Coronavírus no Brasil: temores e realidade

Ministério da Saúde investiga casos suspeitos em MG, RS e PR. Especialistas alertam: é preocupante e propagação pode ser maior que a da gripe. Leia também: Bolsonaro usou menos de um terço dos recursos para prevenir desastres naturais

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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AS SUSPEITAS NO BRASIL

O Ministério da Saúde confirmou ontem que investiga os três primeiros casos de coronavírus no Brasil. Ainda de manhã, a Pasta divulgou que uma jovem de 22 anos de Minas Gerais estava com os sintomas (parecidos com os de uma gripe comum: febre e, pelo menos, algum outro sintoma respiratório) e havia estado em Wuhan. Ela chegou ao país na sexta (24), procurou atendimento já na segunda e está em isolamento no hospital Eduardo de Menezes, em BH.

Pouco depois, o Ministério informou sobre um caso em Porto Alegre e outro em Curitiba em que os pacientes também tinham sintomas e se enquadravam nos critérios epidemiológicos: estiveram em algum lugar onde o vírus é transmitido de pessoa para pessoa ou tiveram contato com outros pacientes suspeitos ou confirmados nos 14 dias anteriores. Estes dois últimos casos se tornaram oficialmente suspeitos porque a China inteira (e não mais apenas a província de Hubei, onde fica Wuhan) passou a ser considerada uma região de transmissão de pessoa para pessoa. O governo afirma que deve ter o resultado sobre o caso de Minas até sexta, mas não deu prazo para os demais.

A classificação de risco no Brasil, que estava em alerta (nível 1) passou a ser de perigo iminente (nível 2). Como explica a BBC, a escala vai até o nível 3, que significa emergência em saúde pública, se forem confirmados casos de transmissão dentro do país.

Cerca de 50 brasileiros que vivem em Wuhan estão em contato com a embaixada para tentar voltar ao país, mas a China ainda não autorizou a saída de ninguém, ao menos até que acabem os 14 dias da quarentena doméstica – estamos no sétimo. Em entrevista à Rede Globo, o embaixador em Pequim Paulo de Mesquita disse que as autoridades agirão “assim que possível”.  Mas Jair Bolsonaro não está muito confiante na decisão. “Pelo que parece, tem uma família na região onde o vírus está atuando. Não seria oportuno retirar de lá, com todo o respeito. É o contrário. Não vamos colocar em risco nós aqui por uma família apenas”, disse. A família a que ele se refere não está em Wuhan: é a que está isolada nas Filipinas, como já comentamos por aqui. Também já dissemos que países como Índia, Japão, França e EUA estão se movendo para retirar cidadãos de Wuhan.

NO MUNDO

De ontem para hoje, o número de mortes pela doença subiu de 106 para 132 (todas na China). E o total de casos foi de 4.690 para 5.974 – a província de Hubei responde por 840 desses novos casos. A essa altura, 16 países já confirmaram casos. 

E, pela primeira vez, a transmissão ultrapassou a barreira do território chinês. Isso porque a Alemanha reportou um caso de um cidadão diagnosticado com o vírus que não viajou ao país asiático. Ele teve contato com um familiar que viajou a Wuhan. Também Japão e Vietnã notificaram casos em pessoas que não estiveram na China. “Os três registros indicam que o novo coronavírus tem capacidade para provocar uma transmissão sustentada também fora do território chinês, o que aumenta o risco de um surto global”, escreve Fabiana Cambricoli no Estadão.

CALMA LÁ

Os casos estão aumentando muito rapidamente. Para saber se vai virar uma pandemia, é preciso levar em conta duas coisas, como explica a matéria da Vox: com que velocidade o vírus é transmitido de pessoa a pessoa e qual a sua taxa de mortalidade. A primeira diz respeito ao alcance que o vírus tem a partir de uma pessoa infectada e, até agora, a estimativa da OMS é que cada infectado pode transmiti-lo para em média de 1,4 a 2,5 outras pessoas. Isso significa que ele é menos contagioso do que a SARS (nesse caso, a taxa era 3), mas mais do que a gripe comum (1,3). Mas há outras estimativas além dessas feitas pela OMS e mais pessimistas do que ela, chegando a taxas entre 1,4 a 5,7. Já a mortalidade do coronavírus não é tão simples como dividir o número de mortos pelo de casos conhecidos (se fosse, a conta ficaria em 2%, sendo que a da gripe sazonal é menos de 0,1%). Para obter a taxa pra valer, ainda vai demorar um tempo: é preciso estimar quantas pessoas em uma população têm o vírus (mesmo que sem sintomas, ou mesmo que com sintomas tão leves a ponto de não irem ao médico) e quantas morrem.

De todo modo, ainda que preocupante, o coronavírus ainda não tem sido mais perigoso do que a gripe comum: ela mata entre 250 mil e 650 mil pessoas anualmente. Para a maioria “é mais provável ficar gripado do que pegar coronavírus”, resume Devi Sridhar, presidente de saúde pública global da Universidade de Edimburgo, na reportagem.

