Alí Primera, 80: O trovador da Revolução Bolivariana

Um passeio pela vida e poesia do cantor venezuelano. Entre a raiva e a ternura, ele cantou uma América Latina plural e solidária e buscou, por meio da cultura popular, descolonizar corpos e mentes. Até hoje, sua voz embala insurgências

Coño, matei meu segundo pai! – gritou aos prantos Ítalo Américo Silva, um franzino universitário venezuelano, segundo algumas versões. Fraturara as duas pernas e era atendido por paramédicos. Ao fundo, o jeep de Alí Primeira, aclamado cantautor de protesto e agitador cultural latino-americano, virara sucata. Morria, aos 43 anos, o humilde camponês falconiano alçado a Voz do Povo Venezuelano e intelectual póstumo da Revolução Bolivariana, que completaria 80 primaveras neste domingo (31/10), e buscava condensar raiva e ternura, mas “oxalá que a ternura seja muito maior que a raiva nos sonhos de nossa pátria”, como repetia ele.

Passava das três da madrugada do sábado de carnaval de 16 de fevereiro de 1985. Mesmo neste horário, o verão caribeño não dava trégua e pouco refrescara a rodovia Valle-Coche de Caracas. As sirenes vermelho-alaranjadas do corpo de bombeiros e da polícia rodoviária piscavam. Alguns curiosos reduziam a velocidade de seus carros, ou paravam no acostamento, para espiar o grave acidente. Socorristas usavam suas ferramentas hidráulicas para cortar camadas de fuselagem e resgatar o corpo do músico.

Momentos antes, Ítalo saíra de uma festa em Los Teques, bêbado e em alta velocidade, perdendo o controle de seu Ford. Voou sobre a barreira que dividia as pistas e se chocou violentamente contra o veículo de Alí, que regressava tarde do estúdio de La Guaíra, onde gravava aquele que seria seu 14º disco.

Por mórbida ironia do destino, vítima e imprudente motorista se conheciam. Ítalo frequentava o círculo íntimo do artista, a quem nutria carinho quase paternal. Algumas versões transformadas em mitologia, ou o contrário, contam que Ali tomara um empréstimo na véspera do acidente para presentear o pobre muchacho que não tinha sapatos decentes para ir a sua festa.

O trágico acidente que vitimou Alí Primera

A família do músico nunca processou o jovem, que ficou apenas um mês detido e, depois, sumiu do mapa, sem nunca dar entrevistas ou declarações sobre o episódio, o que alimentou rumores de que o acidente tenha sido, na verdade, um assassinato político orquestrado pelo Estado venezuelano, então controlado pela velha direita da Ação Democrática, incomodada com a popularidade (e radicalidade política) de Alí Primera. Ítalo, de acordo com esta versão, seria um infiltrado governista ou mero bode expiatório coagido por agentes da repressão.

Apesar de o atentado nunca ter sido comprovado, incongruências na investigação do acidente fundem-se ao terreno movediço das teorias conspiratórias (assustadoramente plausíveis, quando se trata da repressão política na América Latina) – e com as denúncias do próprio cantor:

Eles tentam me causar um acidente quando dirijo minha velha camionete pelas rodovias do país. Isso já aconteceu três vezes – relatou em entrevistas, meses antes de morrer. – Nunca me perdoarão por eu não me deixar ser intimidado e ter mantido uma conduta consistente com a minha obra…

O funeral de Alí arrastou milhares de fãs que, desde então, todos os anos, realizam a Marcha dos Pregos Vermelhos em sua homenagem, da casa onde o artista viveu sua infância em Paraguaná, hoje convertida em Casa-Museu Alí Primera, até seu túmulo.

Los que mueren por la vida no pueden llamarse muertos”

A voz de Alí tornou-se disparo, como trovara ele em uma de suas emblemáticas canções sobre os mortos da revolução. Em um pobre país latino-americano onde o analfabetismo era extremamente alto até meados do século XXI, sua obra foi importantíssima para formar e mobilizar o povo venezuelano.

