As vacinas estão promissoras. Quem vai ter acesso a elas?

Para a OMS, imunidade coletiva virá com pelo menos 60% da população imunizada – mas um punhado de países ricos já negociou metade de todas as doses que os principais fabricantes devem fornecer até 2021

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As últimas semanas têm sido coalhadas de boas notícias sobre as vacinas e as primeiras aprovações emergenciais estão batendo à porta. A Pfizer espera conseguir a sua com a FDA (a Anvisa dos EUA) no próximo dia 10; para a Moderna, uma reunião com os reguladores dessa agência deve acontecer uma semana depois, no dia 17. Tudo indica que, de fato, pelo menos uma pequena quantidade de pessoas vai conseguir ser vacinada ainda este ano.

Porém, uma pergunta não deixa de pulsar: quem terá acesso às vacinas? Está bem estabelecido que, dentro de cada país, haverá estratégias para priorizar determinados grupos inicialmente, quando a quantidade de doses for limitada. Mas também achamos importante falar sempre sobre a distribuição global desses imunizantes, e uma reportagem publicada ontem na Nature faz essa discussão a partir dos dados disponíveis até agora.

Pfizer, Moderna, AstraZeneca e o Instituto Gamaleya, que desenvolve a Sputnik V, são os quatro fabricantes que já anunciaram algum resultado de fase 3 (lembrando que, no caso da AstraZeneca, os dados foram acompanhados por várias dúvidas pertinentes e uma necessária continuação dos ensaios).  Somando suas estimativas mais otimistas de produção, elas pretendem garantir doses suficientes para imunizar cerca de um terço da população mundial até o fim do ano que vem. Só que metade dessa capacidade já foi encomendada pelos 27 países da União Europeia e outros cinco países ricos, que juntos têm 13% dos habitantes do planeta. 

Claro, falta colocar no papel outras vacinas que estão em fase 3 de testes, como a CoronaVac. Se as seis principais candidatas forem incluídas na conta, pode haver vacinas para metade da população mundial. Mesmo assim, os países ricos vão continuar abocanhando metade das doses. Foram eles que, tendo dinheiro para isso, fizeram apostas em várias vacinas diferentes, garantindo um cardápio tão extenso quanto variado. O país com o maior número de doses negociadas por habitante é o Canadá, com quase nove por pessoa. Em seguida vêm os EUA (quase oito), o Reino Unido (seis) e a Austŕália (mais de cinco). O Brasil tem em torno de uma e, como dissemos ontem, o governo federal reconheceu que só pretende vacinar 80 milhões de pessoas por ano. O que dá menos de 40% dos brasileiros. 

Quando se trata das vacinas mais caras (que, por enquanto, são também as que têm os melhores resultados), a desigualdade é ainda mais gritante. A Pfizer pretende produzir 1,3 bilhão de doses até o fim de 2021, mas prometeu 1,1 bilhão para EUA, União Europeia, Canadá, Japão e Reino Unido. A Moderna reservou toda a sua produção de 2020 (20 milhões de doses) para os EUA; no ano que vem, pretende fabricar entre 500 milhões e um bilhão de doses, mas, segundo o Global Justice Now, tem acordos para distribuir 750 milhões a países ricos.

É possível que muitas pessoas em países de baixa renda precisem esperar até 2023 ou 2024 para receberem algo, segundo estimativas do Duke Global Health Innovation Center em Durham, Carolina do Norte. Essas nações estão contando basicamente com a Covax Facility, o consórcio internacional que busca fornecer cobertura para pelo menos 20% das populações dos países participantes. Para um retorno à vida normal, a OMS diz que é preciso imunizar entre 60% e 70% das pessoas, de modo que as doses garantidas pela Covax, ainda que bem-vindas, não devem ser suficientes. Além disso, temos acompanhado a dificuldade de conseguir recursos para a iniciativa. Faltam, para o ano que vem, nada menos que US$ 5 bilhões

Um detalhe importante: não sabemos quanto tempo vai durar a imunidade garantida por essas vacinas promissoras. Se a vacinação precisar se repetir a cada ano, o problema será ainda mais grave.

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