O que a estabilização esconde

Mortes se estabilizam nacionalmente, mas há vários estados com números em alta e UITs saturadas

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Ontem, o Brasil completou três semanas seguidas de desaceleração no contágio pelo novo coronavírus. Contudo o cálculo, feito pelo Imperial College de Londres, ainda indica que a taxa de transmissão nacional está acima de 1 – em 1,05 para sermos exatas –, o que denota falta de controle do país na sua resposta à epidemia. Estamos nessa situação ‘descontrolada’ há oito semanas seguidas. Nosso pior momento aconteceu no final de abril, quando a taxa de transmissão chegou a 2,8.

Em relação às mortes, há uma tendência de queda, apesar de ainda estarmos na pior situação entre 51 países acompanhados pela instituição em seus modelos epidemiológicos. Os cientistas britânicos estimam que, desde o último domingo até o próximo sábado, tenhamos 7.090 vítimas fatais da covid-19 por aqui. Isso é quase o dobro do México, país que vem atrás de nós nessa lista, com 3,6 mil mortes estimadas. Mas é menor do que a projeção da semana passada, quando o Brasil apareceu com 7.780 óbitos estimados.

Saindo dos modelos e indo para os registros, O Globo também aponta uma tendência de estabilização: segundo o jornal, desde o dia 26 de maio, o Brasil contabiliza cerca de 985 óbitos por dia, sem oscilar mais que 6% desse valor

Apesar das médias, continuamos mal – ocupando o segundo lugar em número de mortes e casos no planeta – e sob risco. Foi o que ressaltou ontem o diretor do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS), Michael Ryan. “O crescimento não é tão exponencial quanto antes, há sinais de que a situação está se estabilizando. Mas já vimos isso acontecendo em outros países. Eles registraram uma estabilização por alguns dias, e depois a doença decolou de novo. O momento é de extremo cuidado no Brasil”, alertou.

Nas últimas 24 horas, as secretarias estaduais registraram 1.209 mortes e 31.475 novas infecções de coronavírus. Com isso, o total de óbitos chegou a 46.665 e o de contaminações a 960.309.

E há diferenças locais no progresso da epidemia. E nas condições de enfrentamento, obviamente. Ontem, o governo do Paraná resolveu decretar regras de isolamento social mais ‘rígidas’ para algumas cidades, depois de constatar o maior aumento no número de mortes e casos registrados desde o começo da crise.  Na terça, o estado chegou à marca dos dez mil casos e ontem já estava com 11.085 confirmados. Apesar disso, a resposta é tímida. O governador Ratinho Júnior (PSD) anunciou a proibição da abertura dos shoppings nos finais de semana, da entrada de crianças em supermercados e do consumo de bebidas alcoólicas nas ruas depois das 22h… E isso só vale para Curitiba e região metropolitana, quando sete em cada dez novos casos da covid-19 no Paraná foram registrados no interior. Em Curitiba, contudo, a secretária municipal de Saúde falou ontem na possibilidade de decretar lockdown se a circulação não diminuir na cidade, que sofre com falta de equipes para atender nas UTIs e está com 82% de ocupação desses leitos.

Mato Grosso é outro que bateu recorde de infectados em um único dia, com 379 registros. O número parece baixo, mas em Corumbá, quarto município mais populoso do estado, a ocupação de leitos de UTI no SUS chegou a 95%. Outro exemplo: o Rio Grande do Norte, onde a capital Natal já chegou aos 100% de ocupação das UTIs, bateu recorde de mortes ontem, com 41 vítimas, num total de 626 óbitos e 15,6 mil casos. Segundo levantamento da Folhahá seis estados com mais de 80% de UTIs ocupadas atualmente: Acre (90%), Pernambuco (87%), Rondônia (85%), Espírito Santo (85%) e Rio Grande do Norte (91%). 

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