Carlos Wizard vem aí

Fundador da escola de idiomas e empresário de fast-food, ele é o novo secretário de Ciência, Insumos e Tecnologia do Ministério da Saúde. Seus planos: suspender compra de respiradores e dar kit-cloroquina a parentes de infectados

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O general Eduardo Pazuello fez um convite ao fundador da escola de idiomas Wizard para que o empresário assuma a Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério. Entre as credenciais de Carlos Wizard Martins estão sua atuação como missionário na Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias e sua defesa da cloroquina. Façamos uma breve comparação com o secretário anterior, Antonio Carlos Campos de Carvalho: biofísico e professor da UFRJ, deixou o cargo por não concordar com a liberação da cloroquina.

Pois bem: Carlos Wizard ainda nem foi nomeado, mas já anda falando por aí que vai suspender todos os contratos firmados pelo governo com fornecedores internacionais para comprar respiradores. Todos. O motivo alegado até faria bastante sentido em tempos normais: economia de recursos e preferência pela produção nacional. Mas gostaríamos de lembrar que esses aparelhos já deveriam estar à disposição da população há muito tempo – inclusive, uma empresa chinesa quebrou um contrato para 15 mil equipamentos assinado ainda na gestão Mandetta e todo o clima de ataques do governo brasileiro à China definitivamente atrapalhou uma mediação diplomática para a situação. De modo que a prioridade no momento deveria entregar os aparelhos o mais rápido possível. 

Mas não… “Fiz um trabalho gigantesco de prospecção de mercado nacional e internacional. E estipulamos que não pagaríamos mais de US$ 10 mil por aparelho. Quando passamos a estudar o cenário, os aparelhos que estavam vindo da China, Alemanha, Inglaterra… estavam por US$ 20 mil, US$ 30 mil”, disse Wizard à CNN Brasil

A outra notícia ruim é que o próximo secretário de uma pasta que leva “ciência” e “tecnologia” no nome quer deixar sua marca no governo como o criador de um “kit” contra a covid-19 com cloroquina e hidroxicloroquina. “Se uma mãe foi diagnosticada, vamos dar para o marido, para os filhos e o entorno dela”, exemplificou em entrevista à Folha. Ele também gosta de pseudoargumentos de cunho pessoal: “Meu filho ficou dois anos na África, e sabe o que ele fazia toda semana? Ele tomava a tal da cloroquina. Era sagrado. Você acha que meu filho está retardado, com taquicardia, algum dano cerebral? Pelo contrário, é uma mente brilhante”.

A propósito: Carlos Wizard já vinha atuando como conselheiro de Pazuello desde abril, apesar de não ter experiência alguma com administração pública ou com o setor da saúde. Foi convocado pelo general no mesmo dia em que ele foi convidado por Bolsonaro para assumir a Secretaria Executiva como tutor de Nelson Teich. Em 2018, Wizard teve sua fortuna avaliada em R$ 2,4 bilhões pela Forbes. É presidente de um grupo empresarial (Sforza) que controla no Brasil empresas de comida-porcaria, como Pizza Hut, KFC e Taco Bell.

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