O retorno

Agressão verbal a jornalista marca retorno do estilo autoritário de Jair Bolsonaro. Centrão diz que “recaída” não vai respingar em Congresso

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 24 de agosto. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

“A vontade é encher a sua boca com uma porrada, tá?”. A agressão, proferida ontem por ninguém menos do que o presidente da República, se dirigiu ao jornalista Daniel Gullino, que cumpria o seu trabalho e também foi xingado de “safado” por isso. No caso em questão, o repórter do jornal O Globo acompanhava mais uma aglomeração promovida por Jair Bolsonaro em Brasília quando questionou: “Por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Queiroz?” 

A reação de Bolsonaro mostra mais uma vez que ele não tem outra resposta que não seja a violência e o autoritarismo para as várias pontas soltas que pendem dos casos de corrupção que o envolvem direta ou indiretamente. Desmonta também qualquer ilusão de que uma estratégia política consiga mantê-lo em um retiro muito prolongado dos ataques a adversários, que podem ser pessoas, instituições democráticas ou as duas coisas juntas. 

Depois que o episódio veio à tona, a pergunta viralizou na internet, copiada no Twitter por celebridades como Caetano Veloso, Felipe Neto e Patrícia Pillar. Se o movimento tomar corpo, tem chances de abalar Bolsonaro que vem sendo elogiado por uma postura que nunca teve, nem nunca terá. “O presidente vinha muito bem nas últimas semanas. Com sua moderação estava contribuindo para a pacificação do debate público”, idealizou o presidente da OAB, Felipe Santa Cruz. “Espero que o presidente retome o tom mais moderado dos últimos 66 dias. A liberdade de imprensa é um valor inegociável na democracia”, contabilizou o presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), que tem quase um pedido de impeachment contra Bolsonaro engavetado para cada dia que o presidente foi ‘moderado’ (são 56).

É claro que parte do que vem sendo chamado de estratégia ‘paz e amor’ – numa comparação forçada com Lula – só funciona porque tem como contrapartida a complacência e, por vezes, a associação dos demais poderes à escalada autoritária do bolsonarismo. A coluna Painel, da Folha, dá um exemplo, informando que o centrão minimizou o episódio nos seguintes termos: uma “recaída que não terá reflexos na relação com o Congresso”. 

Para relembrar: os R$ 89 mil a que se refere a pergunta dizem respeito ao rastreamento de mais depósitos na conta de Michelle Bolsonaro, confirmados primeiro pela Crusoé e depois por outros veículos da imprensa. Foram 27 no total, feitos por Fabrício Queiroz e Márcia Aguiar entre 2011 e 2016. Antes dessas revelações, se sabia que R$ 24 mil haviam sido depositados por Queiroz na conta da primeira-dama. Bolsonaro justificou na época, dizendo que o valor integrava um  montante maior, de R$ 40 mil, referente ao pagamento de um empréstimo. De lá para cá, o presidente nunca prestou contas da inconsistência da sua explicação, nem deu outra no lugar.

Enquanto isso, a família Bolsonaro tenta influenciar a escolha do novo procurador-geral de Justiça do Rio para frear a investigação das rachadinhas. A informação é dos repórteres Catia Seabra e Italo Nogueira, que apuraram que o senador Flávio Bolsonaro tem investido na interlocução com o vice-governador Cláudio Castro (PSC) apostando que quando a confirmação da nova direção do órgão acontecer – em dezembro – o impeachment de Wilson Witzel (PSC) já terá sido aprovado. 

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos