Mario Benedetti, 101: cinco poemas e uma despedida

No aniversário do escritor uruguaio, falecido em 2009, um convite para revisitar sua obra. Entre afetos e a indignação, ele cantou a solidariedade e uma América Latina insubordinada, em tempos sombrios: lento mas vem / o futuro se aproxima

O texto a seguir é de Eric Nepomuceno, jornalista e tradutor brasileiro, publicado pelo Estadão após a morte de Mario Benedetti, em 17 de maio de 2009

O domingo 17 de maio foi um dia de céu encapotado e rajadas de chuva e ventania em Montevidéu, que ele chamava de cidade de todos os ventos. Se tivesse olhado pelas amplas janelas de seu apartamento na Avenida 18 de Julho, Mario Benedetti constataria uma vez mais que nesta época do ano Montevidéu é um mundo de terna melancolia.

Mas ele não saiu da cama. Passou o dia todo alternando o sono sossegado com períodos de um despertar calado, distante. Pelo fim da tarde sua respiração tranquila foi se fazendo mais suave, mais suave, até que, quando faltavam cinco para as 6, parou de vez. Assim, dormitando na penumbra e sem nenhum olhar de despedida, foi-se embora esse poeta cálido e bondoso, tímido e cordial como corresponde aos uruguaios de velha estirpe. Um homem de resistência e compromisso permanente, num tempo em que isso já não significa quase nada. Continuou sendo o militante de sempre, contra ventos e marés. “As causas nas quais creio me dão impulso, e por defendê-las durmo tranquilo. Não me sinto derrotado em minhas crenças ideológicas e vou continuar lutando por elas. Sem êxito, já sei”, dizia.

Se tivesse ficado por aqui até o dia 14 de setembro, cumpriria 89 anos. Não quis esperar. Na verdade, Mario começou a ir embora em abril de 2006, quando morreu Luz López, com quem foi casado durante 60 anos. Continuou escrevendo, mas a vida já não tinha graça. Dizia ele, nesses últimos tempos: Acontece a noite e estou sozinho/ a duras penas carrego meu próprio peso/ a morte levou o bom amor/ e já não sei para quem continuar vivendo.

Deixou desolada uma multidão de leitores, e, nos amigos, um vazio sem fim. “Que será de nós sem sua bondade inexplicável?”, escreveu Eduardo Galeano. “Mario foi, sobretudo, um homem bom”, assegura o poeta argentino Juan Gelman, outro companheiro de longas jornadas. Ao saber de sua morte, o espanhol Fran Sevilla disse: “Há dias que não deveriam amanhecer.” A lista de amigos que amargam essa dor é enorme, se espalha pelos mapas, vai de pintores a músicos, de escritores a poetas, de jovens esperançosos a velhos lutadores das causas perdidas, ou quase, nesta América Latina. Em silêncio, abrumados pela própria dor, ficam milhões de leitores em todo o mundo. De certa forma, saber dessa amplidão de gente que se deixou embalar e acalentar pela sua poesia serve de consolo aos amigos. “Mario ocupava um lugar muito maior do que ele mesmo achava”, diz um deles, o escritor português José Saramago.

Foram mais de 80 livros publicados ao longo de 63 anos. Alguns, como os romances La Tregua e Gracias por el Fuego, tiveram mais de cem edições. Escreveu contos, romances, ensaios, crítica literária e obras de teatro. Mas foi sua poesia que fez dele um dos latino-americanos mais lidos nos últimos muitos anos. Seus versos estão em camisetas, bolsas, cartões-postais, xícaras, cartazes, e foram transformados em canções cantadas por gerações. Muitos desses versos, copiados por milhares de jovens que fingiam uma autoria imaginada, venceram amores esquivos. Cada vez que alguém dizia a Mario que tinha conquistado o grande amor graças aos seus poemas roubados, ele sorria feliz.

