Falando em cloroquina

Organização Mundial da Saúde suspende testes com hidroxicloroquina, por precaução; Ministério da Saúde diz que continua “tranquilo” e “sereno” com seu protocolo

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FALANDO EM CLOROQUINA…

O Ministério da Saúde deu mais mostras de que, nessa gestão, sua última preocupação é com o bem-estar dos brasileiros. Ontem, a pasta confirmou que não vai fazer nenhuma alteração na nota técnica sobre o uso da cloroquina e hidroxicloroquina. O questionamento, feito pela imprensa, veio depois do importante anúncio feito pela  Organização Mundial de Saúde que decidiu, por precaução, suspender seu teste com a hidroxicloroquina

O anúncio foi feito pelo diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, no começo da tarde e é consequência direta daquele grande estudo publicado pela Lancet que, depois de observar 96 mil pacientes com coronavírus, concluiu que quem tomou cloroquina e hidroxicloroquina não teve benefícios no tratamento da covid – e, pior: teve maior risco de arritmia cardíaca e morte do que quem não tomou

“Estamos muito tranquilose serenos em relação a nossa orientação, a despeito de qualquer entidade internacional cancelar seus estudos com a medicação”, contrapôs Mayra Pinheiro, secretária de Gestão do Trabalho e Educação em Saúde. Para ela, o estudo da Lancet não “entra no critério de um estudo metodologicamente aceitável para servir de referência para nenhum país” por não se tratar de um ensaio clínico, mas de uma pesquisa observacional. A secretária prefere jogar a cautela pela janela a ferir o que chama de “autonomia médica”. Além disso, afirmou que tem recebido “informações” de planos de saúde como Unimed e Prevent Sênior sobre a “eficácia” da cloroquina no tratamento da covid-19. 

Ao secretário-executivo do Ministério da Saúde falta até o verniz necessário para fingir que a pasta sabe o que está fazendo. Para o coronel Antônio Élcio Franco, o Brasil tem experiência na administração de cloroquina para “várias viroses” – o medicamento é usado para malária, doença causada não por um vírus, mas um protozoário… “Meu filho, por exemplo, pegou malária esse ano e tomou cloroquina. Eu participei de uma missão em Angola em 1996 e tomei a mefloquina que tem o mesmo princípio durante seis meses ininterruptos, diariamente”, disse à guisa de argumento na coletiva de imprensa. 

A propósito: está prometida para junho a divulgação dos resultados do estudo clínico randomizado feito pela Coalizão Covid-19 com 1,1 mil pacientes no Brasil. Em duas semanas, saem os resultados do estudo da Fiocruz feito em Manaus com 250 doentes. Ambos já estão avançados e não há por que interrompê-los depois do anúncio da OMS. Mas seguindo o princípio da precaução, a Fiocruz resolveu para outro estudo, feito com pacientes que apresentam sintomas leves da covid-19 e são medicados com cloroquina.   

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