– Eu queria chegar até eles e consegui chegar. Apesar da enorme porcentagem de analfabetos que existe no campo venezuelano, no interior, na província, isso não é obstáculo para entenderem minhas canções, porque minhas canções são simples, são línguas do próprio povo… – disse certa vez ele. – Eu não sou cantor apenas para o estudante, apenas para o camponês, sou cantor para o homem e o homem está em todos os rincões da pátria. E mais, uma vez disse que a pátria era qualquer rincão onde existisse um ser humano [alusão a sua canção La Pátria es el Hombre]…

Mesmo após sua morte, sua voz embalou greves operárias, protestos estudantis e marchas camponesas. Tornou-se trilha sonora do Caracazo em 1989, levante popular e espontâneo contra a pobreza extrema que flagelava a população, e da frustrada tentativa de tombar o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez em 1992, liderada pelo até então desconhecido tenente-coronel bolivariano Hugo Chávez que, em 1994, anistiado após amargar dois anos de prisão, era perguntado por uma jornalista sobre qual mensagem tinha para o povo venezuelano.

– Que escutem as canções de Alí Primera – respondeu.

Eleito presidente em 1999, Chávez tratou de fazê-los ouvir Alí, embora criticado por “burocratizar sua música”, fazer um “resgate anacrônico das canções de protesto” ou ser “um Allende em busca de seu Victor Jara”. Ele reconheceu o legado musical do cantor como Patrimônio Nacional da Venezuela, em 2005, e, mais que voz póstuma, Alí era convertido em um dos ideólogos da Revolução Bolivariana, ao lado de figuras históricas como Simón Bolívar e Simón Rodriguez. Em discurso, Chávez, que nunca chegou a conhecê-lo pessoalmente, reconhece o profundo impacto de Alí entre os militares bolivarianos, citando uma declaração dada pelo cantor “14 dias antes de morrer”:

Hugo Chávez no cárcere (entre 1992-94)

– Não podemos seguir vivendo de lembranças dos heróis, temos que tratar de limpar a estátua de Bolívar com dignidade, limpar nossa presença do espaço que existe entre nós e a estátua de Bolívar e, mais ainda, entre o que nós pensamos e o que pensou Bolívar. Esse encontro com o pensamento bolivariano é necessário para irmos semeando algo que será sempre jovem, o sonho de um profundo combate transformador.

Revitalizado pelo chavismo, face e versos de Alí passaram a estampar camisetas, faixas, muros e empenas de prédios em todo o país. Monumentos foram erguidos em sua memória. Uma nova geração o redescobriu, inclusive por meio de regravações de jovens metaleiros e rappers. Em comícios e marchas, o presidente venezuelano sempre o citava e, por vezes, até arriscava a cantá-lo. Chávez morreria em 2013, após uma longa batalha contra o câncer. A trágica notícia dada por seu vice-presidente Nicolás Maduro, em cadeia nacional, buscava unir legados:

– Que levemos o canto de Alí Primera, “os que morrem pela vida não podem ser chamados de mortos”, e a partir desse momento é proibido chorá-lo. Que nos levantemos com o canto de Alí e o espírito de Hugo Chávez, as maiores forças desta Pátria, para afrontar as dificuldades que sejam preciso afrontar.

Raiva e ternura

Na verdade, Alí nasceu Ely, no Dia das Bruxas de 1941, em Coro, primeira cidade (e capital) da Venezuela, fundada em 1527 por comerciantes espanhóis. Mas devido a seus avós de origem árabe, ficou Alí, apesar do que dizia a certidão de nascimento. Quando ele tinha três anos, uma tragédia familiar marcaria sua vida: seu pai Antonio, humilde pescador e “cuatrista [tocador de instrumento de cordas típico da Venezuela] e cantador de salves nas celebrações da Cruz de Maio”, que havia conseguido um trabalho na delegacia local, era acidentalmente assassinado em tiroteio entre a polícia e prisioneiros em fuga.

Desamparada, sua mãe Carmen peregrinou por anos pela região, então assolada pela seca, em busca de sustento para seus sete rebentos, até fixar moradia em La Vela (bairro rebatizado de Alí Primera), um pequeno povoado de pescadores e camponeses, próximo ao recém-implantado complexo petroleiro de Punto Fijo. O pequeno Alí dava uma mão em casa com pequenos bicos: engraxate, ajudante de pescadores, carregando água e lenha para os vizinhos, lavando carros e vendendo doces e empanadas. À noite, assistia aulas com trabalhadores mais velhos que também se alfabetizam, ministradas pele mestre Figueredo, um combativo educador popular que, entre as lições de álgebra e gramática, também buscava escancarar o apartheid social que vivia a Venezuela, entre milhões de miseráveis e uma elite que vivia na opulência com a renda petroleira, sempre citando um tal de Carlos Marx.

