Opióides: as farmacêuticas encobrem tragédia

Purdue Pharma desembolsou milhões para financiar pesquisas enviesadas e minar reportagens que investigavam a morte de 200 mil por drogas “legais”. Leia também: a MP do Médicos pelo Brasil corre grande risco de caducar

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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POR TRÁS DAS MATÉRIAS

Quem lê o Outra Saúde há algum tempo tem acompanhado a relação da indústria farmacêutica com a epidemia de opioides nos EUA, que matou nada menos que 200 mil pessoas nos últimos 20 anos: fabricantes e distribuidoras de medicamentos vêm enfrentando denúncias e processos por terem propagandeado indiscriminadamente seus analgésicos viciantes, inclusive pagando propina para médicos prescreverem os ditos cujos. O remédio mais problemático é o OxyContin, da Purdue Pharma. Mas de vez em quando há reportagens relativizando a história – com fontes afirmando que o problema não é bem esse e que reduzir a oferta ou as doses desses medicamentos pode ser desastroso para quem precisa deles. Uma reportagem enorme do Stat e da ProPublica desvenda a teia de interesses por trás disso.

Em outubro de 2004*, por exemplo, o New York Times deu uma notícia de destaque sobre a epidemia, com uma psiquiatra chamada Sally Satel citando determinado estudo que minimiza o efeito dos analgésicos. Ela afirma que “ao contrário dos retratos da mídia, o típico viciado em OxyContin não começa como um paciente com dor que caiu involuntariamente no hábito de usar drogas”. No jornal, ela é creditada como residente do American Enterprise Institute e membro não remunerada do conselho consultivo da Administração de Serviços de Saúde Mental e Abuso de Substâncias.  Mas… é mais do que isso: ela e o American Enterprise Institute têm relações bem estreitas com a Purdue. Desde 2003, a empresa já doou mais de US$ 800 mil ao instituto, e há pagamentos diretos a Satel. O estudo que ela cita na matéria do Times foi financiado pela Purdue e, inclusive, foi redigido por funcionários e consultores da empresa. Ao longo dos últimos 20 anos, essa psiquiatra já escreveu vários artigos sobre o tema, além de ser figura certa em jornais, programas de rádio e TV.

As conexões foram reveladas por e-mails e documentos obtidos pela ProPublica, mas há muito mais. A Purdue também financiou grupos como o American Pain Foundation, que fazem advocacy por pacientes com dor crônica. E contratou, a partir de 2001, a firma de relações públicas Dezenhall Resources, conhecida por ‘defender’ a ExxonMobil de grupos ambientalistas. Seus funcionários se responsabilizaram por abafar matérias justamente com um contra-ataque em artigos de jornal e reportagens com entrevistados simpáticos aos remédios. Depois que essa estratégia foi adotada, as reportagens sobre o vício e abuso do OxyContin diminuíram por vários anos. Em 2001, houve 1.204 matérias que incluíam as palavras “OxyContin”, “abuso” e “Purdue”. O número caiu para 361 em 2002, e para 150 em 2006. Enquanto isso, as mortes cresciam.

ADIAMENTO BEM SIMBÓLICO

A 6ª Conferência Nacional de Saúde Indígena foi adiada. Novamente. O evento a princípio seria realizado em maio, mas o governo Bolsonaro determinou que os procedimentos administrativos necessários para levar a Conferência para frente, iniciados ainda na gestão anterior, começassem do zero. Com isso, a nova data ficou sendo dezembro. Mas a verdade é que a poucos dias da conferência nada tinha andado conforme o planejado: o governo ainda não tinha nem feito a licitação para escolha do espaço e da empresa prestadora de serviços. A constatação de mais essa derrota, que já corria nos bastidores movimento indígena, aconteceu nesta terça-feira. Na ocasião, a comissão organizadora anunciou a decisão de adiar o evento para um longínquo julho de 2020 – data bem próxima das eleições municipais (coincidência?). 

Tudo isso acontece depois da mobilização de cerca de 60 mil pessoas que, em 2018, participaram de 304 conferências locais e 34 conferências distritais, em um processo no qual já foram investidos R$ 11 milhões de recursos públicos. 

Mas isso não é tudo, já que os sucessivos adiamentos ganham um caráter bastante simbólico ao acontecerem em 2019 – marco dos 20 anos de criação do subsistema de saúde indígena. A reportagem de capa da revista Poli, editada pela Fiocruz, relembra essa história e faz um balanço das conquistas e desafios da atenção à saúde a essa população. 

CORRE RISCO DE CADUCAR

Um dos fatores de crise na saúde indígena é a falta de profissionais de saúde na ponta, atendendo próximos às aldeias. O Mais Médicos resolveu parte do problema e se o fim da parceria entre Cuba e Brasil deixou lacunas em diversos municípios, impactou particularmente as populações tradicionais. A solução do Ministério da Saúde foi, como sabemos, criar por medida provisória um novo programa, batizado de forma ufanista: Médicos pelo Brasil. Mas a MP 890 precisa ser aprovada pelo Congresso Nacional. E, aparentemente, isso não vai acontecer antes da medida caducar. O prazo fatal é 28 de novembro, próxima quinta-feira. 

Nas últimas quatro semanas, a MP entrou na pauta do plenário da Câmara dos Deputados, mas foi sendo jogada para a próxima sessão indefinidamente… Há desacordo entre governo e oposição a respeito de alguns aspectos, sendo o principal deles a criação da Adaps, agência para a atenção primária, nos moldes de um serviço social autônomo (como o Sistema S). A oposição defende que, se tiver de haver uma agência, que ela seja criada como fundação estatal.  

