Ministério da Saúde sabia de riscos de incêndio em hospital do Rio
Relatório de abril de 2019 constatou problemas de estrutura; ofício de agosto pediu providências urgentes – mas nada foi feito. Pelo menos três pessoas morreram
Publicado 28/10/2020 às 08:04 - Atualizado 28/10/2020 às 08:05

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Ontem pela manhã um incêndio atingiu o Hospital Federal de Bonsucesso (HFB) no Rio de Janeiro. Em meio à fumaça, quase 200 pacientes foram removidos; uma parte foi transferida para outras unidades de saúde, e alguns foram levados em macas ou colchões para um depósito de pneus. Até o envio desta edição da newsletter, haviam sido confirmadas as mortes de três pessoas – duas delas estavam internadas com covid-19.
Só que a tragédia foi mais do que anunciada, e o Ministério da Saúde tinha conhecimento dela. Em abril do ano passado, um relatório produzido por uma equipe de engenheiros, a pedido da pasta, constatou problemas na estrutura de combate a incêndios no hospital. O incêndio mostra que nenhuma providência foi tomada desde então. Ontem, em nota, a pasta disse que havia “vários projetos aprovados” e “em andamento” para “realizar uma série de reformas de urgência”…
Esse não foi o único documento sobre os problemas do HFB que chegou às mãos do Ministério. O jornalista Tales Faria, do UOL, revelou um ofício enviado à pasta em agosto pela então diretora-geral do Hospital, Cristiane Rose Jourdan Gomes. No texto, ela diz ter tomado conhecimento de “problema grave no sistema elétrico” e pede “providências com a maior urgência possível que o caso requer”. Há menções específicas a um risco de explosão. E mais: esse documento ainda diz que dois outros ofícios já haviam sido enviados, tratando do mesmo problema. Em dezembro, a Defensoria Pública da União pediu à direção do HFB que fossem tomadas “ações imediatas”. As primeiras denúncias de risco de incêndio são de 2007, segundo o Sindicato dos Médicos do Rio.
A unidade não tinha certificado de aprovação do Corpo de Bombeiros, havia recebido dois autos de infração e, o pior de tudo, não é o único hospital com irregularidades. “Quando assumi, há 30 dias, pedi uma grande reunião com todos os hospitais. Não é só o HFB que tem problemas. Mas é muito difícil, quase impossível, interditarmos um hospital com 600 leitos. Nosso código de segurança contra incêndio é uma legislação da década de 1970 e é difícil um prédio antigo se adequar”, comentou o Secretário de Defesa Civil, coronel Leandro Sampaio Monteiro.
Há algo muito errado, e não é só no Rio. Este ano houve 45 incêndios em hospitais brasileiros, incluindo públicos e privados – quase o dobro dos 23 ocorridos em 2019. Não há dados estatísticos oficiais sobre isso, mas a informação é do Instituto Sprinkler Brasil, que monitora incêndios estruturais noticiados pela imprensa. Ou seja, número real pode ser maior, já que os focos rapidamente controlados acabam não sendo noticiados.
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