O drama dos bebês criados em oficinas de costura

Superexploração no setor têxtil rouba tempo de cuidado dos filhos de imigrantes: 50 por ano se acidentam em máquinas. Falta de contato humano acarreta problemas de aprendizagem e fala. Leia também: coronavírus já tem casos em 14 países

Foto: divulgação MPT

Por Raquel Torres

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NAS OFICINAS

Acidentes de trabalho são um problema grave, mas a necessária matéria de Mayara Paixão na Repórter Brasil traz uma faceta pouco conhecida desse problema: os acidentes que atingem bebês criados em oficinas de costura, em geral de famílias imigrantes. São histórias como a de Grécia Kama, que tinha menos de um ano de idade quando colocou a mão no motor de uma máquina de costura e perdeu um dedinho.

Os casos chegam a 50 por ano no Brasil (de 2012 a 2018, foram quase 300 registros), mas a chefe da Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho Escravo do MPT, a procuradora Lys Sobral Cardoso, diz que há subnotificação, especialmente devido à ausência de documentação dos trabalhadores.

Além disso, há outro problema de saúde não computado entre os acidentes e que provavelmente são mais graves e numersosos do que eles – os danos psicológicos sofridos por quem cresce vivendo nessas oficinas, com pais exaustos e explorados em jornadas desumanas. “São casos crescentes de crianças com atrasos no desenvolvimento psíquico e emocional causados pela situação precária em que vivem”, explica a matéria. Em São Paulo, onde o setor têxtil é um dos campeões em trabalho escravo contemporâneo, o CAPS da Mooca, na zona leste, recebe há 15 anos filhos de bolivianos com problemas de aprendizado, como dificuldade na fala e pouca interação. Toda semana, chegam de duas a três crianças assim. Um dos motivos possíveis para isso é a pobre estimulação ambiental. Os bebês passam horas no berço sozinhos, ouvindo apenas o som do rádio e das máquinas em funcionamento. Muitas vezes, as mães só podem ficar com eles na hora de amamentar.

O CORONAVÍRUS

Já são pelo menos 81 mortos e duas mil pessoas contaminadas no mundo pelo vírus de Wuhan. Na China, o número de infecções subiu 50% em 24 horas: pulou de 1,3 mil na manhã de sábado para 1.975 ontem. E além da China já são 13 os países com casos confirmados: França, Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Estados Unidos, Canadá, Vietnã, Arábia Saudita, Taiwan, Nepal, Tailândia, Austrália e Malásia.

Na sexta, o governo chinês começou a construir um hospital com mil leitos destinados a receber apenas pacientes com suspeita dessa infecção. Ele deve ficar pronto no dia 3 de fevereiro – ou seja, em apenas dez dias de obras. Depois, foi anunciada a construção de mais uma unidade, com 1,3 mil leitos, em duas semanas. A matéria da Folha lembra que não é a primeira vez que o país levanta um hospital às pressas: também aconteceu em 2003, durante a epidemia de SARS, quando uma construção foi concluída em uma semana.

Ainda no sábado, a China anunciou um endurecimento do isolamento e na vigilância. O país estendeu o  cordão sanitário da quarentena para 56 milhões de pessoas – algo como uma Espanha inteira – e ordenou medidas nacionais para detectar o vírus em trens, ônibus e aviões. Viajantes com sintomas serão “imediatamente transferidos” para um centro médico. O isolamento tem sido criticado porque, no passado, respostas do tipo já levaram a pesadas consequências políticas, financeiras e sociais. Além do mais, há uma estimativa de que cinco milhões de residentes tenham saído de Wuhan antes da quarentena, o que só complica as coisas

Em entrevista coletiva, o ministro da Comissão Nacional de Saúde da China, Ma Xiaowei, disse que a capacidade de transmissão do coronavírus pode estar se fortalecendo e que o número de infecções pode continuar aumentando. Ele explicou que o vírus é infeccioso inclusive no período de incubação, que leva até duas semanas. Nesse tempo, pessoas sem sintomas podem passar o vírus adiante. Tal  informação vem de um estudo publicado no Lancet por pesquisadores da Universidade de Hong Kong.

