Plano recebe elogios, mas ainda deixa dúvidas

Governo expande grupos prioritários. Pazuello promete CoronaVac, mas documento do governo não inclui imunizante do Butantan na estimativa de doses para 2021

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“Para que essa ansiedade, essa angústia?“. O ministro da saúde, Eduardo Pazuello, não entende por que gestores locais e a população em geral andam aflitos aguardando uma vacina. Lançou essa pergunta ontem, no evento em que o governo finalmente lançou o plano oficial de imunização contra a covid-19, e completou: “Não se preocupem com a logística. A logística é simples. Apesar de o nosso país ser deste tamanho, temos estrutura, temos companhias aéreas, Força Aérea Brasileira, temos toda a estrutura já planejada e pronta”. Como se problemas logísticos não tivessem marcado toda a resposta brasileira à pandemia…

Durante o evento, de fato a tranquilidade parece ter reinado: “Foi um péssimo exemplo para a população. Um evento presencial, que não precisava, com a maior parte dos representantes do governo sem máscara, cantando aglomerados, sem espaçamento, como se fosse ‘vida normal’. Quase dava para ver as gotículas contaminadas voando por ali”, resume Natalia Pasternak, do Instituto Questão de Ciência, no Estadão. Já a deputada federal Erika Kokay (PT-DF) bateu na cretina declaração do ministro: “Pazuello, ‘angústia’ é ver o mundo se imunizando e o Brasil não ter sequer um plano nacional de vacinação estruturado. ‘Angústia’ é não ter vacina, algodão, seringa. ‘Angústia’ é não ter presidente e ministro da saúde na pior pandemia em um século“.

Mais gente incluída

Pelo menos agora existe um plano oficial (veja o documento), que aliás é melhor do que o esperado. Ainda não há previsão de data de início. De boca, Pazuello disse ontem que a vacinação poderia começar em fevereiro –  só que não há segurança alguma nesse palpite.

Mas as críticas de especialistas sobre a definição de grupos prioritários divulgada anteriormente foram acatadas. Passaram a ser incluídos todos os trabalhadores da educação (e não apenas professores), populações quilombolas e ribeirinhas, pessoas em situação de rua, pessoas com deficiência severa, trabalhadores de transportes coletivos, transportadores rodoviários de carga e população carcerária. Eles se somam às outras parcelas da população já beneficiadas antes: idosos, trabalhadores da saúde, indígenas, pessoas com comorbidades e profissionais de segurança e salvamento. 

Para todos esses grupos, a previsão é de terminar a imunização em quatro meses. Um detalhe problemático, ressaltado na matéria da Folha, é que o governo não faz nenhuma estimativa de quantas pessoas estão incluídas nesse bolo, então também não dá para saber quantas serão as doses necessárias. Simplesmente não foi feito um cronograma completo com as entregas para esses primeiros quatro meses. Acrescentamos que quase todas as vacinas em análise são administradas em duas doses com um tempo certinho entre as duas, então é preciso já ter as duas doses garantidas quando se começa a aplicar a primeira. 

Ainda perguntas sem resposta

Para vários especialistas consultados pela imprensa ontem, um dos maiores alívios é que a CoronaVac começou a aparecer como certa (desde que com o aval da Anvisa, claro). “Todas as vacinas produzidas no Brasil – ou pelo Butantan, pela Fiocruz ou qualquer indústria – terão prioridade do SUS, e isso está pacificado”, declarou Pazuello. É verdade que, tempos atrás, o ministro já havia se referido à CoronaVac como a ‘vacina do Brasil’, mas na época houve revolta entre bolsonaristas e o presidente o fez voltar atrás. Dessa vez, Bolsonaro estava ao seu lado, pianinho. Um dia depois de dizer na TV que não se vacinaria e de sugerir fortemente que os imunizantes podem ser perigosos, abraçou o Zé Gotinha e moderou o tom com os governadores, dizendo que há “união para buscar solução de algo que nos aflige há meses”. “Se algum de nós extrapolou ou até exagerou, foi no afã de buscar solução“, afirmou ele.

“Vejo a grande importância de o governo decididamente assumir que vai comprar a vacina do Butantan. Com a presença dos governadores, independente dos partidos, parece ter havido uma união importantíssima para que a campanha de vacinação seja exitosa e o próprio discurso do presidente amenizou as críticas à vacina. Esperamos que esse seja o discurso daqui pra frente”, diz no Estadão a epidemiologista Carla Domingues, ex-coordenadora do Programa Nacional de Imunizações.

Porém, no plano publicado ontem a CoronaVac não aparece assim com tanto destaque. O governo mudou a previsão de doses que estariam disponíveis, aumentando-a: no documento preliminar anterior, eram 300 milhões, agora são 350 milhões. Mas a mudança não foi por conta da inclusão da CoronaVac; as doses oferecidas pelo Butantan continuam não sendo consideradas

O Ministério só dá como certas as doses acordadas com Oxford/AstraZeneca (100,4 milhões já encomendadas e outras 110 milhões cuja produção nacional está prevista – mas não garantida realmente – para o segundo semestre de 2021) e com a Covax Facility (42,5 milhões). Tudo dando certo, isso dá 252,9 milhões de doses no total. As outras 100 milhões previstas viriam da Pfizer (70 milhões) e da Janssen (32 milhões), sendo que a última não tem resultados de fase 3 e só prevê divulgá-los em janeiro. Essas duas empresas ainda não têm acordos com o governo, apenas memorandos de entendimento que ainda podem ser alterados. Nesse mesmo balaio é que aparece o Instituto Butantan, junto com a Bharat Biotech, a Moderna e o Instituto Gamaleya, mas todos sem um número de doses definido.

A CoronaVac também não aparece no capítulo sobre a logística de distribuição. Há apenas os esquemas previstos para as primeiras 104 milhões de doses da vacina de Oxford/AstraZeneca e de dois milhões de doses da Pfizer. Para esta última, o governo parece confiar apenas nas caixas de gelo seco oferecidas pela empresa para o transporte. Nesse caso, as doses precisam ser consumidas em no máximo 30 dias. 

Falta bater o martelo sobre essa questão. O jornalista da GloboNews Gerson Camarotti divulgou ontem que o Butantan aguarda a chegada de uma carta em que o “Ministério da Saúde manifestará a intenção em caráter irrevogável e irretratável de compra da vacina CoronaVac”. A informação é de uma fonte que teria participado da negociação. Segundo Camarotti, um assessor de Pazuello, Eduardo Cascavel, confirmou ao Butantan a intenção de compra.

Essa também foi a informação passada pelo ministro a governadores, ontem. Mas quem participou dessa reunião saiu divulgando números diferentes. Segundo Wellington Dias (PT-PI), os gestores pressionam o governo para que a quantidade de doses prevista para janeiro seja ampliada de seis para 20 milhões; num total de 46 milhões acordados com o Butantan. Já de acordo com Helder Barbalho (MDB-PA), essas 20 milhões de doses já estão garantidas para janeiro, mas o acordo entre União e instituto agora prevê um total de 45 milhões de doses.  

O termo

Depois de toda a confusão sobre a necessidade do termo de consentimento assinado por quem vai receber as vacinas, Pazuello disse ontem que ele será exigido, sim, para os imunizantes que tiverem só a autorização emergencial.

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