Seu livro de estréia, La Víspera Indeleble, vendeu exatamente nove exemplares. Foi seu presente de casamento para Luz, em março de 1946. Dez anos e cinco livros mais tarde, publicou Poemas de la Oficina. E com esses “poemas de escritório” ganhou prestígio. Não foi nenhum êxito de vendas, mesmo porque a tiragem era de 500 exemplares. Mas ele se tornou conhecido. Naquela altura, fazia parte do mítico semanário Marcha, dirigido por Carlos Quijano, e integrava a mais importante geração literária de seu país, a de 1945, ao lado da poeta Idea Villariño e de um mestre absoluto, Juan Carlos Onetti.

Filho de um farmacêutico e de uma dona de casa, foi batizado seguindo a estranha tradição italiana de nomes longuíssimos: Mario Orlando Hamlet Hardy Brenno Benedetti. Tinha 4 anos quando a família saiu de Paso de Los Toros e foi para Montevidéu viver uma infância de privações, que se estenderam adolescência afora. Trabalhou como vendedor de peças de automóvel, depois foi taquígrafo, mensageiro, contador, gerente de imobiliária, jornalista e funcionário público, entre muitas outras atividades.

Em seus contos e romances, estendeu sempre um olhar solidário e compreensivo para a pequena classe média uruguaia – a aridez da vida dos burocratas, a rotina amarga de um cotidiano de pouco horizonte e sonhos restritos. Traçou as distâncias entre esperança e realidade, e seus personagens eram gente comum, encontrados nos mergulhos na alma humana que Mario soube fazer tão bem. Com o romance La Tregua, de 1960, chegou ao grande público. O livro teve 150 edições em 24 países. Cinco anos depois, com Gracias por el Fuego, veio a consagração definitiva entre os escritores latino-americanos da segunda metade do século 20.

Sua poesia assegurou a ele a legião de leitores que desde o domingo, 17 de maio, ficaram órfãos. Foram 36 livros, sem contar antologias e compilações, de poemas em linguagem simples, espontânea, coloquial, ele que foi o poeta dos sentimentos, das emoções e das ideias, versos vivos que eram como conversas numa varanda entardecida.

Sua vida foi a de um homem de esquerda, de compromisso com seu tempo e sua gente – um compromisso que custou perseguições e ameaças, exílio, desterro, as dores das separações e das perdas. Acreditava num outro mundo possível. Foi um suave indignado, um doce iracundo. Aliou sempre o rigor da palavra escrita – “como escritor, meu primeiro compromisso é com a literatura” – com sua visão de mundo: “Como cidadão, tudo que afeta o homem me diz respeito, e se o cidadão é escritor é natural que a preocupação política apareça em sua obra”, dizia.

Galeano nos apresentou na Buenos Aires de 1973, onde eu morava e ele chegou exilado. Ao longo desses anos todos o mundo rodou e nós também, e nos encontramos em Lima e Madri, no México e em Havana, em Paris e em Manágua, e dele guardo a memória de um humor ingênuo e tímido, uma esperança tranquila e permanente, um olhar límpido, guardo a certeza de ter sido amigo de um homem bom, generoso e solidário. O tempo e as distâncias diminuíram nosso convívio mas não nos afastaram jamais. E o que mais me dói agora é nunca ter dito a Mario quanto eu gostava dele.

Um de seus poemas dos últimos tempos pede: quando me enterrem/ por favor não se esqueçam/ da minha caneta. Na manhã da terça-feira, dia 19, Mario Benedetti foi enterrado em Montevidéu. Milhares de pessoas o acompanharam ao longo de 30 quarteirões, seu derradeiro passeio pela cidade. Nenhuma delas jamais esquecerá sua caneta, nem as palavras que escreveu.

Leia uma seleção de Outras Palavras de cinco poemas do escritor:

Por que cantamos

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha
você perguntará por que cantamos
se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro
você perguntará por que cantamos
cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

[Tradução de Julio Luís Gehlen, em Antologia poética (Editora Record, 1988)]

Amor de tarde

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

[Tradução de Julio Luís Gehlen, em Antologia poética (Editora Record, 1988)]

Esse grande simulacro

Cada vez que nos dão lições de amnésia
como se nunca houvesse existido
os ardentes olhos da alma
ou os lábios da pena órfã
cada vez que nos dão aulas de amnésia
e nos obrigam a apagar
a embriaguez do sofrimento
convenço-me de que meu território
não é a ribalta de outros