Assim ele passou sua infância e adolescência. Mas as coisas não melhoraram em Punto Fijo e, em 1960, sua família se muda para Caracas, como outras milhares, em busca de melhores condições de vida. Alí, com 18 anos, só havia concluído o primário e, logo, entrou no Liceu Caracas para concluir os estudos e, aluno aplicado que era, quatro anos mais tarde ingressava no curso de Química da prestigiada Universidade Central da Venezuela (UCV). Seria o primeiro Primera formado.

Ele já era militante comunista, mas desleixado: preferia o cuatro e o violão, fazendo serenatas e animando parrandas na moradia estudantil. Porém, sua vida universitária não era só boemia e laboratórios. Foi preso duas vezes: em 1965, ao participar de um ato em solidariedade à República Dominicana e, em 1967, em meio a protestos pela autonomia e democratização das universidades públicas. Conduzido aos porões da antiga Digepol, a polícia política venezuelana, foi torturado sob a supervisão de “assessores brasileiros”. A partir daquele momento, as amenidades desapareceram de seu repertório musical, ganha corpo suas primeiras canções de consciência, como diria mais tarde, mais afiadas e combativas.

– A música que sai nesse momento era a música que eu levava dentro de mim, a música que me fora ensinada desde pequeno quando eu era um camponês, aquela música que se fazia serenata, a música com as quais ele [seu pai] cantava para a minha mãe, que cantava à paisagem, só que nesse momento, refletindo, a música aparece já com outro argumento e com outra motivação: o porquê cantar. Assim o cantador caminha para o cantor, por isso a diferença daquele que canta porque tem como cantar e daquele que canta porque tem que cantar e tem um porquê de cantar – disse ele.

No mesmo ano, participa do Festival da Canção de Protesto da Universidade de Los Antes com Humanidad e No basta rezar, onde projeta-se como nome proeminente da Nueva Canción, sendo convidado a cantar em piquetes operários, tomadas de colégios, encontros comunistas, protestos universitários e inúmeros festivais latino-americanos.

Agora, mais visado pelos aparatos de repressão, era prudente ele sair do país. Recebe, em 1969, uma bolsa de estudos do Partido Comunista de Venezuela (PCV) para estudar Engenharia do Petróleo na Universidade Politécnica de Bucareste, na Romênia, então república soviética. Lá, participa de encontros internacionais estudantis e artísticos, de festivais promovidos em países do bloco soviético e devora, em primeira mão, as mais recentes publicações teóricas do marxismo. É tempo de formação política e maturação artística, mas a vida na Europa não era fácil para um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco e sem parentes importantes.

– Na Europa, o mundo me fazia pequeno mesmo com os latino-americanos. Eu lavava pratos para não ter que vender minhas canções e, às vezes, conseguia cantar em locais onde realmente respeitavam minha canção…

Porém, apesar dos perrengues, ainda em terras estrangeiras, grava de forma independente – “quase clandestina”, como depois narraria – contando com ajuda financeira do PCV e de outras entidades de solidariedade internacional, seus primeiros discos, Gente De Mi Tierra e De Una Vez (Canciones del Tercer Mundo – Para Un Solo Mundo) que apesar de censurados na Venezuela, tornam-se sucessos instantâneos, com canções regravadas por diversos outros músicos.

Alí retorna à Venezuela em 1973, sem completar seus estudos em Engenharia, passando a se dedicar integralmente à música e à luta política. Sonhador materialista-dialético como era, justifica que abandonaria a promissora carreira na indústria petrolífera porque nunca esquecera que ganhou seu primeiro par de sapatos em um concurso de poesia, tampouco o que um trabalhador lhe aconselhara: não venda teu canto; se você o vender, me vende; se você o vender, você se vende.

– Me dá vontade de cantar cada vez que eu lembro – dizia, ao rememorar o episódio.

Um incômodo popstar

De volta a seu país natal, já era considerado um dos principais cantores e compositores populares da América Latina, apesar de “embargado” por gravadoras, rádios, TV e grande imprensa venezuelanas, o que restringia a circulação de seu trabalho. Numa época em que a esquerda do país sequer cogitava formar um cenário de música independente, ele lança o Cigarrón, seu próprio selo, reunindo importantes nomes da música popular e de protesto como Lilia Vera, Gloria Martín, Los Guaraguao e José Montecano, seu meio-irmão.

