Em fase de testes

Contra coronavírus, vacina de Oxford começa a ser testada em 10 mil pessoas, e tratamentos com anticorpos avançam

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A vacina contra covid-19 desenvolvida pela Universidade de Oxford – que tem sido considerada uma das mais promissoras – entra esta semana em fase 3 de testes clínicos. Nessa etapa vão ser vacinadas dez mil pessoas no Reino Unido para ver a eficácia do produto, e mesmo antes dos resultados ele já começou a ser produzido em larga escala. O Estadão conversou com a imunologista Daniela Ferreira, brasileira que está à frente da testagem na Escola de Medicina Tropical de Liverpool, que é um dos 18 centros de pesquisa recrutados por Oxford para acelerar o processo. “O que eu posso dizer é que dentro de dois a seis meses teremos os dados para dizer se a vacina protege ou não”, diz ela.

Apesar de toda uma discussão existente sobre  a ideia de fazer testes ‘com desafio humano’ no caso da covid-19 (ou seja, administrar candidatas à vacina e, em seguida, expor as pessoas de propósito ao vírus), o imunizante de Oxford vai ser testado do jeito convencional: metade dos participantes vão receber a dose, outra metade vai receber placebo, em seguida todo mundo volta à vida normal. Tempos depois, os pesquisadores comparam o número de infecções nos dois grupos.

Ironicamente, pode ficar mais difícil conduzir os testes conforme as medidas de isolamento vão dando certo e as pessoas diminuem suas chances de contágio. Ferreira conta que, mesmo que o Reino Unido esteja saindo do lockdown, isso pode afetar a pesquisa. Por isso, vão ser priorizados profissionais de saúde, que têm mais chances de se contaminar.

Esse ‘problema’, aliás, está na mira de outros grupos que desenvolvem vacinas na Europa. Com os casos em queda por lá, talvez eles saiam em busca de voluntários na América e na África, diz o Globo.

Em relação a tratamentos, estão começando as testagens do primeiro remédio desenvolvido especificamente contra a covid-19. Trata-se de um anticorpo desenvolvido pela gigante farmacêutica Ely Lilly, mas por enquanto os ensaios vão testar só a segurança, avaliando os efeitos colaterais em 32 pessoas. Em breve, duas outras drogas do mesmo tipo (uma da Regeneron, outra de uma parceria entre Vir Biotechnology e GlaxoSmithKline) entram em fase de testes também. Os tratamentos com anticorpos têm despertado algum entusiasmo.

E a Gilead, farmacêutica que produz o remdesivir, anunciou que suas pesquisas indicam bons resultados para pacientes com sintomas ‘moderados‘, que estavam internados mas sem precisar de ventilação mecânica. Para pacientes graves, um estudo conduzido pelos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA mostrou redução no tempo de internação após o uso. A empresa, porém, divulgou a nova informação sem os dados completos que a embasam, o que é um problema. Além disso, não foi feito um estudo controlado, com um grupo que recebesse placebo.

A propósito, a OMS vai decidir hoje se mantém suspensos os seus testes com hidroxicloroquina. Aqui no Brasil, a deputada federal Sâmia Bonfim (PSOL-SP) protocolou uma ação na Procuradoria Geral da República (PGR) contra o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, pela orientação em relação ao uso precoce. De acordo com a parlamentar, houve crime de responsabilidade pela pasta “divulgar extraoficialmente orientações de enorme impacto à saúde das pessoas sem obedecer aos procedimentos legais de controle e segurança”.

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