O que aconteceu com nossa percepção de riscos durante a pandemia?

Reportagem aborda o quanto as atitudes são moldadas pela necessidade de pertencimento – e como bolhas de proteção podem ser rompidas por puro tabu

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“Para estarem seguras, as pessoas precisam estar livres da ameaça de danos físicos ou mentais. Mas para se sentirem seguras, as pessoas precisam estar livres da percepção do dano potencial“;  essa passagem é o cerne de uma longa matéria publicada no site The Atlantic, que, apesar de tratar muito especificamente da compreensão de segurança nos Estados Unidos durante a pandemia, com certeza pode servir para reflexões sobre a situação brasileira e em outras partes do mundo.

A repórter Amanda Mull parte de explicações sobre como o medo é um sentimento primitivo e pouco racional, e defende que a necessidade de pertencer a um determinado grupo (precavidos ou negacionistas da pandemia) acaba forçando as pessoas a adotar algumas ações que nem sempre fazem sentido. No caso dos negacionistas, toda a falta de noção que cansamos de denunciar aqui, como aglomerações de gente sem máscara. Do lado dos precavidos, um excessivo apontar de dedos para eventos que apresentam risco mínimo, como encontros ao ar livre entre pessoas mascaradas. Isso pode ser evitado quando as autoridades mandam à população mensagens claras e diretas. Nos Estados Unidos, como no Brasil, cada pessoa acaba precisando aprender a tomar decisões por conta própria. Com isso, elas “traçam seus caminhos com base em sua personalidade, em como vêem o mundo e como se relacionam com o risco”.

Mas um ponto algo inusitado da matéria que nos chamou a atenção foi a relação que Mull traça entre a exposição ao risco e uma certa ‘cerimônia’ que existe entre pessoas próximas, incluindo por parte daquelas que estão conscientes dos perigos e tomam seus cuidados. “Mesmo com as mensagens confusas vindas de cima, a segurança na era da pandemia seria um pouco mais clara de se negociar se falar sobre nosso comportamento e fazer perguntas sobre os outros não fosse tão dolorosamente incômodo. Garantir a segurança da pandemia requer interrogar entes queridos sobre com quem eles estiveram e o que estão fazendo, e se foram testados recentemente”, escreve a repórter.

Com isso, ela faz uma interessante comparação com a saúde sexual “A dinâmica da saúde pandêmica e da saúde sexual torna as pessoas ansiosas e tímidas de maneiras muito semelhantes, em relação a tipos de precauções muito semelhantes. Você deveria se recusar a ir ao casamento de sua prima, a menos que ela o faça ao ar livre? Você deveria dizer ao seu amigo sem máscara para se mascarar?”. Para uma educadora sexual entrevistada, Logan Levkoff, essas situações ainda são cobertas por estigma e vergonha, assim como as que envolvem a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis. “Você não pode presumir que alguém em quem você confiou por anos não vai expô-lo a uma doença mortal (…). As pessoas se sentem mal por impor seus limites ou simplesmente se cansam da vigilância constante”, escreve Mull.

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