Deu certo. Podia gravar com mais liberdade seus discos, mas as vendas eram feitas em forma de guerrilha, em pequenas lojas populares, feiras, em shows e festivais culturais, em protestos e atos políticos – e em algumas poucas lojas comerciais que ousavam reverberar o “trabalho panfletário” de um “comunista”. Com carros emprestados, levava sua banda, equipamentos musicais e a lojinha Cigarrón a todo o país. De pracinhas e centros comunitários do interior a grandes estádios nos centros urbanos, seus concertos lotavam, e Alí se tornou-se um dos cantores mais vendidos do país. Pôde então amadurecer seu projeto artístico – e político.

Uma coisa era certa para Alí: queria cantar a América Indígena, Negra, Branca e Mulata, o sonho de Pátria Grande, mas sem pasteurizar a ideia de popular ou de povo. Em vez de esperar o “beijo da musa”, colocou a mão na massa, se aproximando ainda mais de folcloristas, renomados nomes do cancioneiro popular regional e muchachos desconhecidos (e talentosos). Em vez de empolamentos líricos, usaria versos direitos e cortantes para comunicar ideias urgentes (e insurgentes) de foma mais efetiva.

[Que] nossa canção se converta em um veículo que ajude na defesa de nossa raiz como povo, da nossa identidade como povo. Nesse momento se converte em um movimento político – disse ele. – Não vamos aos povoados apenas para que eles nos escutem, mas também vamos para promover artistas regionais, que às vezes têm dificuldade em conseguir um público maior para suas canções. Só estamos unidos pela intenção de cantar.

Em sua visão artística, radicalmente arraigadas a busca por um popular não-comercial, as metáforas arrastadas deveriam dar lugar às crônicas poéticas e políticas, ao aqui e agora. Trafegado por diversos ritmos venezuelanos, ele criticou a histórica disputa territorial entre Venezuela e Colômbia (La guerra del petróleo); as tensões entre cultura ancestral e projetos desenvolvimentistas na Ilha Margarita (Pio Tequiche; Isla y piragua); a mercantilização da Saúde (Flora y Ceferino); as moradias precárias e o inchaço das periferias urbanas (Techos de cartón; Ruperto). Também trovou as alegrias e os dramas da Venezuela profunda (Falconía; Juanita la lavandera; Caña clara y tambor; Cunaviche adentro; Doña Josefina), os heróis populares venezuelanos (La Canción de Luis Mariano; Reverón; Tin Marin; El que cantó con Zamora), a política externa estadunidense (Don Samuel; América Latina obrera); as insurgências que incendiavam o mundo, do Vietnã à Cuba (El sombrero azul; La noche del jabalí; Comandante Amigo; No Basta Rezar; Black Power) e o necessário levante contra uma Venezuela de country clubs petroleiros (Canción Bolivariana; Abrebrecha; Canción Mansa Para Un Pueblo Bravo, trilha sonora de filme homônimo; Lo que Mueren por La vida). Mas também havia espaço para afetos “mais pessoais” (Los Dos Pichones Morenos; La piel de mi niña huele a caramelo).

Pega seu violão, empunha sua consciência e canta… – recomendava Alí. – Mostre seu compromisso contra aqueles que fazem com que exista gente de nosso povo vivendo só um pouquinho melhor. Terá que “armar” nossas canções com nossa própria conduta, não com frases rebuscadas em entrevistas; cair em poetização pretensiosa é nos perdermos…

Por vezes, sua busca resvalava em certo sectarismo artístico: era relutante ao uso de baterias, contrabaixos elétricos e metais. “Esse troço tá parecendo Bee Gees”, reclamou uma vez, enquanto membros de sua banda tentavam convencê-lo a refrescar suas concepções musicais – e inclusive, a ser mais aberto à salsa, êxito do Caribe à Miami, mas classificada pelo cantor como “de direita”.

Mas, a medida em que amadurecia seu projeto, passa a dar contornos mais complexos às suas composições, com o uso de mais violões, baixo, cuatro, percussão, mandolina, arpas, violinos, violoncelo, corais e vozes femininas. Seus versos, ganham aquele frescor de terem sido ditados em arroubos poéticos, a plenos pulmões, saindo direto da cabeça ao diafragma, embora fossem frutos de intensa pesquisa e burilação. Neste momento de efervescência criativa, seu apartamento era convertido em cuartel general do novo cancioneiro popular venezuelano, sempre de portas abertas a músicos tarimbados e aspirantes, jovens estudantes e camponeses de visita a Caracas, intelectuais e lideranças operárias. E, madrugada adentro, ele compunha embalado pelos embates artísticos e políticos (e pelo Vômito do Dragão, uma mistura de rum, limão e mel), por vezes acompanhado por sua banda, que lá amanheciam em colchões improvisados na sala, por vezes telefonando a amigos próximos às três da matina para compartilhar seus lampejos. “A revolução não acorda cedo”, respondia Lucía, senhora que colocava ordem na casa sempre caótica, às inoportunas ligações matutinas para Alí.

