Nova recomendação do governo pode sobrecarregar mais o SUS – e não faz sentido

Por que Ministério passou a orientar que pessoas procurem atendimento aos primeiros sintomas de covid-19?

Foto: Wilson Dias / Agência Brasil

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O Ministério da Saúde anunciou ontem uma mudança nas recomendações à população. A partir de agora, as pessoas são orientadas a procurar atendimento aos primeiros sintomas da covid-19. Antes, a orientação era ir ao serviço de saúde se os sintomas se agravassem, evitando três coisas: que pessoas saudáveis se contaminassem nesses locais; que doentes que não evoluiriam de forma grave andassem por aí contaminando mais gente; e que o próprio SUS não recebesse um fluxo enorme nas emergências, que ainda são os pontos da rede assistencial mais procurados nesses casos. Coube ao secretário-executivo da pasta, Elcio Franco (que é, lembremos, coronel da reserva) apresentar o que embasou a decisão. 

De acordo com ele, as “evidências” no Brasil e no mundo mostram que, quando se busca o atendimento na fase inicial da doença, é possível evitar seu agravamento e, consequentemente, um número maior de mortes. Para Elcio, isso também teria um efeito positivo sobre o SUS porque o atendimento precoce teria “uma resposta mais assertiva” e poderia evitar piora no quadro e até a “necessidade de respiradores”. 

O número dois do Ministério garantiu que o Sistema Único está preparado para receber essa demanda. “Foram criados os centros de triagem, os centros comunitários”, disse. E, na sequência, lançou um verbo no gerúndio que, junto com as dificuldades relatadas por gestores locais em contratar profissionais, lançam algumas dúvidas sobre se a pasta realmente se preparou para a mudança: “Estamos reforçando toda a estrutura de atenção primária com médicos contratados pelo programa Mais Médicos”. 

Especialistas ouvidos pelo jornal O Globo fazem duas ponderações. “Para conseguir atender todos ao mesmo tempo, precisaríamos ter um sistema de saúde organizado para que essas pessoas não tivessem contato umas com as outras”, refletiu José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde.  “Ainda não temos tratamento cientificamente comprovado que seja eficaz no tratamento da doença na fase precoce que justificaria a procura urgente por um serviço de saúde nessa fase”, avaliou, por sua vez, a infectologista Ana Helena Figueiredo, para quem esse primeiro atendimento deveria ser feito via telemedicina.

Mas acontece que o número de atendimentos remotos oferecidos pelo Ministério da Saúde caiu a partir de junho – exatamente na gestão do general Eduardo Pazuello. Documentos obtidos pelo Estadãomostram a descontinuidade sofrida pelo TeleSUS. Aconteceu assim: na gestão Luiz Henrique Mandetta, o programa foi reforçado com o objetivo de realizar monitoramento da população durante a pandemia. De um lado, o serviço passou a oferecer informações sobre a doença e, a partir de um questionário, as pessoas puderam relatar sintomas e, dependendo das respostas, ser atendidas remotamente por um técnico de enfermagem, enfermeiro ou médico. Por outro, foi inaugurada a busca ativa de doentes. O TeleSUS passou a disparar milhões de ligações, guiadas por um algoritmo, para repassar orientações e questionar a população sobre sintomas da doença. 

Em abril e maio, foram feitas 67 milhões tentativas de contato. Em junho, o número despencou para 7,1 milhões. Também caiu muito a quantidade de contatos concluídos, quando o questionário feito por telefone, chat ou aplicativo é finalizado e o usuário recebe uma orientação. Em abril e maio, foram 23,5 milhões de interações completas. Em junho, menos de dois milhões. Ainda de acordo com a apuração de Mateus Vargas, está próximo de zero o número de chamadas originadas pela busca ativa que são repassados a um profissional de saúde.

“A queda da ‘busca ativa’ explica-se pela falta de repasse de bases de dados do Ministério da Saúde a empresas contratadas para executar as ligações, dizem gestores de saúde e integrantes do governo. A versão é reforçada por documentos internos da Saúde. A redução das ligações acompanhou também a troca de ministros e do comando da Secretaria de Atenção Primária (SAPS), que faz a gestão do TeleSUS”, escreve o repórter. 

Questionado pelo jornal, o Ministério da Saúde respondeu que “tem incentivado o atendimento e acompanhamento médico já nos casos leves”. Mas fica difícil entender também esse tempo verbal, já que essa orientação começou  ontem…

Será?

Uma possível explicação para a mudança na orientação do Ministério da Saúde em relação à busca por atendimento aos primeiros sintomas da covid-19 é a determinação da pasta em reforçar a cloroquina e a hidroxicloroquina. Ontem, Elcio Franco afirmou que o uso precoce “de medicamentos”, especialmente das substâncias em questão, fez com que a pandemia perdesse tração em alguns locais. 

“O número absoluto [de casos] segue crescendo, mas a velocidade vem diminuindo. Há evidências também que em algumas cidades, estados, aplicou-se o tratamento medicamentoso precoce, que foi justamente o que contribui para o decréscimo dessa curva pandêmica“, disse o secretário-executivo à imprensa. O secretário de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos da pasta, Hélio Angotti Neto, afirmou por sua vez que “há indícios” da eficácia da cloroquina “em vários lugares da internet”. 

É incrível que praticamente todos os dias nós tenhamos que escrever um parágrafo lembrando que não há qualquer evidência científica que embase a fala de uma autoridade pública. La vai: os dois únicos medicamentos que se mostraram eficazes no tratamento da covid-19 são o antirretroviral remdesivir e o corticoide dexametasona – e ambos só têm alguma serventia nos casos graves da doença. Não há profilaxia, nem tratamento precoce, apesar do que propaga o Ministério e das falsas esperanças vendidas por políticos como o presidente Jair Bolsonaro – que, ontem, anunciou que seu “tratamento” com a hidroxicloroquina acaba hoje

Voltando ao Ministério da Saúde: ontem a pasta enviou um ofício ao Supremo. Isso porque a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Saúde ingressou com uma ação contestando a recomendação da cloroquina e da hidroxicloroquina e o relator do caso, ministro Celso de Mello, pediu informações à pasta. A postura dos gestores continua contraditória: nas coletivas de imprensa, como na de ontem, são assertivos. Nos documentos, buscam formas de que a responsabilidade pela propagação do uso das substâncias no tratamento da covid não recaia sobre seus colos. E assim foi feito na resposta ao STF: o Ministério afirmou que não obriga médicos e pacientes a adotarem o tratamento.

“O que se pretendeu foi meramente a compilação das informações técnicas até então existentes, visando orientar uma parametrização mais segura e informada aos que optarem pelo uso do fármaco, mas sem vincular qualquer dos atores da relação médico-paciente, haja vista a inexistência de imperatividade ou força cogente na orientação expedida”, diz o texto.

A propósito: Elcio Franco falou ontem no uso precoce de “medicamentos” – e sabemos que há gestores – como o prefeito de Itajaí (SC), Volnei Morastoni, e a de Areia Branca (RN), Iraneide Rebouças – distribuindo à população substâncias como a ivermectina. A Anvisa ontem alertou que não há provas da eficácia desse vermífugo contra a covid-19

E enquanto as autoridades brasileiras focam em cloroquina e vermífugo ao invés de irem à luta por remdesivir e dexametasona, a União Europeia está um passo à frente e deve acelerar o investimento na pesquisa de tratamentos com plasma sanguíneo coletado de pessoas que já tiveram a covid-19. Um documento visto pela Reuters dá conta de que o bloco vai lançar um edital para os bancos de sangue ampliarem a coleta do plasma, financiamento equipamentos para coleta, estocagem e testagem. 

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