mais que a pelota e, de costas, tocou de calcanhar rapidamente girando para já estar de novo de frente para a disputa. Tentou arrancar desde o meio campo uma vez. Na segunda, arrancou, tocou a bola e recebeu de volta pelo alto, usando a mão de Deus para vencer um goleiro vinte centímetros mais alto. Não foi a mão de um ladrão como se apregoa. Foi a mão do deus de Espinoza, que é a natureza enquanto força criadora. Se eles mataram nossos jovens, vou usar a pelota para criar novos jeitos de afirmar a vida em todo seu esplendor.

E não parou por ali. Poucos minutos depois veio a arrancada letal que colocou ingleses para bailar, culminando no maior gol dos mundiais. A narração do locutor Victor Hugo Morales mostra bem como Diego defendeu os fracos dos fortes. Morales se emociona ainda diante da execução daquele gesto artístico e após o gol chama Maradona de pipa cósmica – o barrilete que deslizou entre os rivais. Anos depois Diego disse que sabia que aquele título mundial não reduziria o preço do pão para o povo argentino. Mas queria que isso fosse possível.

Apesar de seus detratores, Van Gogh sempre soube que estava produzindo obras para além do seu tempo, deixando uma marca no infinito. Maradona também. Mesmo após o fim de sua existência física, lá estavam na porta da Casa Rosada e também nos vinte e cinco quarteirões anteriores da avenida 9 de Julio cerca de um milhão de homens e mulheres fortes. Assim como Tupac Amaru se multiplicou nos indígenas, Maradona também o fez com seu povo. Torcedores rivais de Boca e River se abraçaram. No meio da multidão, um jovem declarou o seguinte para uma TV:

Diego foi o maior porque nos ensinou a viver. Ele nos ensinou a lutar, ele nos ensinou a sair da merda, e a chegar ao topo, porque ele sempre esteve desse lado. Ele sempre lutou com aqueles que querem ferrar  nossas vidas, ele morreu lutando contra isso, como todos nós temos que morrer. Venceu as drogas, venceu o futebol, venceu a merda da AFA (Associação de Futebol Argentino), a merda da FIFA (Federação Internacional de Futebol), todo mundo. Ele sempre venceu todo mundo.

Aqueles que não suportam a diversidade e as contradições como se fossem filhos de Apolo, aqueles que atacaram sua dependência química como se isso fosse uma falha de caráter em vez de questão de saúde pública, os que buscaram deslegitimar a indignação de Maradona e suas denúncias contra os poderosos do esporte só porque Diego admirava os líderes da Revolução Cubana e se aproximou de Evo, Chávez e Lula são fracos. É preciso defender os fortes como Diego com sua capacidade de pulsar nos povos que onde ele se via membro. Defendê-lo igualmente de toda essa gama de fracos. Essa defesa não precisa ser hostil. Não precisa carregar no vocabulário palavras usadas por derrotados, por ressentidos. Podemos defender Diego com as imagens de suas criações. Ou, simplesmente, com um relato infantil como esse de um menino de nove anos que assistiu a Copa de 1990 no seio de uma família de baixa renda que vivia em alguma cidade do sudeste brasileiro:

Em 90 quando terminou Brasil x Argentina desci com a bola para jogar sozinho. Queria fazer o Brasil ganhar com os próprios pés. Fiz o Brasil virar para 2×1. A cada ataque brasileiro imaginário, os lances mágicos de Maradona me seduziam, fazendo de Diego Armando uma espécie de Mefistófeles portenho. Foi inevitável: num átimo de tempo já jogava no time do Pipa Cósmica, que deslizava pelo ar no invisível, buscando o empate.

De quem é o relato? Se é verdadeiro ou falso? Pouco importa. Diego Maradona agora está em estado puro de criação. É ficção assim como foram seus dribles, assistências e gols. A ficção é o coração da vida. Que tenhamos coragem e habilidade para tabelar com Maradona.

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Um comentario para "O encanto indomável de Diego Maradona"

  1. Joma disse:

    O MARADONA ousou defender ideias e ideais “socialistas” em que a soberania do Estado é absoluta, a desigualdade e a pobreza dominantes e a democracia praticamente inexistente.

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