Pressão, mas de outro tipo

Depois de expulsar consumidores na pandemia, saúde suplementar volta a insistir no nefasto projeto “Mundo Novo”

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A FenaSaúde, que representa as maiores operadoras de planos e seguros de saúde do país, patrocina desde o ano passado uma investida para flexibilizar as regras do setor. O projeto, apelidado de “Mundo Novo”, propõe mudanças que prejudicam o consumidor, segundo diversas entidades. Com a crise econômica gerada pela pandemia, a FenaSaúde quer emplacar a passagem da sua boiada na lei dos planos. Embora não seja o destaque, esse recado está em uma reportagem publicada pelo jornal O Globo hoje

O foco da matéria é a perda recorde de consumidores. Nos meses de abril e maio, 280 mil pessoas se descredenciaram dos convênios, e as razões mais prováveis são o desemprego e a queda na renda. Por isso mesmo, a expectativa é que os dados de junho sejam igualmente ruins para o setor. Indo além, a reportagem liga esses números a uma tese: o SUS correria o risco de ficar “sobrecarregado”.  

Daí, decorrem algumas ‘soluções’ para que isso não aconteça. A diretora-executiva da FenaSaúde, Vera Valente, aparece defendendo o “Mundo Novo” embalado para presente como uma “proposta para ampliar modalidades de planos, para maior acesso”. A pesquisadora do setor Ligia Bahia (UFRJ), por sua vez, aponta que as empresas do setor não se mexeram para evitar a perda de beneficiários. “Por que as empresas não diminuíram mensalidades?”, questiona, lembrando que as companhias também poderiam ter optado por não expulsar os consumidores inadimplentes durante a pandemia. Já Gonzalo Vecinada USP, propõe que o SUS melhore, que se façam mais investimentos no Sistema para que ele possa absorver um contingente que antes não recorria ao serviço público para a maior parte dos atendimentos médicos, exames e cirurgias.

Nós por aqui alertamos que a solução da FenaSaúde para recuperar clientes é vendida como uma forma de ‘diminuir a pressão’ sobre o SUS mas, de acordo com analistas, tem tudo para resultar no contrário. Além de tirar da ANS o poder de decidir quais procedimentos entram ou não no rol obrigatório, as empresas querem fragmentar a cobertura dos convênios. Hoje, eles devem cobrir todos os problemas de saúde, emergências em regime ambulatorial e hospitalar e ainda todas as ações necessárias para tratamento e reabilitação. Pelo projeto, as empresas poderiam vender módulos sem cirurgias, por exemplo – o que empurraria de qualquer forma esse tipo de procedimento mais caro e complexo para o SUS.  

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