Três debates sobre a pandemia

Falar em uma ou em várias ondas? Evitar catástrofes ou lidar com elas? Reduzir consumo ou aceitar colapso da sociedade?

Imagem: O Triunfo da Morte, de Pieter Bruegel

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Para a Organização Mundial da Saúde, a pandemia tem a forma de “uma grande onda” – e não há evidências de que o novo coronavírus se comporte de forma sazonal, melhorando no verão e piorando no inverno. A declaração dada ontem pela porta-voz do organismo, Margaret Harris, está sendo considerada um ponto de inflexão no debate sobre a imprecisão de um termo que ficou muito conhecido (e nós mesmos já usamos muito por aqui): segunda onda. 

Para começo de conversa, não há uma definição científica consensual sobre o termo que tem sido usado para explicar desde repiques a crises nacionais completas, nota uma reportagem do Guardian. O Centro de Medicina Baseada em Evidências da Universidade de Oxford examinou dez epidemias de doenças respiratórias que ocorreram desde 1889 e concluiu que a maior parte do pensamento sobre segunda onda surge da gripe espanhola de 1918-20. Os pesquisadores argumentam que falar em ‘ondas’ pressupõe que no intervalo entre uma e outra não haja circulação viral – “o que provavelmente é uma ilusão”, escreveram Tom Jefferson e Carl Heneghan. 

“’Segunda onda’ não é um termo que usaríamos [em epidemiologia] no momento atual, pois o vírus não desapareceu, está em nossa população, se espalhou para 188 países até agora e o que vemos são picos localizados ou o retorno localizado de um grande número de casos”, explica, por sua vez, Linda Bauld, da Universidade de Edimburgo, na reportagem. 

E provavelmente não estaríamos discutindo nada disso se essa devastadora emergência sanitária tivesse sido evitada. Um estudo publicado na Science alerta: prevenir o surgimento de novas doenças pela preservação do meio ambiente é até 500 mais barato do que lidar com os impactos de uma pandemia. Os pesquisadores recomendam mais investimentos no monitoramento de florestas tropicais e na fiscalização do comércio de animais silvestres. Isso custaria anualmente algo em torno de US$ 22,2 e 30,7 bilhões. Em comparação, a pandemia de covid-19 deve custar entre US$ 8,1 e US$ 15,8 trilhões.

Contudo, é discutível se o fortalecimento institucional de órgãos ambientais seja o suficiente para deter o desmatamento e a exploração predatória de bens naturais.  O historiador Luiz Marques, da Unicamp, reflete sobre isso em uma entrevista ao Instituto Unisinos. Ele argumenta que muito mais do que se desesperar com o vírus e com as mudanças que ele impõe, é preciso entender que ele não é causa, mas efeito de uma engrenagem mais complexa. E defende ser preciso abandonar a ideia de que o capitalismo é uma máquina que pode ser ‘educada’ para novos tempos. Mas alerta: “A sociedade pós-capitalista será também uma sociedade pós-socialista, pois, do ponto de vista ambiental, o socialismo foi tão catastrófico quanto é o capitalismo.”

E podemos não ter tanto tempo assim para fazer uma mudança que enderece o problema. A Vice resgatou um interessante (e apavorante) estudo feito pelos físicos teóricos Gerardo Aquino e Mauro Bologna, publicado na Nature em maio deste ano. Especializados em sistemas complexos, eles se debruçaram sobre os impactos do desmatamento. Antes do surgimento de civilizações humanas, as florestas ocupavam 60 milhões de quilômetros quadrados no planeta. Hoje, essa área é menor do que 40 milhões. Se nada mudar em termos de consumo de recursos naturais, a probabilidade estatística de a humanidade sobreviver sem enfrentar alguma catástrofe é “muito baixa”. O colapso da sociedade como a conhecemos é o cenário mais provável – com 90% de chances de acontecer. E isso pode começar em pouco tempo: daqui a 20 ou 40 anos. 

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