Na calada da noite, um golpe na Saúde da Família

Desde 2008, o NASF reunia equipes multissetoriais para promover atenção básica. Foi extinto pelo Ministério da Saúde — sem proposta que o substitua. Leia também: pela primeira vez em sete anos, acidentes em estradas federais aumentam

Fisioterapeutas, nutricionistas e psicólogos fazem parte da gama de profissionais dos NASF

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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O FIM DO NASF

Começou a circular ontem nas redes sociais uma nota técnica do governo Bolsonaro que, basicamente, decreta o fim do NASF, o Núcleo Ampliado de Saúde da Família e Atenção Básica. Como explica o site do próprio Ministério da Saúde, os NASF foram criados em 2008 para fortalecer a atenção básica. Para isso, oferecem um grande leque de profissionais, como assistentes sociais, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos, e por aí vai, que têm a missão de atuar em conjunto com médicos e enfermeiros, auxiliando quem está na ponta a resolver melhor os problemas de saúde da população.

Eis que na segunda-feira (27), Otavio Pereira D´Avila, que está à frente do Departamento de Saúde da Família da Secretaria de Atenção Primária da Pasta, assinou um documento que libera os gestores a adotarem qualquer modelo. A medida acontece depois de o governo extinguir, ainda em 2019, a base de incentivo federal para a adoção dos NASF com o novo modelo de financiamento da atenção primária conhecido como programa Previne Brasil. 

“O que vemos agora, a partir da nota técnica, é o governo federal deixando clara essa opção. O documento dá fim ao cadastro de novas equipes NASF e desobriga o gestor municipal e estadual de registrar esses profissionais no CNES. Sem isso não se comprova vinculação, nem carga-horária trabalhada. Se a gente não precisa mais registrar esse profissional, ele vai trabalhar por caridade? Municípios com dificuldades orçamentárias vão acabar extinguindo essas equipes. Vamos assistir à demissão desses profissionais. Em suma, o que estamos vendo é a extinção do modelo sem uma proposta que o substitua – e isso é muito ruim”, resumiu o médico de família e comunidade, Stephan Sperling, que faz uma análise das principais consequências da mudança em entrevista ao Outra Saúde. Confira.

BOAS E MÁS NOTÍCIAS

Foi lançado o relatório G-FINDER de 2019, da Policy Cures Research, e ele informa que pela primeira vez o financiamento global para doenças negligenciadas cresceu por três anos consecutivos, chegando  a mais de US$ 4 bilhões em 2018. O setor privado parece estar olhando mais para elas, pois fez seu maior investimento de todos os tempos em pesquisa e desenvolvimento na área – o crescimento desses recursos em relação ao ano anterior foi de 20%; ainda assim, sua fatia só chega a 17% do financiamento total. O setor público também bateu recordes de financiamento, chegando a US$ 2,59 bi, e esse dinheiro veio principalmente de países de alta renda: os Estados Unidos forneceram 71% do financiamento total. Em seguida, vieram Reino Unido (9,2%) e a Comissão Europeia (5,4%).

Por outro lado, os recursos vindos de países de baixa renda caíram 7,6%. Entre eles, a Índia foi quem mais investiu, com US$ 66  milhões. No Brasil, o volume foi de R$ 12 milhões. Já o setor filantrópico aumentou seu financiamento em 6%, chegando a US$ 760 milhões.

Mas, entre as negligenciadas, algumas são mais que outras. A maioria esmagadora desses recursos (69%) foi apenas para HIV/Aids, malária e tuberculose. Enquanto isso, as doenças tropicais negligenciadas (DTN) estão recebendo menos dinheiro: seu financiamento caiu 9,1% na última década. E seis doenças que historicamente receberam o menor valor de financiamento – incluindo quatro DTN (hanseníase, úlcera de Buruli, tracoma e leptospirose) –  receberam a menor fatia de todos os investimentos globais . As consequências disso são graves, como exemplifica Madhukar Pai, em artigo no site da Forbes: quase 140 mil pessoas morrem todo ano por picadas de cobra, mas há uma escassez crônica de soros; a esquistossomose carece de testes mais rápidos para diagnóstico; o verme da Guiné, propagado  por meio de água contaminada, não tem tratamento nem vacina.