A arte como forma de luta

Em 1978, o cenário político venezuelano era conturbado: a guerrilha surgida em 1961 entrava em refluxo, boa parte dos dirigentes comunistas estavam presos, o Pacto de Punto Fijo, em que as oligarquias do país se alternavam no poder desde 1958 (sob um verniz de democracia), continuava vigente – e as multinacionais petroleiras, espoliando as imensas reservas naturais do “ouro negro”. Mas também fervilhavam insurreições populares na América Latina, o exemplo contundente era a Cuba de Fidel, e a tônica da conjuntura era: sim, é possível tombar o capitalismo.

A grande questão para a fragmentada esquerda venezuelana era como “organizar o entusiasmo” – e direcioná-lo à ação revolucionária. Alí tinha uma ideia: a Cultura Popular poderia ser o ponto de partida. Se cair a mordaça, é mais fácil quebrar as correntes, cantava. Com dirigentes da Liga Socialista, intelectuais, lideranças de movimentos sociais e militantes autônomos, ele fundou o Comitê pela Unidade do Povo (CUP), organização da qual seria voz e rosto.

A premissa era superar a dicotomia entre participação eleitoral e via armada, que acirrava ânimos, organizar uma plataforma política mais plural e aberta aos descontentes de vários espectros políticos (inclusive, de setores mais à direita), sem os vícios do Partidão venezuelano, e adentrar as periferias urbanas e os grotões do país, estar ombro a ombro com proletários e camponeses, por meio de iniciativas culturais e de comunicação popular.

– Não existe linha divisória entre o artista e o militante revolucionário – afirmava o cantor. – Como cantor, significa que eu estou utilizando, no sentido mais válido da palavra utilizar, um instrumento que é valiosíssimo para a mobilização do povo, para a conscientização do povo, que é a expressão cultural levada por meio da música. Não existe linha divisória porque não se poder ser um cantor da esperança, pela esperança e pelo combate se você não for um militante esperançoso por esse combate.

Mesmo com parcos recursos financeiros, a CUP capitaneada por Alí criou diversos núcleos pelo país, avançando em sua plataforma de frente ampla anti-imperialista, solidariedade ativa com as lutas populares de outros países e elaboração de uma proposta cultural sintonizada com as mobilizações políticas. Havia a Nueva Canción, emblemático movimento latino-americano da “canção de protesto”, cujos expoentes eram Oscar Chávez (México), os irmãos Mejía Godoy (Nicarágua), Silvio Rodriguez e Pablo Milanés (Cuba), Victor Jara e Violeta Parra (Chile) e Alfredo Zitarrosa e Daniel Viglietti (Uruguai). Alí era frequentemente associado a esta vertente de cantautores, inclusive homenageara alguns deles em suas canções, mas suas pesquisas sobre o cancioneiro popular o levou a um ponto de ruptura intelectual com a Nueva Canción.

Entre o idealismo artístico e o marxismo-leninista, ele buscava aliar não apenas conteúdo e forma revolucionários, como propunha Maiakóvski, mas também ação revolucionária. Que sua canção fosse não apenas voz, mas também braços e mãos na luta política. Um cantor não se faria apenas pelo retrata, sugeria ele, mas sobretudo por aquilo que mobiliza, quando sua canção não são apenas cantarolada, mas torna-se convite à insubordinação. Seria, como ele mesmo advertia previamente, tachada de “panfletária e contestatória, rebelde, agitadora e militante” – e não haveria nenhum problema nisso.

– Quando comecei [a cantar], desconhecia totalmente o termo protesto, o termo que, verdade seja dita, eu rechaço logo, categoricamente, porque eu não protesto, eu não canto para protestar, eu canto para convocar, por ser parte de uma consciência que se forma com a música. Protestar, às vezes, é simplesmente apresentar um desconforto espiritual diante de uma situação, mas só até aqui. Eu canto e milito com a música, com o canto como uma arma, como ajuda, como suporte – justificava ele. – Não fazemos uma canção por malcriação, não fazemos ela por vaidade nem para ficarmos milionários, é uma Canção Necessária. […] Não canto porque existe a miséria, mas porque existe a possibilidade de abolí-la, de erradicá-la da face da terra.

