Só para incendiar

Bolsonaro diz que pode comprar CoronaVac, mas não pelo preço que “um caboclo aí quer”, referindo-se a Doria. E mais: ajuda a espalhar fake news de que suicídio poderia ser causado pela vacina

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 13 de novembro. Leia a edição inteira.
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O presidente Jair Bolsonaro continua querendo gerar confusão e dúvida a respeito da CoronaVac. A Anvisa já liberou a retomada dos testes clínicos, concordando com os relatórios que indicam não haver relação entre a morte do voluntário de 32 anos e a vacina. A morte foi registrada como suicídio; os laudos do IML e do Instituto de Criminalística divulgados ontem apontam que ela ocorreu em consequência de intoxicação por opioides, sedativos e álcool.

Surgem boatos de que a vacina poderia estar relacionada ao suicídio por induzir à depressão. Embora esse seja um efeito observado em alguns medicamentos, não há nenhum registro na literatura científica relacionando imunizantes a depressão ou ideação suicida. Se o presidente não fosse quem é, neste momento estaria atuando para combater as fake news e fortalecer a confiança da população na ciência. Mas o que temos é  Bolsonaro, e seu modus operandi é espalhar centelhas de dúvidas. “Vão apurar a causa do suicídio. E daí, obviamente, não tem nada a ver com a vacina. Pode ser um efeito colateral da vacina também? Pode ser, tudo pode ser. Não sei se chegaram à conclusão que esclarece para voltar a pesquisar a vacina, no caso a CoronaVac, da China aí”, disse ontem, em transmissão ao vivo no Facebook. 

Mas se os resultados dos testes forem bons e a Anvisa aprovar a CoronaVac, não distribuí-la a todo o país pelo SUS será um problema. Por isso, o mandatário voltou atrás e disse que “havendo a vacina comprovada pela Anvisa e pelo Ministério da Saúde, a gente vai fazer uma compra”. Só que emendou: “Mas não é comprar no preço que um caboclo aí quer. Está muito preocupado um caboclo aí que essa vacina seja comprada a toque de caixa. Nós vamos querer uma planilha de custo”. O caboclo seria o governador de São Paulo, João Doria (PSDB).

Bolsonaro foi além e disse que só aceita a CoronaVac se a China também a adotar: “Sei que não compete a mim isso aí, mas quero saber se esse país usou a vacina no seu pais. Igual armamento, quando se fabrica armamento em qualquer país do mundo, o país que quer comprar fala: ‘Seu Exército está usando esse armamento? Se está usando, sinal que é bom, então vamos comprar isso aí’”.

Há muito tempo se sabe que a China, numa estratégia bastante controversa, tem oferecido a CoronaVac – e dois outros imunizantes, produzidos pela Sinopharm – a centenas de milhares de seus cidadãos. Recentemente, o governador de São Paulo atestou a segurança da vacina baseando-se justamente nessa aplicação emergencial em 50 mil chineses (com dados que, no entanto, não têm rigor científico, porque não se trata de um ensaio clínico). 

À noite, a Anvisa anunciou que vai enviar uma “missão de inspeção” à China, para avaliar as instalações da Sinovac e da Wuxi Biologics – a primeira é responsável pela desenvolvimento da CoronaVac, e a última produz insumos para a AstraZeneca. Os agentes do órgão regulador vão sair do Brasil hoje. Mas, como a China tem medidas para evitar a transmissão do coronavírus, terão que fazer quarentena. As visitas só vão começar no fim do mês. 

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