CORONAVÍRUS

A bola de neve continua crescendo: de acordo com os últimos dados oficiais, o coronavírus já infectou 7.711 pessoas na China e matou 170. Ontem, as autoridades chinesas informaram que está sob investigação, em Wuhan, o primeiro caso de um paciente “supercontagiante”, que transmitiu o coronavírus a pelo menos 16 profissionais que o atenderam. Os supercontagiantes são pessoas cuja capacidade de transmitir o vírus é muitas vezes superior à da média. Não se sabe por que isso acontece. Segundo especialistas ouvidos pelo El País, eles tiveram um papel importante nas epidemias da SARS (2002/2003) e MERS (2014/2015) também causadas por coronavírus. 

No mundo, já são 16 países com casos confirmados além da China: Emirados Árabes (4), Finlândia (1), Alemanha (4), França (5), Canadá (1), EUA (5), Austrália (7), Sri Lanka (1), Camboja (1), Nepal (1), Vietnã (2), Singapura (10), Malásia (7), Coreia do Sul (4) e Tailândia (14). 

Hoje, a Organização Mundial da Saúde volta a reunir seu comitê de crise para resolver se declara o novo coronavírus como uma emergência em saúde pública de interesse internacional. Agora, os especialistas terão de verificar se as transmissão de pessoa para pessoa detectada fora da China (na Alemanha, Japão e Vietnã) já é um elemento suficiente para provar o potencial de propagação global da doença.

Por aqui, o número de casos suspeitos subiu de três para nove, segundo o Ministério da Saúde. São três em São Paulo e dois em Santa Catarina; Minas, Paraná, Rio de Janeiro e Ceará têm um cada. Todos eles aguardam resultado de exames que devem ficar prontos amanhã. Outros quatro casos foram descartados: três no Rio Grande do Sul e um no Paraná. Também durante coletiva de imprensa dada ontem, a Pasta informou que o governo vai recriar um grupo interministerial para tratar de emergências de saúde pública. A estrutura havia sido extinta pelo revogaço de Bolsonaro que atingiu, no ano passado, diversos conselhos e grupos de trabalho. Além disso, o governo brasileiro decidiu não impor barreiras à entrada de pessoas e mercadorias vindas da China.

PRESSÃO SOBRE O SISTEMA DE SAÚDE

As fragilidades dos sistemas de saúde ficam bem mais visíveis durante situações de crise, como o novo coronavírus. Reportagem do New York Times relata a pressão sobre os serviços chineses. “Enquanto luta para combater o surto de coronavírus, o governo chinês conta com um sistema médico abarrotado e sobrecarregado, mesmo em tempos normais. Embora outras partes da vida cotidiana na China tenham melhorado significativamente na década passada, a qualidade dos cuidados com a saúde estagnou. Nas grandes cidades como Pequim e Xangai, muitas pessoas precisam ficar na fila desde as primeiras horas da manhã para marcar consultas com médicos. Quando conseguem uma consulta, os pacientes recebem apenas alguns minutos com um médico. Durante a temporada de gripe, os moradores montam acampamento durante a noite com cobertores nos corredores de hospitais. A China não possui em funcionamento um sistema de atendimento primário, por isso a maioria das pessoas se encaminha para hospitais. Em um dia comum, os médicos estão frustrados e exaustos pois atendem cerca de 200 pacientes”, escreveu a repórter Sui-Lee Wee.

A importância de uma rede assistencial robusta e organizada, com profissionais de saúde informados e conscientes de seu papel foi destaque na entrevista dada por Rivaldo Venâncio, coordenador de Vigilância em Saúde e Laboratórios de Referência da Fiocruz, dada à Abrasco. “Os trabalhadores da saúde são peças fundamentais no sentido de debater com os gestores para contribuir para a estruturação de planos de enfrentamento para a realidade que se avizinha. Se não precisar pôr em prática, melhor para todo mundo, mas temos de estar preparados para o cenário que vier. A fragilidade na rede assistencial, tanto primária quanto especializada, traz um agravante adicional que devemos evitar”, disse.

TECNOLOGIA

Pela primeira vez, a inteligência artificial está sendo usada para monitorar e responder a uma crise do tipo. A matéria do Stat diz que em surtos anteriores ela até foi usada, mas com papel limitado, porque havia poucos dados necessários para fornecer atualizações rapidamente. Mas, agora, há milhões de postagens nas redes sociais e em sites de notícias no mundo todo, e os algoritmos conseguem gerar informações quase em tempo real, passando-as às autoridades de saúde pública.

