Empresários convencem Lira e Pacheco a defender compra de vacinas por setor privado

Flávio Rocha, dono da Riachuelo, diz não querer “passar à frente de vulneráveis, velhinhos ou quilombolas” em nova investida empresarial para desfazer regras recém-aprovadas pelo Congresso para compra de imunizantes

O empresário Flávio Rocha, um dos participantes do jantar da segunda-feira em que se defendeu compra de vacinas por empresas

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Tem gente que resolveu pegar carona no manifesto dos economistas para emplacar ideias já rechaçadas, como a compra de vacinas pelo setor privado neste momento da pandemia. O argumento agora tem gostinho de chantagem.

O bolsonarista Flávio Rocha, dono da Riachuelo, afirma que garantir que o setor privado compre e aplique vacinas em seus funcionários servirá para evitar demissões

“Não queremos passar à frente de vulneráveis, velhinhos ou quilombolas”, disse ao Estadão, embora seja exatamente disso que se trata.

“Estamos na linha de frente da guerra econômica. Não adianta vencer a guerra biológica e não ter o que comer. Como diz o ministro Paulo Guedes, desemprego mata”, completou.

Para ele, aliás, a culpa da crise sanitária é de prefeitos e governadores e a escolha do novo ministro já se mostra positiva porque Bolsonaro tem usado máscara. 

O pleito foi apresentado em um jantar realizado na segunda-feira que contou com a participação de André Esteves (BTG Pactual), Luiz Trabuco (Bradesco) e Carlos Sanchez (EMS) e dos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-Al) e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG). 

Ambos ficaram de levar a ideia – que sempre é bom lembrar, acabou de ser rechaçada pelo próprio Congresso – ao presidente hoje. O pleito seria atendido por medida provisória.

Outro conceito de doação também foi forjado entre os empresários nesse jantar. Eles querem ‘dar’ recursos para abrir leitos para o tratamento da covid-19 e, depois, receber parte desse dinheiro de volta na forma de abatimento no Imposto de Renda.

Não seria mais fácil argumentar pela destinação do orçamento do Ministério da Saúde, que deveria ser obrigado a assumir seu papel de coordenação nacional? Ao que parece não quando você pode fazer mais pressão por renúncia fiscal e aproveitar a chance para fazer marketing para sua empresa.  

O encontro com banqueiros e empresários aconteceu de noite. Na parte da manhã, Lira e Pacheco se reuniram com representantes do setor saúde.

O encontro foi articulado pelo Instituto Coalizão Saúde, capitaneado por Claudio Lottenberg, que durante a pandemia teve oportunidade de revelar a lógica por trás de um mantra do Coalizão que é a “ajuda” do setor privado para o SUS. Isso porque ele lutou contra a requisição de leitos do setor privado pelos gestores públicos argumentando que autoridades sanitárias deveriam abrir mão dessa prerrogativa e se concentrar na adoção de “critérios de triagem” e “sobrevida” para decidir quem recebe cuidados intensivos e quem não.

No encontro, surgiu o pleito de que o governo federal zere a alíquota de importação para insumos hospitalares.

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