Brasil dobra nova esquina da barbárie com recorde de três mil mortes diárias

Fiocruz alerta que lockdown é única saída que resta diante do esgotamento da capacidade hospitalar em 25 estados

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Houve um tempo, não muito distante, em que o país se chocava com mais de mil mortes registradas em um dia. Pois ontem o estado de São Paulo ultrapassou sozinho essa marca, com 1.021 óbitos.

No Brasil inteiro foram 3.158 – a primeira vez, mas certamente não a última, em que esse número fica acima de três mil. Nenhuma outra causa de morte mata tanto assim em 24 horas. O Globo fez a conta: doenças cardiovasculares, que são as mais mortais por aqui, levam juntas quatro dias para atingir tal soma.

Sabemos que nem todas essas mortes ocorreram de fato ontem; entendemos que há atraso no registro e que terças-feiras apresentam geralmente números altos, porque incluem muitos dados represados ao longo do fim de semana.

Mas apesar de o represamento sempre existir, nunca houve uma terça-feira como essa. A média móvel, que faz o balanço dos últimos sete dias, corrige esse tipo de distorção. E, obviamente, ela não para de subir: em seu 25º dia consecutivo de recorde, chegou a 2.349.

A Fiocruz divulgou mais um de seus boletins extraordinários. Assim como o anterior, do dia 16 de março, ele mostra praticamente o país inteiro pintado de vermelho, em alerta crítico, com taxas de ocupação das UTIs acima de 80%.

Mais uma vez, só há dois estados em alerta médio, simbolizado pelo amarelo. Roraima tinha 73% de ocupação na semana passada e agora está em 64%. E o Amazonas teve uma leve melhora, de 80% para 79%: ou seja, saiu do vermelho, mas ainda está na margem.

Já o Rio de Janeiro estava nessa fronteira na semana passada, com 79%, mas piorou muito rapidamente e chegou a 85% – a fila por UTIs quadruplicou nos últimos dez dias.

O Sudeste inteiro piorou, aliás. Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo ultrapassaram os 90%. E, no Centro-Oeste e no Sul, as taxas estão todas acima de impressionantes 96%. 

A orientação dos pesquisadores é cristalina: os estados e municípios em alerta crítico precisam restringir as atividades não essenciais por no mínimo 14 dias. 

Não porque o lockdown seja uma solução ótima, e sim porque, a essa altura, é a única coisa que se pode fazer: “este colapso não foi produzido em março de 2021, mas ao longo de vários meses”, lembra o boletim.

O texto também destaca que, mesmo que alguns gestores já estejam decretando bloqueios, “é fundamental que governos municipais, estaduais e federal caminhem todos na mesma direção para ampliá-las e fortalecê-las, uma vez que a adoção parcial e isolada nos levará ao prolongamento da crise sanitária”. 

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