Uma matéria do Washington Post relata a situação nos hospitais: sobra estresse, mas todo o resto está em falta, resume a chamada. O Centro Chinês para Controle de Doenças disse que 15 funcionários de hospitais em Wuhan haviam contraído o vírus no trabalho. Um médico morreu. Não há número suficiente de profissionais, nem leitos, nem materiais como luvas e equipamentos de proteção, e tanto hospitais como autoridades de saúde têm emitido pedidos urgentes de doações de suprimentos. A repórter Anna Fifield escreve que alguns trabalhadores estão usando fraldas, tanto por não terem tempo de ir ao banheiro como para não precisarem retirar os escassos macacões de proteção, com risco de rasgá-los.

Os Estados Unidos confirmaram o terceiro caso, e o governo está organizando um voo para retirar os funcionários diplomáticos e “um número limitado” (com critérios de prioridade que não foram divulgados) de outros americanos que estejam em Wuhan e que não conseguem sair devido à quarentena. Portugal e França estudam fazer o mesmo.

Quanto ao Brasil, o Ministério da Saúde publicou nas redes sociais um vídeo em que o ministro em exercício, João Gabbardo, fala sobre a doença e formas de preveni-la. Bolsonaro disse que há preocupação, mas “não é uma situação alarmante“. Uma família de brasileiros foi internada nas Filipinas com suspeita de infecção.

BAYER DE OLHO NO SUS

A capa da IstoÉ Dinheiro desta semana traz uma foto do presidente da divisão farmacêutica da Bayer para a América Latina, Adib Jacob, segurando uma pequena pílula entre os dedos. “A nova fórmula da Bayer para o Brasil”, diz a manchete. Dentro da revista, o jornalista Sérgio Vieira explica que essa fórmula consiste em “entrar na fila do SUS“. Por razões óbvias: todos os anos, o governo brasileiro gasta bilhões (foram R$ 14,5 bi em 2018) comprando remédios. Sabemos que para os caríssimos medicamentos de alta complexidade, quase sempre é o SUS quem salva. A Bayer também sabe. Por isso, focar no Sistema é fundamental para que a empresa atinja o objetivo de dobrar em dois anos a sua venda desse tipo de remédio para o mercado institucional (governos e planos de saúde).

“Temos excelente relação comercial com todas as esferas de governo. E eu te digo como brasileiro e presidente que tenho visão muito positiva do Sistema Único de Saúde. E, sim, nós vemos uma grande oportunidade de fornecimento de medicamento de alto custo”, diz Jacob. A chave para isso está em uma aprovação acelerada de novos remédios na Anvisa, o que, segundo a reportagem, tem acontecido (embora a gente costume ver as João Gabempresas reclamando de morosidade da Agência…). A presidente-executiva da Interfarma, Elizabeth de Carvalhaes, também aparece na matéria dizendo acreditar no crescimento da indústria farmacêutica a partir das novas terapias. Não poupa elogios a medidas recentes do governo – e mira nas próximas: “Entendo que a aprovação da reforma da Previdência também foi outra mensagem positiva e forte para o mercado mundial. Ainda assim, temos que avançar na legislação tributária para diminuir os custos e ampliar o acesso de medicamentos aos doentes”.

NADA DE UNIVERSAL

O presidente da Funasa, Ronaldo Nogueira, falou ao site poder360 que “o direito a um serviço nunca pode ser universal“. Na fala abrangente, ele estava se referindo em especial ao saneamento básico.
Nogueira, que foi ministro do Trabalho no governo Temer, defendeu a entrada do capital privado no saneamento porque “o serviço estatal de saneamento não trouxe a resposta que a população precisava”. Ele defende que os mais ricos paguem pelo acesso dos mais pobres, e que as empresas públicas ou privadas recebam pelos serviços prestados. “Todo serviço tem que ser remunerado. E o rico tem que pagar (a conta”).

