Os sinais de uma segunda onda no Brasil

Reversão de tendência é clara em vários estados. Em São Paulo, hospitais privados veem aumento nas internações. Para Jair Bolsonaro, saída é cloroquina

Foto: Agência Brasil

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 12 de novembro. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Hospitais de elite na cidade de São Paulo vêm registrando forte aumento nas hospitalizações por covid-19 ao longo do último mês. O Sírio-Libanês teve picos de 120 internações em abril, momento mais agudo da pandemia na cidade, e no mês passado estava em 80 – agora, voltou a 120. No Hospital do Coração a situação está menos crítica, mas ainda assim as internações dobraram em três semanas, passando de 17 registros em 20 de outubro para mais de 30 no início de novembro. 

Esses números foram divulgados primeiro pela colunista da Folha Mônica Bergamo, depois desenvolvidos por repórteres em vários veículos. Seriam sinais de uma segunda onda no estado que tem o maior número de mortos pela covid-19 no Brasil? Por enquanto, os aumentos na capital paulista só foram percebidos em alguns hospitais privados. Poderíamos estar diante de um repeteco do que aconteceu no começo da pandemia, quando as pessoas mais ricas trouxeram o coronavírus de suas viagens para outros países. “Pode ter relação com o verão europeu, com as classes mais altas, que têm acesso à saúde privada, viajando para lá. O que vemos agora pode ser um cluster [agrupamento] entre as classes mais abastadas que (…) estavam trabalhando de casa, conseguiram se proteger mais e agora estão mais suscetíveis ao vírus”, diz no El País o pesquisador Vitor Mori, membro do Observatório Covid-19 BR. 

Mas, se a rede pública ainda não está lotada, isso pode vir a acontecer em breve. Márcio Bittencourt, do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da USP, nota que nos hospitais públicos as taxas não subiram, mas deixaram de cair:  vinham recuando mês a mês e estagnaram em novembro. E, quando se olha apenas para os leitos de UTI, houve aumento. O mesmo vale para o número de pessoas em ventilação mecânica na rede pública municipal.

Ainda segundo Bittencourt, o padrão de novas internações na grande São Paulo é o mesmo: evidente aumento. E ele nota também os sinais de crescimento em vários estados, como Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. No início deste mês, pesquisadores da Rede Análise Covid-19 chegaram a publicar uma carta aberta à prefeitura de Porto Alegre, mostrando em dados o aumento das internações e pedindo atenção.  Em Manaus, faz algumas semanas que o hospital público de referência covid-19 está quase sem vagas. Na semana passada, comentamos aqui o último boletim do InfoGripe, que monitora as internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave e covid-19: havia sinais de crescimento em nove capitais. 

A Rede Análise Covid-19 também mostrou que, na Europa, o boom de internações e mortes que se vê agora foi anunciado meses antes. Em junho já era possível ver uma reversão na tendência de novos casos (que estavam caindo e passaram a subir). Semanas depois, em julho, deu para começar a ver a reversão na tendência dos óbitos. Mas só no fim de outubro, com os hospitais lotando, os países recomeçaram suas medidas de contenção. Por aqui, temos o agravante de que nossos dados sobre o aumento dos casos não são confiáveis: só percebemos as tendências olhando para as internações. “Estamos em um caminho muito similar ao Europeu. A sensação é a de que estamos ‘torcendo’ ou ‘esperançosos’ de que aqui vai ser diferente”, diz Isaac Schrarstzhaupt, um dos pesquisadores da iniciativa.

Só que essa esperança não é muito fundamentada: testamos pouco, não rastreamos contatos, isolamos mal os infectados. Para Schrarstzhaupt, uma vantagem é o fato de que as reaberturas brasileiras foram mais conservadoras do que as europeias. De nossa parte, acreditamos que o uso obrigatório de máscaras no Brasil pode realmente minimizar os estragos. Porém, as internações crescentes mostram que o momento é de cautela.

O presidente Jair Bolsonaro falou ontem sobre sua ‘estratégia’ para enfrentar uma possível segunda onda: “tratamento precoce” com drogas que ninguém nem discute mais, como a hidroxicloroquina. “Mesmo que houvesse uma segunda onda, é só fazer tratamento precoce. Conversa com o médico, tem três medicamentos para outras coisas que servem também para combater a covid, que a princípio se resolve o assunto”, disse, em transmissão ao vivo nas redes sociais. Ele ainda afirmou que a melhor prevenção é se exercitar, se alimentar bem e “ficar menos fofinho”. E assim seguimos.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: