Muito perto da ruína

Pela primeira vez, maioria da população considera Bolsonaro incapaz de governar o país, diz Datafolha. Núcleo duro de apoiadores é formado por 16% da população

Reprodução The Economist

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Se o objetivo de Jair Bolsonaro ao elevar à enésima potência a caricatura que sempre foi – os gritos, as frases de efeito, as ameaças, a escatologia, os ‘e daí?’, o discurso de que é perseguido, o cantar de galo diário junto à sua mirrada claque no Palácio da Alvorada – é manter seu um terço de apoio entre a população, então até agora a estratégia parece funcionar. Mas, fora dessa bolha, tudo está ruindo de forma acelerada. Segundo a última pesquisa do Datafolha, publicada ontem com dados de segunda e terça-feira, pela primeira vez a maior parte da população considera Bolsonaro incapaz de governar o país. São 52% dos entrevistados, contra 44% no início de abril. Para 43% dos brasileiros o governo é ruim ou péssimo, o que é um recorde: antes, o maior índice tinha sido de 38%, um mês atrás.

Quando se trata da atuação do presidente na pandemia, 50% a consideram ruim ou péssima, uma diferença de cinco pontos percentuais em relação ao dia 27 de abril, e 17 em relação a março. Fora isso, 53% das pessoas acham que o presidente é de alguma forma (muito ou pouco) responsável  pela curva de infecção. A aprovação ao Ministério da Saúde, que atingiu seu ponto máximo (76%) no começo de abril, quando o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta se opunha a Bolsonaro, caiu drasticamente. Com Nelson Teich, foi a 55%. Com o general Eduardo Pazuello, é de 45%.

Parece que um grande divisor na avaliação é o grau de adesão dos entrevistados ao isolamento social: 42% dos que dizem viver normalmente acham o presidente ótimo ou bom, enquanto só 16% dos que estão confinados concordam com isso.

Mas a derrocada não se deve só ao coronavírus, com as quase 30 mil mortes no Brasil e a crise econômica brutal que acompanha a pandemia. O vídeo da famosa reunião ministerial de 22 de abril teve seu impacto e, entre os que assistiram, o percentual dos que apontam a inadequação do presidente é 17 pontos maior do que nos outros.

Apesar de tudo, Bolsonaro continua conseguindo ser bem avaliado por um terço da população, o que é uma constante desde o início do seu governo. Com esse, apoio é difícil que se inicie um processo de impeachment, como ressalta a professora de ciência política da USP Maria Hermínia Tavares, no Nexo. Mas a composição desse grupo, cujo percentual está hoje em exatos 33%, está longe de ser estanque. Algo que já tinha sido observado em levantamentos anteriores é a perda de confiança por parte dos mais ricos e escolarizados. A reprovação subiu dez pontos entre os que têm nível superior e seis entre os que recebem mais de cinco salários mínimos. Hoje, entre quem ganha mais de dez salários, 62% acham o presidente ruim ou péssimo. Entre os mais instruídos, 57%.

Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha, e Mauro Paulino, diretor-geral, apontam que o núcleo duro do bolsonarismo é, na verdade, formado por apenas 16% da população. Nesse ‘bolsonarismo raiz’ estão aquelas pessoas que confiam em absolutamente tudo o que o presidente fala e sempre o avaliam como ótimo ou bom (e provavelmente acham essas pesquisas de opinião uma bobagem…). Em sua maioria, são homens, brancos e com renda superior a dois salários mínimos, e há duas vezes mais empresários nesse estrato do que no resto da sociedade.

O resto da aprovação é mais volátil. Dos 33 pontos que Bolsonaro tem agora,11 vieram de estratos que não votaram nele e, nesse grupo, a maioria entrou com o pedido de auxílio emergencial de R$ 600. “A taxa de reprovação ao presidente nesse estrato é inferior em seis pontos percentuais à verificada entre os que não pediram o auxílio, mas o segmento está longe de ser fiel a Bolsonaro – são os que mais se dividem quanto ao impeachment e à renúncia do presidente”, escrevem Janoni e Paulino.

Daí que a possível redução ou retirada do auxílio emergencial nos próximos meses vai ter impacto não só sobre a renda e a vida das pessoas mas também, com certeza, na popularidade do governo, no futuro de Bolsonaro como presidente e, consequentemente, na estabilidade política.

Em tempo: não é só ao seu núcleo duro que Jair Bolsonaro tenta se segurar. Como temos visto diariamente, o loteamento de cargos para o Centrão tem um papel fundamental nisso. Ontem o presidente reconheceu que tem feito as negociações, minimizando o fato. “Eles (parlamentares) se sentem prestigiados, porque na ponta da linha ter indicado para terceiro ou quarto escalão é bom (…) Agora, acusação vem aí, Centrão, fisiologismo… (…) Muitas vezes o parlamentar quer dizer que é dono da obra, mas nada além disso. A intenção não é fazer besteira, se fizer paga o preço. Qualquer pessoa indicada passa por sistemas de informação nosso, a gente pesquisa a vida pregressa dessa pessoa. Se tem condições de exercer o cargo, vai exercer, sem problema nenhum. Se tinha algum mistério, está desfeito”, disse, em transmissão ao vivo em suas redes sociais. Ele ainda justificou que as conversas com o Centrão são necessárias para “derrotar” o PT nos estados.

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