Remdesivir é ineficaz, segundo OMS

Medicamento, que chegou a ter estoques zerados pelos EUA, foi aposta no início da pademia. Agora, grande ensaio clínico conclui que droga não tem impactos no tratamento da covid-19

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou ontem os resultados parciais do ensaio Solidarity. A pesquisa, ainda sem revisão de pares, concluiu que o remdesivir é ineficaz no tratamento da covid-19. E outros três antivirais também: lopinavir/ritonavir, interferon beta-1a e a famigerada hidroxicloroquina. 

O caso do remdesivir, no entanto, precisa ser analisado com mais detalhes, dada a expectativa que gerou. O medicamento, que é usado para tratar hepatite C e ebola, logo despertou ansiedade. Ensaios clínicos para testar a droga fabricada pela farmacêutica Gilead foram feitos na China e nos EUA. A demanda era tanta que o Reino Unido não pode testar: não havia estoque de remdesivir disponível

Em abril, falamos por aqui do vazamento do estudo chinês, publicado por engano pela OMS em seu site. Ele desapontava: dos 237 pacientes estudados, 158 receberam a droga que não melhorou as condições de quem tomou, nem reduziu a carga viral dos pacientes. Além disso, 18 pessoas que receberam o medicamento tiveram efeitos colaterais  e precisaram parar de tomá-lo. 

Depois disso, foi divulgado aquele que era, até o momento, o maior estudo com o medicamento. Financiado pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, acompanhou 1.063 pacientes em 22 países. Verificou que não havia lá muita diferença na taxa de mortalidade entre quem tomava e não tomava, mas uma expressiva distância no tempo de recuperação dos pacientes. Pessoas que receberam a droga tiveram alta do hospital em média quatro dias mais cedo.

Com base nesses resultados, o remdesivir se tornou o único medicamento contra o novo coronavírus aprovado pela FDA em caráter emergencial. E a Gilead se fartou: anunciou em junho que cobraria de US$ 2.340 a US$ 3.120 nos EUA. Na sequência, o governo Trump adquiriu quase  todo o estoque da droga, deixando o mundo a ver navios por três meses. 

Agora, a notícia do Solidarity chega como um balde de água fria. O ensaio é randomizado e aconteceu em 405 hospitais sediados em mais de 30 países. Participaram 11.266 adultos: 2.750 tomaram remdesivir; 954, hidroxicloroquina; 1.411, lopinavir; 651, interferon e lopinavir, 1.412, apenas Interferon; e 4.088 fizeram parte do grupo controle, que não recebeu os medicamentos. No final, os medicamentos desempenharam pouco ou nenhum papel na redução da mortalidade e no tempo de internação. Foram relatados 1.253 óbitos durante a pesquisa. 

De acordo com a OMS, mesmo que o ensaio ainda precise passar pelo escrutínio científico, ele já produziu “evidências conclusivas” sobre os medicamentos.

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