Pobres, portanto perigosos

A comunidade do Jardim São Remo, vizinha e fornecedora de mão-de-obra da USP, é a primeira e maior vítima das medidas que isolam, geográfica e socialmente, cada vez mais a universidade do mundo e, também, da cobertura midiática tradicional.

Por Dennis de Oliveira, no Quilombo

Protesto por direito ao uso gratuito do circular uspiano para os moradores do São Remo

Protesto por direito ao uso gratuito do circular da USP

Nem a conquista de um prêmio internacional de “break”, nem a luta por transporte público convertem a favela de São Remo — vizinha a USP — em notícia. Mas a mídia pira numa operação policial…

Por Dennis de Oliveira, no Quilombo

Em fevereiro do ano passado, moradores do Jardim São Remo que residiam em casas à beira de um riacho ficaram desabrigados. As fortes chuvas que caíram destruíram suas casas. A prefeitura ofereceu, como auxílio aos desabrigados, um “auxílio aluguel” de R$350,00 por seis meses e nada mais. O jornal Notícias do Jardim São Remo (NJSR), jornal comunitário produzido pelos alunos do primeiro ano do curso de Jornalismo da ECA, sob a minha supervisão, cobriu o fato, inclusive com uma edição especial. Além de cobrir o fato, mandamos releases para todos os órgãos de comunicação, mas apenas a rádio CBN cobriu o fato.

O Jardim São Remo tem, entre os seus moradores, jovens que fazem parte de um grupo de break, o Cybernétikos, que disputou e chegou a ser vice-campeão mundial nos EUA. Tem participado de certames internacionais há mais de três anos. O jornal NJSR tem dado destaque à trajetória do Cybernétikos. O que a mídia hegemônica tem falado disso? Nada.

Os moradores do Jardim São Remo têm sofrido constantemente com as contas altíssimas de energia elétrica. A AES Eletropaulo tem se mostrado refratária a qualquer discussão sobre as contas. A regularização das ligações elétricas na comunidade foi acompanhada de várias confusões, inclusive na troca das geladeiras que foi feita em dia de semana, quando a maioria está trabalhando. O jornal NJSR tem acompanhado este problema em várias edições. E a mídia hegemônica? Nada.

A reitoria da USP reduziu drasticamente a oferta do circular gratuito no campus universitário do Butantã e implantou o “Bilhete USP” que permite a utilização gratuita por parte de professores, alunos e funcionários diretos da universidade de uma linha que circula no campus e vai até o metrô Butantã. Boa parte dos moradores do Jardim São Remo trabalha em empresas terceirizadas ou prestadoras de serviço na universidade e, portanto, não tem direito ao “Bilhete USP”. Com o esvaziamento do circular gratuito, estes moradores tiveram que arcar com um novo gasto no seu orçamento. O jornal NJSR cobriu este fato e a mídia hegemônica, nada.

O Jardim São Remo finalmente aparece na mídia hegemônica – durante a invasão da Polícia Militar na comunidade no dia 30 de outubro. Imagens passadas nos telejornais da hora do almoço mostraram a apreensão de drogas, o desmonte de uma refinaria de cocaína e a busca de um suspeito de ter matado um policial da Rota no mês passado no bairro do Butantã. A favela ganha o horário nobre, no Jornal Nacional. É manchete principal no portal UOL que fala de um túnel secreto por onde passavam drogas para o campus da USP.

A imagem do Jardim São Remo que se constrói no imaginário é essa: um local de bandidos, traficantes e assassinos de policiais. Os barracos são pontos de refino de drogas. E a polícia vai até lá para acabar com isso.

Enquanto isso, os moradores tiveram sua dura rotina alterada com as “blitzes” dos policiais que pararam e revistavam todo mundo que passava. Só a repórter da Globo, no SPTV – de helicóptero! – dizia que a vida na comunidade continuava “normal”. Mas isto, assim como o grupo de break, a festa das crianças da dona Fatinha organizada há 19 anos no dia 12 de outubro nas ruas da comunidade, o futebol dos domingos, a escolinha de futebol do Mariano que atende dezenas de crianças, a luta contra as contas altas de energia, o Sarau da Remo que já dura um ano, o drama dos moradores desabrigados do Riacho Doce, a batalha da Dona Eva que leva crianças e adolescentes a visitar museus na USP, os agentes comunitários de saúde do Centro de Saúde Escola que desenvolvem um trabalho de saúde preventiva na comunidade, a associação de moradores, os projetos Alavanca, Girassol, Circo-Escola funcionando com o trabalho de pessoas da comunidade… Tudo isso que possibilita ter um olhar mais amplo sobre o que é esta comunidade, está fora das páginas da mídia hegemônica. E não só do Jardim São Remo, mas de Paraisópolis, Heliópolis, Cidade Tiradentes, Capão Redondo e todas as periferias afora.

Esta é a importância do jornalismo comunitário, popular, alternativo, contra-hegemônico. É nestes momentos que se verifica o olhar ideológico da mídia hegemônica cujos analistas depois não conseguem explicar porque a população, na hora de votar, pouca importância dá para a agenda que esta mídia constrói. Aí vem o comentário daquela famosa colunista de um grande jornal dizer: “O povo está contra a opinião pública!”

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também:

2 comentários para "Pobres, portanto perigosos"

  1. Acredita-se que a "piração" da mídia se deva ao fato do Governo Federal estar disposto ao combate ao terrorismo, tráfico de drogas e armamentos. Aliado a isso, a matança que vem ocorrendo está fazendo com que as autoridades competentes tomem as devidas providencias.

  2. Isso você não lê no jornal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *