Três anos sem Mestre Moa do Katendê

Capoeirista, músico e educador popular baiano foi assassinado em 2018 por mãos bolsonaristas. Sua vida foi marcada pela resistência e valorização da cultura afro. “Quem vai quebrar a máquina do mal?”, indagava. Canção homenageia seu legado

Foto: Isabella Rudge

Por Rôney Rodrigues

“Só um milagre humano anulará tantos projetos medonhos que matam e escravizam a sociedade e apagam nossos sonhos. Quem vai quebrar a máquina do mal?”
Mestre Moa do Katendê

No dia 8 de outubro de 2018, Romualdo Rosário da Costa, mais conhecido como Mestre Moa do Katendê, era brutalmente assassinado com 12 facadas no Bar do João, no centro de Salvador. Tomava sua cerveja numa tranquila, numa boa, debatendo com seu irmão, o alfaiate Reginaldo Rosário da Costa, os resultados do recente primeiro turno das eleições brasileiras. Um eleitor de Bolsonaro os provocou, saiu sorrateiro do bar e retornou armado para atacá-lo. O crime chocou o país – e, de certa forma, anunciava o desastroso cenário político que se aproximava no Brasil.

“A própria forma dele jogar capoeira era como ele era: aquela coisa leve, tranquila, relax, sem muita agonia no gingado. Isso traduz o capoeirista, a personalidade dele, e mostra exatamente a pessoa que é. E daí em diante a gente começou essa amizade que durou o resto da vida”, lembra o cantor Lazzo Matumbi, em depoimento ao Brasil de Fato.

Um dos mais renomados mestres de capoeira de angola do Brasil, Moa dedicou mais 40 anos também ao afoxé, à dança, ao artesanato, à educação popular e à militância negra. Em sua militância artística, Moa percorreu o país e a Europa e, por onde passava, deixava discípulos na capoeira e no afoxé. Sua proposta era valorizar e levar a todo o mundo as múltiplas manifestações da cultura afro-brasileira. Completaria 67 anos em outubro – mesmo mês do fatídico crime. Para homenageá-lo, seus amigos de caminhada lançaram o videoclipe Viva Môa, com depoimentos do artista e música composta pelo Mestre Gafanhoto, lançada pelo blocos Unidos Venceremos, Kaya na Gandaia e Afoxé Amigos de Katendê, este último fundado pelo próprio Môa em parceria com Mestre Plínio. “Agradecer por você/ Ter ficado entre nós/ Agradecer por você/ Ter feito sua nossa voz”, celebra a composição.

Nas ruas do Dique Pequeno, no bairro do Engenho Velho de Brotas, em Salvador, o jovem Romualdo começou sua relação íntima com a capoeira, com os ensinamentos do Mestre Bobó, dando seguimento ao seu legado. Ele também teve participação ativa no ressurgimento dos afoxés. Criados logo após a abolição da escravidão, esses grupos carnavalescos de resistência da cultura negra foram muito perseguidos e, nos anos 1950, a ascensão dos trios elétricos quase acabou com as agremiações. Porém, na década de 1970, houve um reflorescer desses grupos, impulsionada por embates para resgatar essas raízes culturais. Gilberto Gil, recém-chegado do exílio, faz uma música em homenagem ao afoxé Filhos de Gandhi — e dá nova força ao grupo. Em 1974, é criado o Ilê Aiyê, primeiro bloco afro de Salvador. Foi para o Ilê que Mestre Moa compôs a música que ficaria conhecida como Badauê, que seria posteriormente regravada por Caetano Veloso, e batizou o nome do afoxé que Moa fundou logo em seguida, levando às ruas o ijexá, ritmo que vem dos terreiros de candomblé – e inovando, ao misturar ritmos como reggae, afrobeat e música cubana.

“O Brasil todo está de olho nessa cultura popular, está comendo cultura porque do jeito que o Brasil está, como a gente está vendo aí, quem segura é a Cultura. É a própria que ainda se dá as mãos, se improvisa ali, entendeu? Se formata e vai à luta, vai pra rua. É vontade do povo, não tem jeito, o povo quer!”, diz Mestre Moa, na abertura do videoclipe que o homenageia.

Após sua morte, o legado de Moa na capoeira se transformou em um Projeto de Lei estadual, aprovado neste ano pela Assembleia Legislativa da Bahia, que visa, entre outros pontos, reconhecer a capoeira como atividade educativa, cultural e esportiva, e incentivar as rodas e os mestres tradicionais.

Em entrevista ao Alma Negra, Jacaré DiAlabama, coordenador do Capoeira em Movimento da Bahia (CMB), aponta: “O exemplo de resistência que marcou toda a vida do Mestre Moa. Inclusive, ele foi morto nesse processo de resistência contra um crime de ódio, defendendo a democracia, lutando para que não chegasse na situação que estamos hoje, que foi eleger um presidente da República com essas características neofascistas que hoje gera mais de meio milhão de mortos no Brasil e uma crise de valores na nossa sociedade […] Mestre Moa deixa esse ensinamento que é preciso lutar. E é possível construir vitórias na luta. Uma mensagem de união, de congregação. E esse é um dos maiores desafios do povo baiano e do povo brasileiro”.

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