O vácuo entre o que a China sabia e o que divulgou no início da pandemia

CNN inglesa recebeu 117 páginas de documentos oficiais de Hubei

Foto: Xinhua

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CNN inglesa publicou na segunda-feira uma reportagem que revela uma lacuna entre o que as autoridades chinesas sabiam sobre a evolução da pandemia e o que elas divulgavam publicamente. A rede recebeu 117 páginas de documentos oficiais do Centro de Controle de Doenças de Hubei, província onde a primeira infecção foi documentada. Trata-se do maior vazamento vindo do país desde o início da pandemia.

Os papéis cobrem de maneira incompleta um período extenso que vai de outubro de 2019 a abril deste ano, com dados completos em duas datas: 10 de fevereiro e 7 de março. O responsável pelo vazamento pode não ter escolhido esses dias por acaso: a primeira data marcou um discurso feito por Xi Jinping a profissionais de saúde depois de semanas em que o presidente chinês submergiu das vistas do público. Naquele dia, relatórios internos categorizados como “confidenciais” davam conta de 5.918 novos casos – mais do que o dobro do os 2.478 divulgados oficialmente naquele dia. Ficaram de fora praticamente todos os casos que não foram confirmados por PCR, mesmo os relacionados a pessoas que tiveram contatos com doentes diagnosticados e apresentavam sintomas.

Já a segunda data, 7 de março, é significativa no plano internacional pois foi quando a Itália passou a ocupar o lugar de epicentro da doença, com o governo decretando quarentena obrigatória no norte do país. Nesse dia, o governo chinês divulgou 2.986 mortes, mas os documentos internos dão conta de 3.456 óbitos. Nesse dia, o número oficial de novos casos foi de 83, e o que circulou internamente, 115. 

Segundo a rede, os documentos foram vazados por um funcionário do governo chinês e sua veracidade foi checada por seis especialistas diferentes e também por cientistas forenses. O repórter Nick Paton Walsh afirma que, pela leitura, não dá para inferir que houve uma decisão deliberada de esconder números. 

Os papéis dão outras informações inéditas. A cidade de Wuhan pode não ter sido o único nem o principal epicentro da doença. Duas cidades da província de Hubei – Xianning e Yichang – chegaram a registrar mais casos do que na época foi diagnosticado como “influenza” na primeira semana de dezembro. Foram 2.032 casos em Wuhan, 2.148 em Xianning e 6.135 em Yichang. Juntas, as cidades registraram um salto de mais de 2.000% em comparação com a mesma semana de 2018, o que pode indicar que o novo coronavírus já estava circulando nelas. 

Os documentos também dão conta das dificuldades do Centro de Controle de Doenças de Hubei – uma “grande lacuna de fundos e de pessoal” –teria causado, por exemplo, o atraso médio de 23 dias nos resultados dos testes. 

Nexo reproduz os principais achados da reportagem da CNNem português.

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