A reportagem conversou com John Brownstein, epidemiologista e membro do site healthmap.org, que usa a IA para analisar dados de relatórios governamentais, mídias sociais, sites de notícias e outras fontes. De acordo com ele, o objetivo não é substituir, mas sim complementar o trabalho de profissionais da saúde pública. “Usamos machine learning para coletar todas as informações, classificá-las, identificá-las e filtrá-las – e então essas informações são enviadas aos nossos colegas da OMS que estão olhando essas informações o dia todo e fazendo avaliações”, explica. Quando novos tratamentos forem sendo testados, ferramentas de IA podem também acelerar essa pesquisa.

E cientistas australianos anunciaram ontem que conseguiram criar com sucesso em laboratório uma versão do novo coronavírus. O feito pode ajudar a acelerar a criação de uma vacina.

PIORA DEPOIS DE SETE ANOS

Acidentes em estradas federais cresceram no ano passado, chegando a 18,6 mil feridos graves —5% a mais que no ano anterior. O número de mortes também aumentou ligeiramente: foram 5.332 vítimas em 2019, 61 a mais do que o ano anterior. Não parece muito, mas é a primeira vez em sete anos que o número piora. O problema coincide com o primeiro ano do governo Bolsonaro. Embora não seja possível afirmar que o aumento tenha ocorrido devido à orientação do presidente de diminuir a fiscalização por radares nas estradas e mudar o Código de Trânsito Brasileiro, especialistas ouvidos pela Folha afirmam que a sinalização do governo pode, sim, ter colaborado para um alteração no comportamento dos motoristas. Os dados foram divulgados pela Polícia Rodoviária Federal.

CHUVAS

Subiu para 55 o número de mortes causadas pelas chuvas em Minas Gerais. Segundo a Defesa Civil, quase 45 mil pessoas estão desabrigadas e desalojadas no estado e 65 ficaram feridas. Ao todo, 101 municípios mineiros estão em situação de emergência. Três decretaram estado de calamidade pública. O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), classificou os danos causados pelas chuvas como o maior desastre da história da capital mineira desde a sua fundação em 1897. Ele afirmou que irá pedir entre R$ 300 milhões e R$ 400 milhões ao governo federal para as obras de recuperação da estrutura da cidade.  

As chuvas também castigam o Espírito Santo. No estado, que está em alerta máximo, já são nove mortos e dez feridos. Segundo a Defesa Civil, 11.535 pessoas estão desalojadas e 1.626 desabrigadas. 

FOME NA ARGENTINA

Só este mês, seis crianças morreram de fome em Salta, província do Norte da Argentina. A matéria do El País diz que essa lamentavelmente não é uma notícia nova – todo verão as secas se revezam com enchentes trazendo problemas às comunidades indígenas no que se refere ao acesso à alimentação, e este ano, como em muitos outros, a província declarou emergência socioambiental. Entre os problemas estruturais, está a falta dos chamados “agentes sanitários” nas comunidades mais isoladas. São semelhantes aos nossos agentes comunitários de saúde: visitam as casas recolhendo informações sobre peso, altura, vacinação e histórico de doenças familiares. Então, quando os casos chegam ao hospital – que fica a 300 quilômetros –, já é tarde.

O ministro do Desenvolvimento Nacional, Daniel Arroyo, disse que vai priorizar a distribuição de água e alimentos embalados. Mas as soluções de longo prazo devem continuar no… longo prazo. O acesso à água tem sido um problema histórico; as famílias indígenas são pobres e têm os piores indicadores educacionais, de saúde e sociais do país.

NOVO TRANSPLANTE

Esta semana, um grupo de cientistas da Universidade de Osaka, no Japão, anunciou o primeiro transplante de células musculares cardíacas realizado a partir de células-tronco pluripotente induzidas, ou iPS. Se funcionar bem, o método pode vir a substituir transplantes de coração: em vez de substituir o órgão, essas células são depositadas diretamente nas áreas danificadas, transformando-se em células cardíacas. Segundo os médicos, o paciente em questão teve uma melhora visível e passou para a enfermaria geral do hospital. Nos próximos três anos, pelo menos outras dez pessoas devem fazer o transplante experimental.

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