A íntima relação entre o negacionismo e o real

Na psicanálise, negar pode ser estratagema para expor o que, de outra forma, permitiria soterrado pelo temor ao insuportável. Mas e na política: o que tanto assusta aqueles que desejariam uma vida sem traumas – e, no fundo, uma vida sem vida?

Por Eduardo Guimarães | Imagem: podcast Mamilos

Determinados temas precisam ser falados muitas e muitas vezes. Essa recorrência pode ser uma exigência de sua própria dificuldade, pois existem conceitos e funções tão complicados que raramente podem ser apreendidos no primeiro instante. A teoria da relatividade de Einstein ou a filosofia especulativa de Hegel, por exemplo, envolvem raciocínios contraintuitivos, ou seja, funções matemáticas ou conceitos filosóficos que contrariam radicalmente a opinião cotidiana e o senso comum.

Existem temas que não são necessariamente difíceis de entender, mas ainda assim nos convocam constantemente a retornarmos a eles. Essa convocação, cujo esforço mobilizado deve evitar que um evento, que uma verdade caia no esquecimento, assume a função de um marco de memória, como um monumento, que nos recorda o que não podemos esquecer: seja aquilo que se deve comemorar, seja aquilo não se deve repetir. No interior da pandemia da covid-19, nos damos conta de um acontecimento que surpreendeu a muitos, pois ressuscitou cadáveres que imaginávamos enterrados há tempos: o negacionismo.

No contexto em que estamos tratando, o negacionismo é um movimento contemporâneo anticientífico, ou seja, seu objetivo é desacreditar a ciência, especialmente o conhecimento científico a serviço da luta contra a pandemia de covid-19. Esse movimento nos mostra que a autoridade da ciência, um dos consensos aparentemente mais fortemente estabelecidos em nossa civilização, pode ser rapidamente estremecida.

A guerra travada pelos negacionistas contra a ciência possui uma fronteira móvel. Se reconhecem existir um discurso sobre a pandemia de covid-19, os negacionistas desacreditam sua realidade ou veracidade. Se reconhecem sua realidade, desacreditam sua gravidade. Se reconhecem sua gravidade, desacreditam que desacelerar temporariamente a economia para salvar vidas seja uma alternativa viável. Se reconhecem a importância em salvar vidas, desacreditam os métodos científicos de prevenção, como a utilização de máscaras, o isolamento social, o lockdown e, em alguns casos, a própria vacina, e utilizam medicamentos não comprovados cientificamente, como ivermectina e hidroxicloroquina. Apesar de sua natureza móvel, sempre encontraremos no negacionismo uma fronteira, cuja função é recusar uma verdade. Voltaremos a isso mais adiante.

Pelo menos no momento em que estamos avaliando, o negacionismo não caminha sozinho, mas vem acompanhado de outros movimentos. Em primeiro lugar, pelo reacionarismo. Também conhecido como reação ou forças reacionárias, o reacionarismo é um movimento de retorno a uma situação política e social anterior. Esse movimento foi muito comum na Europa no fim do Império Napoleônico, quando líderes de algumas potências pretendiam restaurar a situação social e política anterior à Revolução Francesa.

O reacionarismo também pode ser reconhecido no Brasil, quando determinados grupos exigem o retorno da ditadura militar – os discursos de Bolsonaro, principalmente aquele proferido no último sete de setembro, não nos deixa dúvidas disso – ou ainda o retorno do regime imperial, o qual seria governado pelos membros da família Orléans e Bragança – os descendentes da antiga família imperial nunca deixaram de alimentar um profundo ressentimento com a proclamação da república. Em ambos os casos, um sentimento de nostalgia de um paraíso que nunca existiu.

O negacionismo também vem acompanhado pelo conspiracionismo ou por teorias conspiratórias, crença de que uma organização secreta age deliberadamente para distorcer informações verdadeiras ou para acobertar crimes ou eventos ilegais. Um exemplo de conspiracionismo associado ao negacionismo é a crença de que a vacina chinesa altera o DNA ou que vem acompanhada de um chip que, instalado no organismo, é capaz de controlar e monitorar os indivíduos. Outro exemplo, dessa vez mais diretamente ligado ao cenário político, é o medo diante de uma suposta revolução comunista no Brasil.

Esses três movimentos – negacionismo, reacionarismo e conspiracionismo – se misturam. Dificilmente, um aparece sem o outro. Mas vamos agora fazer um esforço para nos focar no negacionismo.

O negacionismo é um termo derivado do conceito psicanalítico de negação, entendida como uma forma de resistência do sujeito. Diante da lembrança ou da representação de uma experiência traumática e insuportável, o indivíduo sente-se ameaçado. Para eliminar essa ameaça, assume pura e simplesmente a postura da negação. Um exemplo clássico da negação é fornecido por Freud, quando um de seus pacientes relatou ter sonhado com uma mulher. Logo em seguida, esse mesmo paciente esclareceu que aquela mulher não era sua mãe. Ou seja: o paciente havia sonhado com sua mãe.

