O que os dados não escondem

“Placar da vida” do governo federal tenta esconder mortos, mas mesmo com subnotificação a curva brasileira é assustadora. Modelo usado pela Casa Branca prevê 125 mortes até agosto

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Até agora, o Brasil fez 871 mil testes moleculares para o coronavírus, o que dá uma taxa de 4,2 mil para cada milhão de habitantes. O Globo comparou o número com o dos outros países que lideram o ranking de maior quantidade de casos de covid-19: nos EUA, a taxa é de 46,8 mil; na Rússia, 62,7 mil; na Espanha, 79 mil.

“Estamos testando em uma quantidade não ideal para o tamanho, magnitude e dinâmica do Brasil, mas é melhor do que nos meses anteriores”, disse ontem, em coletiva de imprensa, o secretário substituto de Vigilância do Ministério da Saúde, Eduardo Macário. São 46,1 mil por semana, contra 8,7 mil no começo da pandemia. Lembramos que desde a gestão Mandetta a pasta promete chegar a 50 mil por dia… Dos 46 milhões de testes anunciados há várias semanas, metade seriam moleculares. Mas, ainda segundo Macário, o governo só comprou de fato 13,9 milhões desse tipo. Apenas 4,7 milhões foram entregues e 3,1 milhões foram repassados aos laboratórios públicos.

A subnotificação nos impede de conhecer a situação real do Brasil em relação à pandemia, mas não é capaz de esconder a evolução preocupante. A Opas, braço da OMS nas Américas, prevê quase 90 mil mortes por aqui até o dia 4 de agosto. Até duas semanas atrás, essa era também a previsão do Institute for Health Metrics and Evaluation, da Universidade de Washington, que tem embasado as políticas da Casa Branca. Mas, de lá pra cá, o modelo incluiu dados de mais estados e os números pioraram. Agora, projeta 125 mil mortes no período (com um mínimo de 68 mil no cenário mais otimista e 221 mil no mais pessimista).

O presidente Jair Bolsonaro, no entanto, continua num esforço contínuo para jogar ainda mais para cima as já trágicas previsões. Ontem, voltou a se posicionar contra medidas de isolamento social. “Setenta dias a economia fechada. Até quando isso vai durar?”, questionou. Já poderíamos estar pensando em reabrir se os isolamentos tivessem sido rígidos o bastante e, principalmente, se o país tivesse se preparado para a flexibilização, com testes suficientes e planejamento para usá-los, além de capacidade para isolar infectados e rastrear contatos.

Sabemos que não depende do governo federal decidir sobre as medidas estabelecidas pelos entes federados, mas seus instrumentos de pressão não são nada irrelevantes. Na mesma entrevista, o presidente afirmou que vai enfim liberar hoje o socorro de R$ 60 bilhões para estados e municípios. Mas alertou: “Nós não podemos continuar socorrendo estados e municípios que devem, no meu entender, de forma racional começar a abrir o mercado”.

Aliás, está cada vez mais patética a campanha fantasiosa do governo brasileiro para mostrar as “notícias boas” da pandemia. No último dia 19, quando o país ultrapassou pela primeira vez a barreira das mil mortes diárias, o Ministério da Saúde publicou nas redes sociais que havia 106 mil pessoas curadas. A informação vinha do “Placar da Vida“, criado no fim de abril depois que o ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, reclamou da “cobertura maciça de fatos negativos” pela imprensa. No Placar, que vem sempre com a hashtag #NinguémFicaPraTrás, não entram as mortes registradas. Como diz a jornalista Claudia Collucci, em coluna da Folha, 23.473 pessoas já ficaram para trás.

Mas a propaganda enganosa do governo parece estar funcionando mesmo nos locais mais afetados pela pandemia. Uma reportagem da Associated Press fala da negação de parte da população em Manaus, a despeito de todo o horror que todos acompanhamos no noticiário. Há casos em que mesmo parentes das vítimas não acreditam que a causa da morte tenha sido covid-19. “Minha opinião é que eles estão inventando e tentando ganhar dinheiro com isso”, diz um morador, afirmando que “é claro” que concorda com Bolsonaro sobre a pandemia ser exagerada e o número de mortos ser inflado.

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