A curta história do platô

Depois de anunciar estabilização, Ministério da Saúde reconhece novo aumento vertiginoso de covid-19 no país

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 25 de junho. Leia a edição inteira.
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Há exatamente uma semana, o Ministério da Saúde dizia que o Brasil parecia caminhar para um “platô” na curva de contágios. Os números que mostravam uma estabilização eram desmascarados quando os dados eram observados localmente: em alguns estados e municípios, crescimento descontrolado; em outros, queda efetiva. Além disso, o platô era um verdadeiro planalto, com o número de casos diários sempre ficando acima de 20 mil, e o de mortes, em torno de mil.

Com esse cenário e flexibilizações de isolamento por toda parte, o resultado obviamente não poderia ser bom. Ontem falamos sobre a nova alta no país, com 40 mil casos registrados de segunda para terça-feira. Não tínhamos a posição do Ministério, que, mesmo diante de dados tão preocupantes, não havia se manifestado. Nesta quarta, os péssimos números se repetiram: 40.995 novos casos e 1.103 novas mortes. E, finalmente, a pasta fez uma coletiva de imprensa no fim da tarde.

“A gente tinha falado que parecia que a curva tenderia a certa estabilização, ou diminuição do número de casos. A gente vê que nesta semana tivemos aumento significativo de casos novos”, reconheceu o secretário de Vigilância em Saúde, Arnaldo Correia. Ele se refere não a esses últimos dias, mas a uma alta verificada a partir da semana epidemiológica 25, que terminou no dia 20 de junho. Em relação à semana anterior, houve um aumento de 22% nos casos e 7% nas mortes. “[Isso] nos mostra atenção que precisamos ter a essa doença a cada semana que passa”, completou, constatando o óbvio. 

E o que levou ao aumento? O Ministério reconhece que o vírus está subindo onde antes não havia se espalhado com força. Sabemos que as reaberturas estão acontecendo de forma desordenada em todo o país, mesmo que municípios e estados estejam em momentos epidemiológicos distintos. Vimos cidades tentando fechar de novo seus comércios após flexibilizações fora de hora. Em Minas Gerais, a taxa total de ocupação das UTIs passou de 69% para 90,6% em um mês, após a reabertura em vários municípios, e hoje são nove os estados  que têm mais de 80% de suas UTIs para covid-19 ocupadas. 

Mas, para os representantes da pasta, as flexibilizações do isolamento não parecem fazer parte do problema. Eles preferem falar sobre a “mudança de estação”:  “O inverno começou agora na região Sul, Sudeste e Centro-Oeste, e coincidiu com o aumento no número de casos notificados e confirmados de covid-19 nessa região”, disse Eduardo Macário, diretor do Departamento de Análise em Saúde e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis, recomendando que “a população busque se proteger o máximo possível”. O mistério é como a população vai fazer para se proteger por conta própria – já que mesmo quem estava em casa começa a precisar trabalhar de novo, o auxílio emergencial vai sendo ameaçado e o país não tem orientações claras das autoridades para lidar com a pandemia.

Na coletiva de imprensa da Organização Mundial da Saúde (OSM) de ontem, o diretor de emergências da entidade, Michael Ryan, foi questionado sobre a situação brasileira. Disse que é difícil prever qualquer coisa, porque os rumos da pandemia dependem das respostas locais: “O que você faz afeta o pico. Afeta a altura do pico, afeta o comprimento do pico e afeta a trajetória para baixo. Isso tem tudo a ver com a intervenção do governo para responder, com a cooperação da comunidade com essa intervenção e com a capacidade de atuação dos sistemas de saúde e de saúde pública. O vírus não age sozinho. O vírus explora uma vigilância fraca. O vírus explora sistemas de saúde fracos. O vírus explora uma má governança. O vírus explora a falta de educação e a falta de empoderamento das comunidades”. No Brasil de hoje, ele encontra pouco ou nenhum limite para avançar.

A propósito, o Tribunal de Contas da União (TCU) aprovou a emissão de um alerta ao governo sobre a falta de estratégia para combater a covid-19. O relatório do ministro Vital do Rêgo aponta que não há gerenciamento de risco nem profissionais de saúde suficientes para mitigar a transmissão. E menciona a ausência de um ministro efetivo da Saúde, a ocupação de cargos na pasta por pessoas sem formação na área e a falta de transparência nas informações do governo.

Programa reciclado

O Ministério da Saúde oficializou ontem a reciclagem do programa ‘Diagnosticar para Cuidar’, apresentado originalmente pelo ex-ministro Nelson Teich em maio (e nunca colocado em prática). É o novo esquema de testagens que mencionamos aqui. No lançamento, a pasta anunciou que vai comprar um novo tipo de exame de anticorpos, mais preciso, e que de fato vai adotar o uso de critério clínico (sem testes) para diagnosticar a covid-19. Esse critério engloba uma análise dos sintomas e outros exames, como tomografias. Quando um médico diagnosticar a doença dessa maneira, o paciente vai entrar nas estatísticas oficiais. Isso deve gerar um aumento grande no número de casos, mas não necessariamente nas mortes… Porque elas vão continuar sendo consideradas como decorrentes da covid-19 apenas quando os pacientes tiverem sido testados. Nosso palpite é que, em breve, o país pode ter um imenso número de casos, mas com uma baixa taxa de letalidade (a razão entre o número de vítimas fatais e de infectados). 

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