"Trabalho e Cidadania na era do Capitalismo Cognitivo"

Em nova edição de seu livro, Giuseppe Cocco sustenta: novas relações de trabalho adotam, cada vez mais, lógicas da colaboração. Capital tenta capturá-las, mas pode ser vencido

Em nova edição de seu livro, Giuseppe Cocco sustenta: novas relações de trabalho adotam, cada vez mais, lógicas da colaboração. Capital tenta capturá-las, mas pode ser vencido

Por Bruno Cava, no Quadrado dos Loucos

Resenha de COCCO, Giuseppe. Trabalho e cidadania: produção de direitos na crise do capitalismo global. 3a ed. (ampliada). São Paulo: 2012 [2000], Cortez.

O trabalho não acabou. Não diminuiu de importância. Pelo contrário. O trabalho continua central no modo de produção capitalista. O capitalismo precisa de todos e não poupa esforços para integrar cada um, numa tendência de incorporação absoluta das capacidades produtivas do tecido social. Nenhum contingente de trabalhadores de reserva faz mais sentido, em tempos de capitalismo globalizado. A inclusão social é pauta prioritária dos governos. Nesse contexto, a desigualdade não é reproduzida por meio da exclusão social, mas pela inclusão. Não se está na era do fim do trabalho, mas do trabalho integralizado, do trabalho que investe a vida toda.

Mas o trabalho, agora, é outro. O trabalho mudou completamente. Em vez de desdobrar esquematicamente o capitalismo em etapas históricas, o autor propõe entender como a própria essência do trabalho mudou. Muito mais que um subproduto do capital, o trabalho tem história. Um trabalho que existe antes e além do capital, um trabalho vivo. É essa história do trabalho vivo, sua reexistência permanente diante das forças do capital, que vai determinar como o capitalismo funciona. As lutas vêm primeiro. A sociologia do trabalho se abre e o conceito de “modo de produção” vira de ponta cabeça. Nem tanto é um modo sistêmico que se aplica sobre a “produção em geral”, mas são as mutações na própria base material e na composição do trabalho vivo que definem os modos de produção. O desejo na materialidade do fazer não é uma invariância histórica. As forças produtivas se metamorfoseiam. Exprimem qualidades que não existiam, inovam, reinventam-se.

A mutação das forças produtivas conforma uma nova ontologia do ser social. O que se traduz por uma nova organização do trabalho vivo, fundado na cooperação, diferenciação e singularização. A ação do capital aparece depois. Ele parasita essa geração de riqueza. Para isso, tem de impedir a auto-organização das forças produtivas. Tem de forçar-lhes as mediações do mercado e do estado. Precisa impor as relações de produção (as mediações sistematizadas) sobre as forças produtivas. O modo de produção capitalista implica imediatamente a crise. Pautada pelo antagonismo irredutível entre o trabalho vivo e o capital que o vampiriza, essa crise ronda local e globalmente as relações sociais no mundo capitalista. A emergência de novos sujeitos vem sempre acompanhada por novas tecnologias de controle e mediação. Mas essa reação é segunda e parasitária. Ela pode ser dispensada pela organização da autonomia. A produção do comum, essa auto-organização das singularidades cuja produtividade imanente prescinde das mediações do mercado e do estado, da métrica capitalista do valor.

Isto também inverte uma equação tradicional. Muda o conceito de “inclusão social”. Não é mais a inserção no mundo do trabalho que atua como condição para os direitos. É o próprio comum produtivo que atua como condição para que o trabalho aconteça e gere qualidade de vida. É o próprio trabalho de direitos, direitos como potência, como relação e mobilidade, como realização das virtualidades e diferenças, que assegura a força produtiva das redes e tempos libertos do capital. A reapropriação dos direitos — renda, saúde, educação, moradia etc — já é constituição material de liberdade e democracia. Tudo isso enseja a imaginação de um direito de “novo tipo”, um direito do comum, que confira duração e institucionalidade à nova situação da classe produtora.

Nesse sentido, a perspectiva do comum consiste numa segunda via, em relação ao estado e ao mercado. A dialética do privado e do público é o próprio motor do capitalismo. Dois polos tensionados na aparição da modernidade, a era do capital. Erra politicamente quem atribui como aspecto central da modernidade o triunfo da razão instrumental, da técnica, do poder, do “totalitarismo”. Modernidade = capitalismo. O capitalismo é moderno, e quando tenta se pós-modernizar, acelera a própria catástrofe. Ao esfumar as categorias do público e do privado, do estado e do mercado, o capital expõe a tautologia de sua crise: valor = comando. A extrema abstração alcançada pelo sistema financeiro expõe o arbítrio da definição de quanto valem sujeitos e objetos, da métrica capitalista como um todo, e do valor como mediador das relações. A relação social do capital não passa de violência e desigualdade travestidas de justiça.

A rigor, não existe capitalismo pós-moderno. Nós é que somos! Se pré-moderno é o “outro” com que o moderno busca se legitimar (o civilizado contra o selvagem, a liberdade individual contra o antigo regime, o direito civil contra o arbítrio, a modernização contra o arcaico etc) e, portanto, o pré-moderno é forjado pelo moderno; o pós-moderno precede a ambos. Precede como ontologia. Jamais deixamos de ser pós-modernos. O comunismo que importa, assim, não se encontra nalguma comunalidade pré-capitalista. Não há estado de natureza a resgatar-se nem bons selvagens. “O comunismo é uma condição prévia que precisa se renovar continuamente como processo constituinte“. Somente hoje acontece o comunismo. Agora mesmo, na proliferação de alteridade radical ao capitalismo, no trabalho vivo dos índios da metrópole, do devir-índio e do devir-pobre.

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2 comentários para ""Trabalho e Cidadania na era do Capitalismo Cognitivo""

  1. Julio Cesar disse:

    realizações do comunismo pelo mundo
    1)estupro de 5.000.000 de mulheres pelos comunas(comunistas)
    2)assassinato de 100.000.000 de pessoas pelos comunistas
    só isso é o suficiente para mostrar que comunismo não presta

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