O que aprender com a vacinação privada na Índia

Único país de grandes dimensões a permitir a compra e venda de imunizantes pelo setor privado, Índia tenta agora frear desigualdade na distribuição

Foto: EPA-EFE

Esta nota faz parte da nossa newsletter do dia 8 de junho. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

O primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, anunciou ontem a decisão de estabelecer um teto para o preço que os hospitais privados podem cobrar pela imunização contra a covid-19: até 150 rúpias (US$ 2) acima do custo fixo das vacinas. Além disso, o governo federal vai ficar responsável por comprar 75% das doses disponíveis direto dos fabricantes, e elas vão ser ofertadas gratuitamente para todos os adultos.

A Índia foi o único grande país que permitiu a venda de vacinas no setor privado. A estratégia foi um fracasso, como narra a ótima matéria de Ruhi Kandhari, no The Ken. Em maio, se estabeleceu que o governo federal ofereceria doses de graça pessoas com mais de 45 anos e trabalhadores da linha de frente, enquanto outros adultos seriam atendidos pelos estados (também de graça) ou por hospitais privados (pagando por isso). O governo poderia comprar 50% das doses disponibilizadas pelos fabricantes, pagando no máximo 150 rúpias cada; governos estaduais e territórios da união poderiam comprar 25% das doses por de 300 rúpias a 400 rúpias, dependendo do imunizante; e hospitais privados pagariam entre 600 rúpias (pela vacina da AstraZeneca) até 1.200 rúpias (para a da Covaxin).

Mas, com o setor privado aceitando pagar muito mais, os estados se viram em apuros para conseguir comprar as doses necessárias. Além disso, hospitais particulares começaram a cobrar preços abusivos, de até 900 rúpias (US$ 12) para a vacina da AstraZeneca e 1.500 (US$ 20) para a Covaxin. E os hospitais pequenos ficaram fora da disputa na hora de comprar imunizantes: a vacinação foi monopolizada por quatro grandes grupos, segundo o Times of India. São grupos cujas unidades priorizam grandes centros urbanos e a população mais rica, como nota Kandhari. Uma imagem simbólica da iniquidade na vacinação foi a de hotéis oferecendo pacotes de vacinação em colaboração com hospitais… Na semana passada, o governo indiano vetou esse tipo de pacote – uma medida ainda tímida para estabelecer algum limite para o livre mercado.

A decisão anunciada ontem se insere nesse contexto de tentativas de breque, mas ainda deixa um quarto das vacinas disponíveis nas mãos do setor privado. A ver se a nova regra será suficiente para reduzir a desigualdade interna na distribuição dos imunizantes – que, apesar da suspensão das exportações para outros países, continuam insuficientes: 13% da população tomou alguma dose, e apenas 3,2% dos indianos estão totalmente vacinados, segundo o Our World in Data.

Esta nota faz parte da nossa newsletter do dia 8 de junho. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos