As ruas voltam a pulsar

Depois de meses afastada das ruas pela pandemia, manifestações democráticas estão de volta

Foto: Reproução Jornalistas Livres

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A pandemia no Brasil divide palco, desde o começo, com as manifestações antidemocráticas impulsionadas pelo presidente da República. No sábado à noite, vídeos do ato do grupo “300 do Brasil” se espalharam mostrando gente com tochas e máscaras brancas, a la Ku Klux Klan, em frente ao Supremo Tribunal Federal. No mesmo dia, o ministro do STF Celso de Mello enviou uma mensagem a interlocutores via WhatsApp comparando o Brasil à Alemanha de Hitler.

Mas o movimento dos mascarados liderados por Sara Winter – que, aliás, ameaçou publicamente o ministro Alexandre de Morais semana passada – tinha menos de 300 pessoas em sua marcha. Bem menos: talvez uns 30, de acordo com as câmeras de segurança. A verdade é que os atos contra o Congresso e o STF, ainda que assustadores pelo simples fato de existirem, têm sido esvaziados. Os mais volumosos são as carreatas, por razões óbvias. Mesmo assim, sem nada que faça frente a eles nas ruas, costumam ficar em destaque.

Acuado pelas operações contra fake news que agora miram seus aliados, ontem Jair Bolsonaro sobrevoou Brasília em um helicóptero camuflado, nas cores do Exército, num símbolismo nada sutil. Estava acompanhado pelo ministro da Defesa, Fernando Azevedo. Do alto, visualizou sua meia dúzia de apoiadores antes de desembarcar. Porque símbolo pouco é bobagem, andou entre as pessoas montado a cavalo. Acenou, sorriu, pegou crianças no colo. “Estarei onde o povo estiver“, escreveu mais tarde nas redes sociais, compartilhando um vídeo com as imagens.

Mas o povo tinha outros planos, e partiram de torcidas organizadas de futebol as convocações para os primeiros grandes atos de rua pró-democracia. Há várias semanas, as manifestações capitaneadas em Brasília por grupos assumidamente armados e que objetivam derrubar o Congresso o o Supremo não provocam grandes reações das polícias. Os atos de ontem, por outro lado, terminaram em repressão.

Em São Paulo, os grupos chegaram à Avenida Paulista no inicio da tarde, ao mesmo tempo em que os bolsonaristas costumam aparecer. Vinham em número bem maior do que os apoiadores do presidente. Em pouco tempo, vídeos transmitidos ao vivo começaram a mostrar a Tropa de Choque lançando bombas de gás lacrimogênio. Seis pessoas foram presas e a Paulista terminou com vidros quebrados, caçambas reviradas e fogo em objetos na rua. O coronel Álvaro Batista Camilo, secretário-executivo da PM, diz que a polícia não sabe qual grupo começou a confusão. Mas antes disso ele próprio havia reconhecido que pessoas que portavam bandeiras de cunho neonazista foram o estopim. Vídeos mostram uma mulher com máscara dos EUA e um taco de basebol na mão (onde se lê “Rivotril”) xingando manifestantes pró-democracia enquanto é calmamente escoltada por um PM.

No Rio, tudo começou ainda de manhã, em Copacabana, onde também houve confusão e duas pessoas foram detidas. Quem estava lá era  o deputado bolsonarista Daniel Silveira (PSL-RJ), que simplesmente ameaçou matar manifestantes. Em um vídeo tuitado após a manifestação, ele diz que há muitos policiais armados participando de atos em defesa do governo: “Até que vocês vão pegar um polícia zangado no meio da multidão, vão tomar um no meio da caixa do peito, e vão chamar a gente de truculento. Eu tô torcendo para isso. Quem sabe não seja eu o sortudo. Vocês me peguem na rua em um dia muito ruim e eu descarregue minha arma em cima de um filho da puta comunista que tentar me agredir. Vou ter que me defender, não vai ter jeito. E não adianta falar que foi homicídio, foi legítima defesa. Tenham certeza: eu vou me defender”, disse.

Foi à tardinha, porém, que a cena mais marcante aconteceu: um PM apontando seu fuzil para um manifestante desarmado e descalço, por ele supostamente estar fumando maconha. “Só fica assim da minha cor. Só morre assim quem é da minha cor. Se for branco, morador de prédio, não fica. Essa é a minha revolta. Todo mundo morrendo nessa guerra inútil”, disse o rapaz. Não por acaso, era uma manifestação contra a violência policial, que não tem dado trégua nas favelas durante a pandemia. O ato “Vidas negras importam” juntou 400 pessoas e terminou oficialmente às 16 horas, justamente porque tinha gente demais. Mas as pessoas continuavam chegando. Os conflitos aconteceram na dispersão.

Na seara da mobilização virtual, começou a circular no fim de semana um improvável manifesto que reúne de Lobão a Fernanda Montenegro, de Luciano Huck a Flavio Dino, de Maria Alice Setúbal a Guilherme Boulos. Fala em “deixar de lado as velhas disputas em busca do bem comum”, em “unir a pátria e resgatar nossa identidade como nação”, em “esquerda, centro e direita unidos” e em comungar “dos mesmos princípios éticos e democráticos”. O texto não menciona o nome de Jair Bolsonaro nenhuma vez, nem convoca ninguém às ruas.

Mas vieram delas, as ruas, as únicas respostas enérgicas à ameaça antidemocrática. Parece cada vez mais inevitável que cresça esse enfrentamento direto – o entornar de um caldo que há muito começara a ferver. As consequências políticas disso são pouco previsíveis. De todo modo, é absolutamente impressionante que na semana em que o Brasil confirma meio milhão de casos de covid-19, tem quase 30 mil mortes conhecidas e continua sem ministro da Saúde, o foco precise ser (e sim, precisa ser) essa crise política.

Jair Bolsonaro já deu o tom: compartilhou no Twitter, sem escrever uma palavra, o post de Donald Trump em que ele anuncia que seu governo vai considerar o antifascismo como “uma organização terrorista”. O filho Eduardo, é claro, o acompanhou. “O Brasil deveria fazer o mesmo. Aqui eles se fantasiam de torcida organizada, mas todos sabemos que querem é desordem, baderna e confronto com manifestações pacíficas”, acrescentou.

Nos bastidores, parlamentares aliados ao presidente apostam em endossar essa narrativa e também pretendem ressaltar o fato de que os atos pró-democracia geram aglomeração. “É muita incoerência criticar Bolsonaro porque ele vai a manifestações, alegando que ele desrespeita as orientações para conter o avanço do coronavírus, e organizar protestos que também geram aglomerações”, avalia um deles, no Valor. A diferença entre ambos é muito evidente, mas o argumento, sem dúvidas, tem todos os elementos para ser explorado com sucesso nas redes.

Em tempo: os Estados Unidos, número um no ranking de casos e de mortes pelo novo coronavírus, estão há uma semana com prostestos por toda a parte depois que George Floyd foi brutalmente morto por um policial branco. Cenas de violência se multplicam e mais de 300 pessoas foram presas. Não é só no Brasil que o “black lives matter” encontra eco. Houve manifestações em Berlim, em Londres e em Toronto. A preocupação com a antecipação de novos picos de coroanvírus, é claro, existe e é enorme.

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