Ministério da Saúde pagou 1000% a mais por Covaxin

Documentos do Itamaraty revelam que fabricante da vacina estimava preço ‘menor que uma garrafa de água’, mas pasta resolveu comprar com intermediação da Precisa Medicamentos

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O governo comprou a vacina indiana Covaxin por um preço 1.000% maior do que, seis meses antes, era anunciado pela fabricante Bharat Biotech. A informação está em um telegrama sigiloso da embaixada brasileira em Nova Délhi datado de agosto do ano passado. Segundo o Estadão, que teve acesso ao documento, o preço do imunizante foi estimado em 100 rúpias (US$ 1,34 a dose). Em dezembro, outro comunicado diplomático afirmou que o produto “custaria menos do que uma garrafa de água”. 

Só que não: em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde pagou US$ 15 por unidade – o que transformou a Covaxin na mais cara das seis vacinas compradas até agora. Ao contrário de outras negociações, esta não foi feita diretamente entre ministério e fabricante, mas com intermediação da Precisa Medicamentos. 

Os documentos colocam mais lenha na fogueira, num momento em que o foco da CPI passou a ser as empresas beneficiadas pela atuação do governo Bolsonaro. Como destacamos ontem, chegou ao conhecimento dos senadores o depoimento de um servidor do Ministério da Saúde que acusa o tenente-coronel Alex Lial Marinho de fazer muita pressão pela Covaxin – inclusive na Anvisa pela autorização da vacina. 

Tem mais: esse mesmo servidor estava no grupo de técnicos ouvidos em 2018 em outra apuração que envolvia a Global Gestão em Saúde, que é sócia da Precisa Medicamentos. Na época, o ministério pagou antecipadamente por medicamentos que não recebeu. O resultado foram estoques zerados, o que causou a morte de pelo menos 14 portadores de doenças raras. Segundo a PGR, esses repasses foram “absolutamente fora do comum”. O órgão moveu uma ação de improbidade administrativa contra a Global e contra o ministro na época, Ricardo Barros (PP-PR), atual líder do governo Bolsonaro na Câmara.

Amanhã, a CPI ouve Francisco Emerson Maximiano, presidente da Global. A comissão já pediu a quebra dos sigilos do empresário. E pretende pedir a quebra de sigilo fiscal, bancário, telefônico e telemático do tenente-coronel Alex Lial Marinho também

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