Por que a África do Sul suspendeu distribuição da vacina de Oxford

Estudo apontou eficácia nula para nova variante ao proteger contra casos leves e moderados. Mas resultados são inconclusivos. E
característica mais desejada – evitar internações e mortes – não foi avaliada

Foto: John Cairns / Universidade de Oxford

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 8 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Mesmo antes de ser divulgado na íntegra, um trabalho obtido pelo Financial Times gerou muito barulho e fez com que o governo da África do Sul decidisse suspender temporariamente o uso das vacinas de Oxford/AstraZeneca em sua população. Ainda sem muitos números nas mãos, reunimos aqui o que dá para entender e concluir dessa história e também o que ainda são lacunas abertas. Vamos por partes.

No sábado à tarde, o jornal britânico publicou que “a vacina de Oxford/AstraZeneca não parece oferecer proteção contra doenças leves e moderadas causadas pela variante viral identificada pela primeira vez na África do Sul”. A conclusão é de uma pesquisa liderada pelas Universidades de Oxford e de Witwatersrand, Joanesburgo, que deve ser publicada hoje – ainda sem revisão por pares. 

Alguns detalhes foram fornecidos pelo governo da África do Sul e pelos pesquisadores ontem, em coletiva de imprensa. Ao todo, Ao todo, 19 das 750 pessoas no grupo que recebeu a vacina foram diagnosticadas com covid-19, em comparação com 23 de 717 pessoas no grupo do placebo. Ou seja, a eficácia foi praticamente nula. Além disso, exames de sangue mostraram uma redução significativa na atividade dos anticorpos gerados pela vacina no caso específico dessa variante. 

Uma ressalva importante é que a amostra foi relativamente pequena. As informações aqui são conflitantes: segundo o Financial Times foram pouco mais de dois mil voluntários, enquanto os slides projetados na coletiva apontam que apenas 1,4 mil entraram na análise. De todo modo, é pouco. Sabemos que, quanto menos participantes, menos confiáveis são os números.

A prioridade

Apesar de o número de voluntários ter sido pequeno demais para que as conclusões do estudo sejam tomadas como certas, tanto os cientistas envolvidos quanto a AstraZeneca reconheceram que os resultados sugerem limitações da vacina. Mas há um fato consolador: segundo a pesquisa, o imunizante não mostrou proteção contra os casos leves e moderados. E esse grifo é importante. 

Idealmente, todo mundo gostaria de ter vacinas que protegessem também contra casos leves – ou até mesmo que impedissem totalmente infecções – mas na realidade ter imunizantes que apenas evitem o adoecimento grave e a morte das pessoas já é algo a se comemorar. Afinal, isso definitivamente afrouxa a pressão sobre os sistemas de saúde.

O problema é que o estudo não permite dizer que houve proteção nos casos graves. A maioria dos voluntários eram saudáveis e jovens, com idade média de 31 anos, portanto menos propensos adoecer gravemente e/ou morrer. Não houve nenhuma hospitalização ou morte entre os participantes, inclusive no grupo que recebeu o placebo. Ou seja: não dá para dizer se houve efeito da vacina. 

Mas acredita-se que sim, esse efeito exista, e essa é a expectativa da Universidade de Oxford, segundo nota publicada ontem. Nela, o pesquisador Shabir Madhi, que liderou os ensaios na África do Sul, lembra que a Janssen anunciou recentemente que nesse país sua vacina foi apenas 57% eficaz contra doença moderada a grave, mas 89% contra covid severa. Dados semelhantes foram encontrados pela Novavax. “Essas descobertas recalibram o pensamento sobre como abordar o vírus pandêmico e mudar o foco – da meta de alcançar imunidade coletiva contra a transmissão para a de proteger todos os indivíduos que correm mais risco de contraírem doenças graves”, diz.

De todo modo,  a Universidade de Oxford reconhece a necessidade de desenvolver uma nova geração de vacinas que protejam contra variantes emergentes.

Um revés

A notícia veio uma semana depois de a África do Sul receber seu primeiro lote de vacinas de Oxford/AstraZeneca: um milhão de doses, que seriam oferecidas aos profissionais de saúde. Mas ontem o governo anunciou a suspensão temporária dessa distribuição. A decisão foi controversa, já que as opções de outras vacinas são tão reduzidas – e o estudo, ainda não publicado nem revisado, oferece poucas certezas. 

As autoridades disseram que pretendem acelerar a vacinação com o produto da Janssen (ainda não autorizado por lá), da qual encomendaram nove milhões de doses. Segundo o Washington Post, o país planeja distribuir a vacina de Oxford inicialmente a apenas 100 mil pessoas e observar o efeito, para então decidir sobre a imunização mais ampla. 

A variante que foi identificada primeiro na África do Sul já se espalhou para pelo menos 32 países, incluindo Estados Unidos, França, Alemanha e Nova Zelândia. Por enquanto, não se sabe de sua presença no Brasil – o que não significa que ela não possa estar aqui, sem ter sido detectada. Também é bom lembrar que as preocupações em relação a ela estão centradas na mutação E484K, presente na variante identificada em Manaus. 

Em tempo: na sexta-feira, a Universidade de Oxford anunciaou que sua vacina protege contra a B.1.1.7, identificada no Reino Unido; foi observada uma eficácia de 74,6% contra a nova variante e de 84% contra linhagens mais antigas. Os resultados se baseiam em ensaio de fase 3 realizado no país, mas ainda não foram revisados por pares.

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 8 de fevereiro. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos