Gordura para queimar

Apesar dos repetidos saltos nas internações, hospitais de luxo em São Paulo ainda têm leitos não-covid de sobra. Já no Rio, situação é grave mesmo na rede privada

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Um dos primeiros sinais do repique da covid-19 no Brasil foi o aumento de internações nos hospitais de elite de São Paulo, justamente os que atenderam os primeiros casos confirmados da doença no país. Novos números dão conta dos efeitos dessa segunda onda entre os estratos mais ricos da população: a semana passada fechou com uma ocupação de 83% dos leitos destinados a pacientes com covid-19 nos 11 hospitais mais caros da capital paulista, representados pela Associação Nacional de Hospitais Privados.

Ampliando o escopo, o Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo fez um levantamento com 76 instituições. Concluiu que em duas semanas a taxa de ocupação dos leitos de UTI dedicados à doença passou de 55% para 84%. A entidade também verificou um salto nas internações por covid-19 em geral: a ocupação foi de 44% para 79% entre a terceira e a quarta semana de novembro. 

Mas a matéria da Folha mostra que há uma distância grande mesmo no setor privado. Os 11 hospitais de elite ainda têm muita gordura para queimar: estão reservando apenas 11% de seus leitos para a covid. Nas 76 instituições particulares o quadro é outro: elas reservam 40% das suas vagas para a doença. Mesmo assim, 67% dos ouvidos pelo sindicato dizem ter capacidade de aumentar o número de leitos para covid-19 caso seja necessário.

Já no Rio, a situação é pior. A Associação de Hospitais Privados do estado afirma que a taxa de ocupação dos leitos de UTI na capital fluminense bateu os 98% e os doentes já estão sendo enviados para unidades em outras cidades. Ao que parece, a entidade defende um tipo diferente de solidariedade entre o público e o privado: que novas vagas sejam abertas na rede particular com dinheiro público porque os hospitais privados teriam mais facilidade de contratar profissionais… Na reportagem d´O Globo não há dados que indiquem o que os leitos reservados para covid representam diante da capacidade total da rede representada pela associação.

No Paraná, a Associação dos Municípios da Região Metropolitana de Curitiba disse na segunda-feira que já havia fila de espera por UTI de 50 pacientes no SUS. O governo estadual nega haver falta de atendimento médico, mas planeja reabrir 89 leitos de tratamento intensivo até meados de dezembro.

Enquanto isso, a discussão sobre a fila única de leitos, em que gestores públicos lançam mão da sua autoridade para requisitar infraestrutura e pessoal de serviços particulares, parece ter sumido do radar durante esse repique de casos. 

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