Mas os maiores opositores nessa história são as entidades médicas que fazem campanha contra aspectos da MP que mexem com seus interesses corporativos, como mudanças nas regras de revalidação do diploma obtido em faculdades estrangeiras e a possibilidade de que estados façam consórcios para contratar médicos com intermédio da Organização Pan-americana de Saúde (Opas), dando sobrevida ao Mais Médicos.  “Lamentamos se [a MP] vier a caducar, no sentido de perda de oportunidade de se fixar médicos nas diferentes regiões. Porém os riscos e os desacordos no interior do congresso apontam que essa medida provisória não seja votada”, avaliou Lincoln Ferreira, presidente da Associação Médica Brasileira, em entrevista à Folha

O jornal também informa que além das divergências temáticas, digamos assim, a medida também encontra dificuldades pois os parlamentares estariam insatisfeitos com demora do governo de pagar projetos-alvo de emendas parlamentares. 

PARADÕES

Ontem, a Organização Mundial da Saúde lançou o primeiro estudo comparativo sobre atividade física na infância e adolescência. E estamos mal também nesse quesito. No Brasil, 84% das pessoas entre 11 e 17 anos não se exercitam o suficiente. Para a OMS, o ideal nessa faixa etária é que os jovens se dediquem a pelo menos 60 minutos de atividade física moderada cinco vezes por semana. Há também uma diferença grande entre meninos e meninas no país. No caso deles, o índice é de 78% – mas no caso delas, isso aumenta bastante: 89% das meninas fazem menos exercício do que deveriam. 

Os dados usados pela pesquisa são de 2016. No caso do Brasil, a OMS teve como comparar esses resultados com registros de 2001. A conclusão é que o país registrou uma pequena melhora nos índices de atividade dos meninos e uma piora no das meninas. Ainda segundo a Organização, a inatividade tem relação com o aumento no uso de equipamentos eletrônicos e na falta de estímulo para o exercício no ambiente escolar.

PELO AVESSO

Há pouco tempo o STF derrubou o trecho da reforma trabalhista que permitia a grávidas e lactantes trabalharem em ambientes insalubres. Mas é óbvio que nem todo mundo ficou feliz. O secretário especial do Ministério da Economia, Rogério Marinho, por exemplo, argumenta que “na vida real, a decisão do STF vai gerar discriminação contra a mulher”. Pois é. A frase foi dita em um evento promovido pelo Jota, com patrocínio do Itaú, sobre ‘Os efeitos da reforma trabalhista e os desafios da MP do Emprego’. Segundo Marinho, a decisão do STF gera possibilidade “enorme” de a mulher ser demitida após o período da gestação porque “teria perdido aderência” no seu trabalho. No mesmo evento, juíza Sônia Mascaro Nascimento disse que “as relações de trabalho estão mudando. Tivemos um Direito do Trabalho que nasceu para proteger o trabalhador, mas tudo muda”. Estamos vendo…

E ontem, o plenário do Tribunal Superior do Trabalho decidiu que gestantes admitidas por contrato temporário não têm direito à estabilidade. Esse contrato, previsto em uma lei de 1974, só pode ser usado para a substituição de funcionário afastado por doença, licença-maternidade ou para atender demanda extraordinária de mão de obra. Segundo a decisão, a empregada temporária que fica grávida pode ser demitida. A determinação é vinculante, ou seja, precisa valer nas varas e tribunais do trabalho de todo o país. 

MAIS UMA DOENÇA

Nos EUA, a ainda misteriosa doença pulmonar ligada a cigarros eletrônicos (EVALI) já atingiu 2.290 pessoas e matou 47. Mas agora, no Canadá, pesquisadores encontraram uma nova doença em um rapaz de 17 anos. Os sintomas são parecidos com os de algo conhecido por ‘pulmão de pipoca’ – uma bronquiolite séria identificada em trabalhadores expostos a saborizantes de pipoca de microondas e que está ligada ao diacetil, que dá sabor de manteiga a esse produto. A descoberta foi publicada ontem no Canadian Medical Association Journal, mas aconteceu antes mesmo de o surto nos EUA ser reportado. Já se passaram quatro meses desde que o jovem adoeceu e ele ainda não consegue respirar direito. Como em pacientes com ‘pulmão de pipoca’ a condição é irreversível ainda não se sabe se os pulmões do rapaz voltarão ao normal.

MACHINE LEARNING

E se um algoritmo alimentado com milhares de casos de câncer e desfechos clínicos conseguisse, com base nessas informações, prever se é melhor apostar nas terapias mais agressivas ou em cuidados paliativos para garantir qualidade de vida nos estágios finais da doença? Isso já está sendo testado e a primeira conclusão é que, sim, a inteligência artificial consegue sugerir a decisão acertada. De acordo com estudo inédito da Faculdade de Saúde Pública da USP, o algoritmo conseguiu prever em 82% dos casos se o paciente iria viver mais ou menos de 30 dias com qualidade de vida. A pesquisa foi realizada ao longo de dois anos em dois hospitais oncológicos paulistas, com 777 pacientes com câncer avançado internados na UTI e os resultados foram publicado no periódico Journal of Critical Care. Mas os cientistas alertam que ainda será necessário testar o modelo com um número maior de pacientes e validá-lo antes que seja colocado na prática clínica.

* Na primeira versão da newsletter, enviada por e-mail, ficou faltando a informação sobre o ano da publicação.

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