Na Canção Necessária, música e poesia fluiriam em cinco vertentes fundamentais: a Canção Solidária, insurgente contra a insensibilidade individualista; a Canção pela Unidade do Povo Venezuelano, que trovaria a busca de saídas coletivas frente aos dramas nacionais; a Canção Militante, denunciando as ditaduras latino-americanas e o imperialismo dos EUA; a Canção Bolivariana, que resgataria o projeto de Pátria Grande entre os povos do continente; e, por fim, a Canção pela Liberdade dos Presos Políticos, para agitar a opinião pública contra as inúmeras arbitrariedades do Estado venezuelano.

As tarefas da CUP eram hercúleas, principalmente frente a desorganização das esquerdas venezuelanas e os sonhos nutridos por Alí, mas ela conseguiu algumas vitórias como a liberdade para presos políticas após intensa campanha; a construção de casas culturais em bairros periféricos e povoados do interior; a arrecadação de fundos em solidariedade às famílias afetadas por tragédias naturais; barrar megaprojetos extrativistas que devastariam o meio ambiente; a realização de encontros nacionais; e organizar em todo o país gigantescas mobilizações no Bicentenário de Bolívar, em 1983, que contou com a participação de importantes nomes da cultura latino-americana.

Mas, numa madrugada abafada do verão caribeño de 1985, um acidente (ou atentado, como sugerem alguns) na rodovia Valle-Coche de Caracas debilitaria o projeto. O panita Alí, parte fundamental da acumulação de forças da CUP e da resistência cultural que poderia se irradiar pelo país, o trovador bolivariano de madeixas e barbas desgrenhadas, voz cavernosa, mãos calejadas pela vida camponesa e pelo cuatro, o qual carregava a tiracolo como seu fuzil em busca de uma utopia possível e urgente via Cultura Popular, morria tragicamente, há poucas horas da aurora despontar entre as montanhas caraquenhas, mas, como ele mesmo já advertira, não é tempo de recuar nem de viver de lendas, para amanhecer basta apenas o povo cantar de galo.

(Algumas importantes fontes para este perfil foram sugeridas por Nelys Godoy, venezuelana apaixonado pelo legado de Alí, a quem agradeço imensamente)

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Referências e para saber mais:

Alí Primera: a quemarropa. Org: Grisel Marroquí e Andrés Castillo, livro publicado pelo Fondo Editorial em 2004.

Alí Primera, el materialismo histórico y dialéctico hecho canción, de Roberto Herrera, publicado no Rebelion em 12/2/2010.

Alí Primera: La canción como rebelión popular, de Larissa Costas Manaure, publicado em Con Nuestra América em 20/2/2010.

La última entrevista a Alí Primera, publicado realizado por Mariam Nuñez em 24/1/1985, republicada em Mictlan-Tecuhtli.

Entrevista a Alí Primera, realizada en 1979 por Porfirio Torres (em áudio), republicada pelo Resolver em 24/1/21.

Hugo Chávez, Alí Primera, and the politics of popular music in Venezuela, de Hazel Marsh, publicada pelo The Conversation em 6/3/2017

El presidente Alí Primera, de Enrique Milanés León, publicado em Juventud Rebelde em 6/3/2018

Cantor de protesto dos 70 vira hit bolivariano, de Sylvia Colombo, publicado na Folha de SP em 18/11/2007

Alí Primera, entre la rabia y la ternura, da Coordenação Simón Bolívar, publicado no Rebelión em 2/11/2013

¿Pudo predecir su muerte el cantor y revolucionario venezolano Alí Primera?, de Ernesto J. Navarro, publicado pelo RT em 16/2/2018

Los comités por la unidad del pueblo, de Larissa Costas, publicado pelo blog La Huella Fertil de Alí Primeira em 14/3/2014

Alí Primera y las artes como forma de lucha, de Alí Costas Manaure, publicado em Trama Al Sur em 23/8/2021.


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Um comentario para "Alí Primera, 80: O trovador da Revolução Bolivariana"

  1. Nelys Godoy disse:

    Excelente Publicación Felicitaciones

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