Em meu território há martírios de ausência
resíduos de sucessos / subúrbios enlutados
mas também singelezas de rosa
pianos que arrancam lágrimas
cadáveres que ainda olham de seus hortos
lembranças imóveis em um poço de colheitas
sentimentos insuportavelmente atuais
que se negam a morrer no escuro

O esquecimento está tão cheio de memória
que às vezes não cabem as lembranças
e rancores precisam ser jogados pela borda
no fundo o esquecimento é um grande simulacro
ninguém sabe nem pode / ainda que queira / esquecer
um grande simulacro abarrotado de fantasmas
esses romeiros que peregrinam pelo esquecimento
como se fosse o caminho de santiago

o dia ou a noite em que o esquecimento estale
exploda em pedaços ou crepite /
as lembranças atrozes e as de maravilhamento
quebrarão as trancas de fogo
arrastarão afinal a verdade pelo mundo
e essa verdade será a de que não há esquecimento

[Tradução Dalila Teles Veras, publicado em A Cigarra (Santo André, SP, 2000)]

Lento mas vem

Lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigila ao sol
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem
as últimas janelas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes

com anjos maltratados
e fiéis andorinhas

devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos

as recordações dormidas
e as recém-nascidas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias

com uma estrela pobre
sem nome ainda

lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

[Tradução de Julio Luís Gehlen, em Antologia poética (Editora Record, 1988)]

Todos conspiramos

a Raúl Sendic

Estarás como sempre nalguma fronteira
arriscando-te em teu lindo sonho e desvencilhado
recordando os charcos e o conforto tudo junto
tão desconfiado mas nunca incrédulo
nunca mais que inocente nunca menos
essa estéril fronteira com aduanas
e bobeiras e medalhas e também esta outra
que separa pretérito e futuro
que bom que respires que conspires
dizem que madrugaste muito cedo
dizem que em plena festa cívica gritaste
mas talvez nossa verdade seja outra
por exemplo que dormimos até tarde
até golpe até crises até fome
até imundícia até sede até vergonha
por exemplo que estás só ou com pouco
que estás contigo mesmo e é bastante
porque contigo estão os poucos muitos
que sempre foram povo sem saber
que bom que respires que conspires
esta noite de calma apodrecida
sob esta lua de meiguice e asco
talvez no fundo todos conspiramos
sensivelmente dás o sinal de fervor
a bandeira decente com a haste de bambu
mas no fundo todos conspiramos
e não só os velhos que não têm
com que pintar os muros de protesto
conspiram o desempregado e o mendigo
e o devedor e os podres puxa-sacos 
cujo incenso não rende como há cinco anos
a verdade é que todos conspiramos
mas não só o que tu imaginas
conspiram claro que sem saber
os hierarcas os cegos poderosos
os donos de suas terras e de suas unhas
conspiram que os piores facilitaram
em teu favor que é o favor do tempo
ainda que julguem que sua ira seja a única 
ou que descobriram o filão ou a pólvora
conspiram os abonados os ministros
os generais bem encadernados
os venais os frouxos os inermes
os crápulas os filhinhos da mamãe 
e as mamães que arranjam a morfina
num abusivo preço inflacionado
todos querendo-ou-não seguem conspirando
inclusive o vento que bate em tua nuca
e sopra no sentido da historia
para que isso se rompa e termine
de romper o que está esfrangalhado
todos conspiram para que no fim logres
e isto é o de bom que queria te dizer
deixar para trás a cândida fronteira
e te instale enfim em tuas visões 
nunca mais que inocente nunca menos
em teu futuro-agora nesse sonho
desvencilhado e lindo como poucos.

[Tradução de Salomão Sousa]

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2 comentários para "Mario Benedetti, 101: cinco poemas e uma despedida"

  1. Moacir Reis disse:

    Gratidão
    palavra
    doação
    sentimento
    emoção.

    MR.

    Saudações Poéticas !
    @menestrelmoacirreis

  2. Moacir Reis disse:

    No te rindas América Latina

    Gratidão
    palavra
    doação
    sentimento
    emoção.
    MR.

    https://www.youtube.com/watch?v=C_fHp68Xcyk&t=117s

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