O recado do PIB a Jair Bolsonaro

Banqueiros, empresários, economistas e ex-ocupantes da Fazenda e do BC criticam condução da pandemia e pedem distribuição de máscaras, antecipação das doses de vacinas e critérios para lockdown

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Essa semana, uma carta repleta de críticas ao governo federal deve chegar às mãos das maiores autoridades da República, incluindo o presidente Jair Bolsonaro. Iniciativas do tipo não são exatamente novidade, mas esta é diferente por partir de banqueiros, grandes empresários e economistas que ocuparam o Banco Central e o Ministério da Fazenda. E, por isso, é mais eficaz ao bater na falácia preferida do bolsonarismo, segundo a qual a retomada da economia deve se dar na marra, através da sabotagem das medidas de combate à pandemia.

O tom crítico do texto subscrito por gente como Armínio Fraga, Roberto Setubal e Pedro Moreira Salles começa pelo título: “O país exige respeito; a vida necessita da ciência e do bom governo”. A carta constata que o Brasil se tornou o epicentro mundial da covid-19 e já contabiliza mortes não causadas diretamente pela doença, mas pela incapacidade de se atender tantos doentes ao mesmo tempo. Fala da situação econômica – queda na força de trabalho, alta histórica do desemprego, tombo do PIB – para constatar: 

“Esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal. Este subutiliza ou utiliza mal os recursos de que dispõe, inclusive por ignorar ou negligenciar a evidência científica nas ações para lidar com a pandemia”.

A carta defende a adoção de quatro linhas de ação: negociar com laboratórios a antecipação de entrega de vacinas ou com países ricos o possível excedente de doses, distribuir máscaras PFF2 para a população, implementar medidas de distanciamento social, incluindo lockdown, e avançar na coordenação nacional das ações de combate à pandemia.  

“O quadro atual ainda poderá deteriorar-se muito se não houver esforços efetivos de coordenação nacional no apoio a governadores e prefeitos para limitação de mobilidade. Enquanto se busca encurtar os tempos e aumentar o número de doses de vacina disponíveis, é urgente o reforço de medidas de distanciamento social. Da mesma forma é essencial a introdução de incentivos e políticas públicas para uso de máscaras mais eficientes, em linha com os esforços observados na União Europeia e nos Estados Unidos”, diz o texto, defendendo a urgência do estabelecimento de critérios para a adoção de lockdowns. 

A carta critica especialmente o desdém do governo federal em relação à compra de um portfólio mais variado de vacinas, o que fez com que o país começasse a campanha dependente de dois imunizantes que, por diversas razões, sofrem com atrasos na produção. 

“Poderíamos estar em melhor situação, o Brasil tem infraestrutura para isso. Em 1992, conseguimos vacinar 48 milhões de crianças contra o sarampo em apenas um mês. Na campanha contra a covid-19, se estivéssemos vacinando tão rápido quanto a Turquia, teríamos alcançado uma proporção da população duas vezes maior, e se tanto quanto o Chile, dez vezes maior. A falta de vacinas é o principal gargalo. Impressiona a negligência com as aquisições, dado que, desde o início da pandemia, foram desembolsados R$ 528,3 bilhões em medidas de combate à pandemia, incluindo os custos adicionais de saúde e gastos para mitigação da deteriorada situação econômica. A redução do nível da atividade nos custou uma perda de arrecadação tributária apenas no âmbito federal de 6,9%, aproximadamente R$ 58 bilhões, e o atraso na vacinação irá custar em termos de produto ou renda não gerada nada menos do que estimados R$ 131,4 bilhões em 2021, supondo uma recuperação retardatária em 2 trimestres. Nesta perspectiva, a relação benefício custo da vacina é da ordem de seis vezes para cada real gasto na sua aquisição e aplicação”.

Outro cálculo presente na carta é em relação às máscaras PFF2. Se o governo federal comprasse cinco dessas máscaras consideradas as mais eficientes na proteção dos contágios para cada uma das 68 milhões de pessoas que receberam o auxílio emergencial ano passado, desembolsaria R$ 1 bilhão. “A distribuição gratuita direcionada para pessoas sem condições de comprá-las, acompanhada de instrução correta de reuso, teria um baixo custo frente aos benefícios de contenção da covid-19”. 

O principal recado da carta é para o presidente Jair Bolsonaro. “O desdenho à ciência, o apelo a tratamentos sem evidência de eficácia, o estímulo à aglomeração, e o flerte com o movimento antivacina, caracterizou a liderança política maior no país. Essa postura reforça normas antissociais, dificulta a adesão da população a comportamentos responsáveis, amplia o número de infectados e de óbitos, aumenta custos que o país incorre”. O texto termina assim: “O país tem pressa; o país quer seriedade com a coisa pública; o país está cansado de ideias fora do lugar, palavras inconsequentes, ações erradas ou tardias. O Brasil exige respeito.”

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