Sudeste Asiático e África vivem agravamento da pandemia

Indonésia, Mianmar e Vietnã sofrem com aumento vertiginoso de casos e mortes, enquanto países africanos registram piores índices na relação entre óbitos e tamanho da população. Avanço da Delta e desigualdade na vacinação explicam o quadro


Foto: Ulet Ifansasti/The New York Times

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A Indonésia é hoje, em números absolutos, o epicentro da pandemia, com uma média de mais de 1,7 mil mortes diárias por covid-19 – para comparação, em todo o ano passado esse número nunca passou de 200. Na capital Jacarta, um novo cemitério foi inaugurado em março para receber 7,2 mil corpos, mas o espaço não deve ser suficiente: as curvas seguem subindo, e a cidade planeja abrir mais 10 hectares para aumentar a capacidade de realizar enterros.

Esse não é o único país do Sudeste Asiático lutando com uma piora brusca em seus índices. Vietnã e Mianmar, que conseguiram passar praticamente incólumes pelo vírus até junho, começaram a ver suas hospitalizações e mortes crescerem desde então. Em Mianmar, se for levado em consideração o número de habitantes, a situação é tão ruim quanto na Indonésia. No Vietnã, embora os números absolutos continuem baixos (foram apenas 1.161 mortes por Covid-19 ao todo até o último sábado), o que assusta é a variação: nas últimas duas semanas, a média de mortes diárias foi de 20 para 133.

Já quando se olha para a as mortes em relação ao tamanho da população, é na África que estão os piores países: Tunísia, Namíbia e Botswana são as três nações com mais mortes por milhão de habitantes. Em todo o continente, as mortes subiram nada menos que 80% no mês de julho. Como a população africana em geral é muito jovem – portanto com menos chance de adoecer gravemente e morrer por covid-19 –, isso é ainda mais impressionante. Os números de casos e óbitos seguem baixos em muitos desses países, mas, como existem dificuldades de registro, provavelmente há muita subnotificação. 

Tempestade perfeita

A cepa Delta provavelmente está por trás de boa parte das infecções nesses países, embora só tenhamos encontrado dados sobre dois deles: na Indonésia e em Botswana essa variante já reina quase absoluta, representando 93% e 80% dos casos, respectivamente. E ela já foi relatada em 14 países africanos, estando presente na maior parte das amostras sequenciadas em julho em Uganda e na República Democrática do Congo, segundo o Centre for Investigative Journalism Malawi.

Mas um dos principiais ingredientes dessa tempestade perfeita é a baixa cobertura vacinal. Só 7,5% dos indonésios e 0,64% dos vietnamitas estão totalmente vacinados. Na Namíbia, são menos de 2%; na Tunísia, 8%. Na sexta, o diretor da OMS Tedros Ghebreyesus disse que apenas 3,5 milhões de doses estão sendo administradas por semana em todo o continente africano. Para cumprir a meta de vacinar 10% da população até setembro, porém, esse número teria que subir para 21 milhões, o que não está nem perto de acontecer.

Temos falado muito aqui sobre a desigualdade entre os países ricos e os de média/baixa renda quanto à distribuição de imunizantes, e esse é um nó gigantesco. Mas infelizmente não é o único. Duas reportagens interessantes tratam especificamente do caso da Nigéria, onde menos de 1% da população está totalmente vacinada.

A primeira, da Foundation for Investigative Journalism, explica que 80% dos centros de saúde do país não têm capacidade para administrar os imunizantes. As falhas são principalmente na infraestrutura (em 20% deles não há qualquer forma de energia elétrica, e mais de metade não tem os refrigeradores recomendados).

A segunda trata da hesitação vacinal, que, apesar do resultado igualmente ruim, tem motivações distintas ao redor do mundo. O Premium Times fala especificamente do estado de Sokoto, onde os temores se fundam em um criminoso ensaio clínico conduzido pela Pfizer há quase três décadas em Kano, estado próximo. Foi em 1996, quando uma epidemia de meningite assolou todo o país. No ensaio, a Pfizer testou um novo antibiótico em 100 crianças e bebês sem pedir o consentimento das famílias; 11 crianças morreram e dezenas tiveram algum tipo de sequela. Durante anos, a Pfizer alegou que os problemas haviam sido causados pela meningite, e não pelo remédio. Apenas em 2011, após um longo litígio e testes genéticos nas vítimas, foi feito um acordo para indenizar as famílias. 

O efeito dessa história na pandemia hoje é uma desconfiança que sequer se restringe à Pfizer. “Sim, concordamos que o coronavírus existe, mas nunca vou aceitar nada vindo dos brancos como solução. Prefiro usar ervas tradicionais”, diz uma gestante entrevistada. “Acredito que exista o vírus e estou entre as pessoas que se mobilizaram para esclarecer as pessoas sobre ele. Mas não quero a vacina porque não sei como meu corpo reagiria a ela. Pode ser útil, mas eu não quero”, afirma outra mulher.

A piora nos indicadores da pandemia, porém, tem feito parte dessa população relutante mudar de ideia, diz a Associated Press.

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