As ótimas notícias sobre o HIV

Na Conferência Internacional de Aids, cientistas brasileiros apresentam possível cura: um paciente do estudo já está há mais de dois anos sem o vírus no organismo. Mas pesquisa continua

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Cientistas presentes à Conferência Internacional de Aids esta semana trouxeram duas notícias muito animadoras. Uma partiu do Brasil, e chegamos a falar sobre ela na segunda-feira, antes do seu anúncio formal: um homem brasileiro pode ter sido a primeira pessoa a ficar livre do HIV usando apenas medicamentos orais. Os únicos dois outros casos de remissão conhecidos são de pacientes que receberam transplante de medula óssea – o que é complicado e arriscado.

Os novos resultados vieram de um ensaio clínico coordenado pelo infectologista Ricardo Sobhie Diaz, da Unifesp. A pesquisa envolveu ao todo 30 pessoas que já faziam tratamento com antirretrovirais e tinham carga viral de HIV indetectável no organismo. Para investigar diferentes abordagens de tratamento, os pacientes foram divididos em seis grupos, cada um recebendo uma combinação de medicamentos além do tratamento padrão. O homem que teve boa resposta ficou em um grupo que recebeu as drogas antirretrovirais dolutegravir e maraviroc, além de outras substâncias como nicotinamida e a auranofina.

O tratamento foi interrompido depois de 48 semanas; outras 57 semanas depois, os testes de detecção do HIV no sangue continuavam dando negativo. São, portanto, mais de dois anos sem o vírus no organismo. Há limitações: trata-se de um grupo muito pequeno e, dentre os cinco participantes, só um teve esse desfecho positivo. É preciso repetir o ensaio em maior escala para ver se os resultados preliminares se confirmam.

A outra novidade é sobre prevenção. Um estudo comparou a eficiência da profilaxia pré-exposição (PrEP) usada atualmente – o medicamento oral Truvada, ingerido todos os dias – com uma injeção de cabotegravir tomada a cada oito semanas. E o resultado foi que a injeção se mostrou 66% mais eficaz do que as pílulas. A pesquisa envolveu mais de 4,5 mil mulheres trans e homens em 43 locais na África do Sul, Argentina, Brasil, Peru, Estados Unidos, Tailândia e Vietnã. A taxa de infecções foi baixa: 0,41% no grupo que tomou as injeções e 1,22% no do Truvada. Embora já se saiba que as pílulas funcionam bem (reduzem entre 92% e 99% as chances de contaminação), a necessidade de tomá-las diariamente pode ser um problema. A adesão a uma droga de ação prolongada tende a ser mais fácil. A pesquisa, no entanto, ainda não foi publicada com revisão de pares, e não conhecemos os detalhes.

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