A QUE PONTO…

Na sexta foi nomeado o novo presidente da Capes. E trata-se do reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Benedito Guimarães Aguiar Neto, que defende o estudo do chamado “design inteligente”, uma “roupagem contemporânea do criacionismo“, segundo a Folha. O Mackenzie tem desde 2017 um núcleo de estudos sobre isso. E no ano passado, em um congresso sobre o tema na universidade, Aguiar Neto afirmou querer disseminar esse entendimento na educação básica: “Queremos colocar um contraponto à teoria da evolução”.

É… A matéria do Globo lembra que no ano passado, durante a crise que levou a cortes na Capes e no CNPq, Bolsonaro citou a Mackenzie como exemplo de universidade que faz pesquisa no Brasil, em detrimento das públicas.

BOLÍVIA X CUBA

Na sexta, o governo interino da Bolívia rompeu relações diplomáticas com Cuba após um tremendo bate-boca. A matéria da Reuters diz que a tensão entre os dois países já tinha começado em novembro, quando o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Parrilla, anunciou o fim da missão médica cubana na Bolívia. Naquele mês, o governo interino expulsou os profissionais cubanos e chegou a deter cinco deles. Na semana passada, a presidente interina retomou esse debate com aquele discurso que conhecemos: disse que “um terço” dos médicos cubanos que estavam no país não tinham experiência na área e que o governo retinha 80% dos seus salários. Disse ainda que que as brigadas de médicos cubanos na Bolívia receberam US$ 147 milhões do governo de Morales, e que esse dinheiro seria suficiente para fazer 7.355 transplantes renais em todo o país. Daí, Parrilla chamou a Jeanine Áñez de mentirosa e “golpista autoproclamada” no Twitter, e o rompimento foi enfim anunciado.

REJEITOU

Jair Bolsonaro desautorizou Paulo Guedes em relação à sua intenção de aumentar impostos de açúcar, bebidas e cigarros. “Não tem como aumentar mais a carga tributária no Brasil. E todo mundo consome algo de açúcar todo dia”, declarou a jornalistas em Nova Déli. Ele ainda confundiu Guedes com o ministro da Justiça: “Moro, aumentar imposto da cerveja, não”. Aliás… para quem não lembra, Sergio Moro, que não tinha nada com essa história agora, andou querendo diminuir os impostos dos cigarros no ano passado.

DIRETO DO GELO

Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, da Universidade de Nebraska e do Laboratório Nacional de Lawrence Berkeley, dos EUA, coletaram amostras de gelo na fronteira do Tibet com a China desde 1992. Agora, finalmente, elas foram analisadas. As amostras têm entre 520 e 15 mil anos, e foram encontrados 33 gêneros de vírus incrustrados nela – sendo que 28 não eram conhecidos pela ciência até então. O estudo mostra como o derretimento de geleiras tem potencial para liberar novos microrganismos: “Geleiras ao redor do mundo estão diminuindo rapidamente, primeiramente por causa aquecimento do sistema atmosférico-oceânico da Terra acentuado pelos humanos, e isso irá libertar micróbios e vírus glaciais que estiveram presos e preservados por dezenas e centenas de milhares de anos”, escrevem os cientistas em artigo publicado no Biorxiv.

COM AS CHUVAS

Já são milhares os desabrigados ou desalojados por conta de enchentes em cidades do norte e nordeste do Rio de Janeiro. Só em Bom Jesus de Itabapoana já são mais de 1,3 mil; lá, houve mais de 50 deslizamentos de terra. Não há registros de mortes mas, em Itaperuna, há um desaparecido. O governador Wilson Witzel que o estado vai mandar R$ 23 milhões para as cidades.

MORTE NA OMS

O chefe da Cobertura Universal de Saúde da OMS, Peter Salama, morreu na quinta-feira, aos 51 anos, após um infarto.

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