Nesse exemplo, a negação visa evitar aquilo que o paciente considera uma ameaça para si mesmo: reconhecer que sonhou com a própria mãe, o que poderia indicar seu desejo incestuoso inconsciente. Essa ideia é insuportável, o que leva o paciente a negar que houvesse sonhado com sua mãe. Mas percebam que, se o objetivo é evitar aquilo que é insuportável ou traumático (o desejo pela própria mãe), esse objetivo não é plenamente realizado pela negação. Freud não havia perguntado ao seu paciente se a mulher em seu sonho era sua mãe, mas foi o próprio paciente que se adiantou na resposta. A negação sempre deixa um rastro daquilo que quer negar ou eliminar. Para eliminar a ameaça (“aquela mulher era minha mãe”), o indivíduo nega (“aquela mulher não era minha mãe”), mas deixa um rastro de sua afirmação (“aquela mulher não era minha mãe”).

Esse exemplo é bastante ilustrativo para pensarmos outras modalidades de negação. A negação do conteúdo desse sonho poderia se manifestar como uma projeção no outro da ideia insuportável. Nesse caso, o paciente poderia afirmar que essa ideia (“essa mulher com quem eu sonhei é minha mãe”) foi desenvolvida pelo próprio Freud (“sei que você acha que essa mulher com quem eu sonhei é minha mãe”), e não ele. Mesmo assim, o rastro permanece: (“sei que você acha que essa mulher com quem eu sonhei é minha mãe”). A negação também poderia se manifestar como ideia insignificante, como seu menosprezo ou diminuição de sua importância: “Tive um sonho bobo, sonhei com uma mulher, parecia com minha mãe, mas isso não é importante”.

A função da negação, portanto, é menos tentar impedir que uma ideia traumática alcance a consciência do indivíduo e mais permitir seu acesso sob a condição de ser negada. E esse é o seu aspecto mais interessante: tornar possível que aquilo que é insuportável ou traumático possa ser dito, pois é dito sob a forma da negação. Portanto, sempre há uma afirmação nessa modalidade de negação. Se analisarmos a ocorrência da negação, seremos capazes de reconhecer qual afirmação espera-se evitar.

Aqui, faz-se necessário um importante esclarecimento. A negação é um conceito que foi forjado a partir da clínica e para a clínica. Suas ocorrências devem ser levadas em consideração pelo psicanalista para proceder à análise do paciente. Aplicar esse conceito a um movimento coletivo, situado em um contexto extraclínico, pode implicar em alguns prejuízos teóricos, como a diminuição do rigor da investigação. No entanto, por um lado, esses prejuízos podem ser compensados com ajustes e correções conceituais. Por outro lado, aquela aplicação pode ser entendida como um primeiro passo para se entender o negacionismo, exigindo maiores elaborações e desenvolvimentos de outros psicanalistas e intelectuais.

Posto isso, agora podemos retornar àquilo que chamamos de fronteira móvel do negacionismo. Assim como ocorre na clínica, o negacionismo também pretende evitar aquilo que lhe parece insuportável, aquilo que lhe é traumático. Nenhuma das fronteiras mencionadas anteriormente se mostrou indiferente ou ignorou a pandemia. O próprio Olavo de Carvalho, ao dizer que “Essa epidemia simplesmente não existe” (vídeo postado em 22 mar. 2020), reconhecia existir um discurso sobre a pandemia, mas negava a realidade do conteúdo do discurso. Para justificar essa postura negacionista, contudo, Olavo de Carvalho recorreu a um argumento que, apesar de incorreto, se pretendia científico: “Você não tem nenhum caso confirmado de morte por coronavírus. Porque para confirmar você teria que fazer o exame em cada órgão do falecido.”

A utilização de uma imagem equivocada da ciência para negar a própria ciência pode ser mais bem observada quando nos deslocamos para outra fronteira do negacionismo: utilização de medicamentos como ivermectina e hidroxicloroquina. A eficácia desses medicamentos para o tratamento da covid-19 não foi comprovada cientificamente, mas seus usuários frequentemente recorriam às instruções e orientações pretensamente científicas de supostas autoridades médicas. Por um lado, ao questionarem a determinação do isolamento social, o uso de máscaras e a aplicação de determinadas vacinas, e, por outro lado, defenderem aquilo que ficou conhecido como “tratamento precoce”, os negacionistas, ainda que contrariassem a ciência, acreditavam estar apoiados na ciência.

De um modo ou de outro, os negacionistas recorrem àquilo que entendem como sendo científico. Seu anticientificismo, pelos menos em determinados enunciados, sempre foi muito pontual. Isso nos faz pensar que, mais do que anticientificistas, os negacionistas pretendem evitar ou negar aquilo que lhes é insuportável, aquilo que lhes é traumático. Ao invés de buscarem na ciência recursos para lidarem com a pandemia da covid-19, os negacionistas recorrem a argumentos pseudocientíficos justamente para não reconhecer essa experiência traumática.

O negacionismo, nesse sentido, não deixa de ser uma forma de negação da ciência, mas é muito mais uma negação do caráter traumático e coletivo trazido pela pandemia e explicado e reconhecido pela ciência. Com esse procedimento, o negacionismo sustenta que não cabe à ciência expor o trauma e apresentar meios de lidar com ele, mas cabe a ela ser distorcida, contorcida, deformada e fraturada para atender à fantasia de uma vida sem traumas, de uma vida sem vida, de uma vida sem meio milhão de vidas.

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