Estudo põe em dúvida utilidade de máscaras para proteger quem usa

Primeiro ensaio clínico randomizado, com cinco mil participantes, não viu diferença no número de infecções. Quais são suas maiores falhas?

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Um estudo dinamarquês publicado ontem no periódico Annals of Internal Medicine chegou para confundir o que já parecia bem estabelecido. O grande ensaio clínico randomizado buscou avaliar se o uso de máscaras cirúrgicas pela população em geral protege contra a covid-19. Cerca de cinco mil voluntários participaram do estudo; todos foram orientados a manter o distanciamento social, mas metade recebeu as máscaras e foi instruído a usá-las ao sair de casa, enquanto a outra metade não deveria usar nada. Os pesquisadores esperavam que as máscaras reduzissem em 50% as infecções, mas isso não aconteceu: houve 42 contaminações no grupo das máscaras (1,8% do total), contra 53 no grupo sem máscara (2,1%). A diferença não foi estatisticamente relevante.

O trabalho não põe em dúvida a proteção que as coberturas oferecem quando usadas por pessoas infectadas para evitar a transmissão, o que já é consenso há algum tempo. Mas sugere que, para evitar que alguém saudável pegue o vírus, elas não funcionariam. Isso contraria vários estudos publicados recentemente tratando sobre as coberturas faciais, inclusive de tecido – eles, no entanto, foram conduzidos em laboratório, e não com pessoas comuns, no mundo real. 

Muitos especialistas não estão convencidos pelo resultado, porém. Vários, inclusive, argumentam que o trabalho não deveria ter sido publicado, uma vez que pode reduzir o entusiasmo pelas máscaras. Entre suas críticas está o fato de que o uso das máscaras na pesquisa foi relatado pelos próprios participantes, e não foi verificado de forma independente. As pessoas podem simplesmente não ter usado da forma correta: ninguém sabe ao certo se elas deixaram o nariz de fora, como tanto se vê por aí. Ao todo, 93% disseram ter usado a proteção conforme as recomendações ou  “predominantemente conforme as recomendações”. 

Outra questão é que a incidência de covid-19 na Dinamarca era muito baixa, então os efeitos das máscaras podem ter sido mais difíceis de detectar – talvez o estudo indique que, em lugares com taxas modestas de covid-19, o uso de máscaras durante as tarefas diárias pode não fazer diferença.

Para Vinay Prassad, professor de medicina na Universidade da Califórnia, a principal conclusão disso tudo é que precisamos de mais estudos randomizados para avaliar variáveis específicas em relação ao uso de máscaras (por exemplo, se há redução da transmissão em cidades onde ela é obrigatória, e se isso é diferente quando o uso se dá em todos os espaços ou só nos locais fechados). 

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