No site The Conversation,um interessante artigo sobre como o impacto econômico de um surto é muito mais influenciado pelo medo da doença do que propriamente pela sua morbidade ou mortalidade. É pelo medo – e isso também depende, é claro, das direções tomadas pelos governos em relação aos surtos – que milhões de pessoas mudam seus hábitos individualmente. “Estudos comportamentais sugerem que os indivíduos geralmente superestimam os riscos memoráveis, vívidos ou geram medo, enquanto subestimam os riscos mais comuns. Assim, os ataques de tubarão são mais temidos do que acidentes de trânsito”, escreve Ilan Noy, professor de Economia dos Desastres na Universidade de Wellington. 

Ele compara com a epidemia de SARS, que atingiu 8,5 mil pessoas e matou menos de mil, em 26 países: “Em uma pesquisa com 705 pessoas em Hong Kong no auge da epidemia de SARS, 23% dos entrevistados temiam que eles provavelmente fossem infectados com SARS. A taxa real de infecção foi de apenas 0,0026%. Nos EUA, onde 29 pessoas foram infectadas e ninguém morreu, 16% dos entrevistados consideraram que eles ou suas famílias provavelmente seriam infectados com SARS”.

Fato é que, com o coronavírus, há empresas parando suas atividades, lojas fechadas, viagens canceladas. E jovens chineses estão chamando a polícia quando parentes mais velhos insistem em sair de casa…

MENOR EM 11 ANOS

O governo Bolsonaro usou menos de um terço dos recursos previstos no Orçamento para prevenção de desastres naturais durante o primeiro ano de sua gestão. O resultado é que o gasto com obras estruturantes e projetos de contenção de inundações atingiu o menor patamar em 11 anos, segundo levantamento da Folha feito com dados de execução orçamentária. Em 2019, essa verba foi de R$ 306,2 milhões, mas só foram gastos R$ 99 milhões. Ainda por cima, o valor total dessa rubrica foi bem menor do que em anos anteriores: em 2012, por exemplo, o montante chegou a R$ 4,2 bilhões em valores corrigidos pela inflação. Essas verbas são destinadas a contenção de cheias e inundações, prevenção e erradicação de riscos em assentamentos precários e obras preventivas de desastres, além de ações de manejo de água de chuva.

MAIS LOTES

A presença dos contaminantes etilenoglicol ou dietilenoglicol foi identificada em outros dez lotes de cerveja da Backer pelo Ministério da Agricultura. Ontem, a Pasta divulgou que, no total, as análises já constataram 41 lotes contaminados de dez rótulos da cervejaria: Belorizontina, Backer Pilsen, Backer Trigo, Brown, Backer D2, Capixaba, Capitão Senra, Corleone, Fargo 46 e Pele Vermelha. O Ministério continua a examinar amostras de cervejas coletadas na própria fábrica e no comércio. As análises são realizadas pelos Laboratórios Federais de Defesa Agropecuária. Até o momento, a Polícia Civil de Minas Gerais investiga 29 casos de pessoas que apresentaram os sintomas da síndrome nefroneural. 

NÃO FUNCIONA

Um documento inédito elaborado pelo Departamento Científico da Adolescência da Sociedade Brasileira de Pediatria concluiu que programas direcionados à abstinência sexual não são eficazes para retardar o início das relações sexuais entre adolescentes ou alterar comportamentos de risco. A entidade planeja enviar o texto com revisão de estudos sobre o tema ao Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e ao da Saúde. O documento, obtido pela Folha, diz ainda que políticas voltadas a essa faixa etária devem “reconhecer o direito que adolescentes e jovens possuem quanto à importância de conhecer seu próprio corpo e receber informações e cuidados adequados à saúde reprodutiva” e reitera parecer da Sociedade Americana de Medicina do Adolescente, que aponta “falhas científicas e éticas da abordagem focada exclusivamente em abstinência”.

OS GARGALOS DA SAÚDE MENTAL

Cerca de 300 cidades brasileiras não têm psicólogos, 3,5 mil não têm CAPS e quase três mil não têm psiquiatras. As informações são de dezembro do ano passado, levantadas pelo Nexo a partir do DataSUS. Os mapas e gráficos disponíveis, nesse caso, valem mais do que muitas palavras. Um deles mostra o Brasil segundo a concentração de psicólogos em cada município, com uma evidente concentração no Sul e no Sudeste e pontos vazios no Nordeste e, principalmente, no Norte. Em relação aos serviços psiquiátricos, a discrepância é ainda maior.

INSALUBRE 

Em 2020, o papel da vigilância em saúde está em constante destaque, graças às crises da água, no Rio, e da cerveja, em BH. Eis que em São Paulo, esses profissionais estão denunciando condições insalubres de trabalho. Isso porque, após o fim de um contrato com a empresa que fornecia água potável, a Coordenadoria de Vigilância em Saúde da capital disponibiliza para os trabalhadores que se dividem em seus 11 andares apenas três filtros de água caseiros.  E, de acordo com a reportagem do El País Brasil, até o responsável pelo controle da qualidade de filtros dos estabelecimentos da cidade se recusa a beber dessa água. Segundo denúncia dos funcionários, todos os filtros de água do prédio foram retirados em 6 de janeiro, quando venceu o contrato da empresa responsável pelo serviço, e a atual gestão da instituição municipal não substituiu os aparelhos —afirma que um pregão para a contratação foi aberto, mas ainda não há o resultado.


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