Cruzada antivacinação terá de lidar com a ciência

Maior estudo sobre o assunto rastreou 650 mil crianças e concluiu que vacina e autismo não têm nada a ver. Leia também: aberta a trilha para a cura da AIDS?; de que morrem os jovens latino-americanos?; Quênia liberará o sexo gay?

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OBSTÁCULO À CRUZADA ANTIVACINAS

O autismo não pode ser ligado a nenhuma vacina: essa é, novamente, a conclusão da ciência. Mas, desta vez, vem como resultado do maior estudo já feito sobre o assunto. Conduzida na Dinamarca, a pesquisa rastreou mais de 657,4 mil crianças nascidas entre janeiro de 1999 e dezembro de 2010. Desse total, 6.517 desenvolveram autismo (e, nesse grupo, algumas tomaram a vacina tríplice viral, “acusada” nos boatos de causar a doença; outras não). A comparação entre crianças vacinadas e não vacinadas produziu uma razão de risco de autismo de 0,93% – estatisticamente não existente.

Antes dessa pesquisa, outras duas já haviam refutado o mesmo link. Mas o estudo dinamarquês está sendo comemorado num contexto em que as taxas de vacinação estão caindo em todo o mundo, em grande parte devido ao sucesso do movimento antivacinas que ainda se baseia em um artigo, há muito tempo refutado, que foi publicado no Lancet em 1998 e liga a vacina à doença. Em 2011, o Lancet retirou o texto do site depois de uma investigação que concluiu que o autor, Andrew Wakefield, adulterou informações sobre as (apenas) 12 crianças, usadas como base do estudo. Wakefield perdeu a licença médica em 2010.

DIFAMAÇÃO

A morte do neto do ex-presidente Lula, Arthur, de apenas sete anos, em consequência de meningite meningocócica despertou nova onda de boatos relacionados a vacinas. Desta vez, contudo, grupos tiraram do arquivo uma notícia de 2010 para implicar indiretamente o ex-presidente na morte da criança. A notícia “Lula veta inclusão de cinco vacinas no calendário nacional”, do site G1, voltou a circular dando a entender que o ex-presidente retirou imunizante contra a meningite do SUS ao vetar dispositivos de lei aprovada no Congresso. Na verdade, foi o contrário: no governo Lula a vacina contra a meningite C foi incorporada ao sistema. O veto das cinco vacinas mencionado pela reportagem aconteceu, segundo o médico Cláudio Maierovitch, porque os imunizantes listados na lei já estavam no calendário vacinal. A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) também emitiu nota de esclarecimento sobre a questão.

MAIS UMA

Um tipo especial de vacina pneumocócica (que previne doenças como pneumonia e meningite) passará a ser ofertado no SUS. Terão direito a tomar a vacina conjugada 13-valente pessoas acima de cinco anos que vivem com HIV/Aids, têm câncer ou fizeram transplante. Esse público é considerado pelo ministério da Saúde de risco gravíssimo para as doenças. Hoje, no Calendário Nacional de Vacinação está disponível a 10-valente para menores de cinco anos. A incorporação do imunizante acontece em 180 dias. Cada dose custará ao governo cerca de R$ 58.

A CURA

Um transplante de medula pode ter livrado um paciente em Londres da infecção pelo vírus HIV. A notícia foi destaque em todo mundo porque é a segunda vez na história em que se registra uma “cura” – a primeira, há 12 anos, também aconteceu como resultado de um transplante do tipo. Contudo, os cientistas não acreditam que essa cirurgia seja uma opção realista de tratamento para a doença, já que existem riscos e efeitos colaterais envolvidos, e por outro lado, hoje existem drogas capazes de controlar a infecção. O paciente, que preferiu se manter anônimo, fez o transplante por causa de um câncer (linfoma de Hodgkin) e recebeu células de um doador com uma mutação na proteína conhecida como CCR5 que fica na superfície de algumas células do sistema imunológico e impede que o HIV entre. A proteína mutante também foi a explicação para a cura de 12 anos atrás, beneficiando Timothy Ray Brown, que hoje tem 52 anos. Uma possibilidade da descoberta é levar ao desenvolvimento de terapias genéticas para eliminar o CCR5 e tornar as células modificadas resistentes ao HIV. Agora, os cientistas estão rastreando outras 37 pessoas que receberam transplante e têm HIV para verificar se algo parecido aconteceu com elas. O “paciente de Londres”, como está sendo chamado, continua sendo testado para que se verifique vestígios do vírus. Até agora, parece estar curado.

MAIORES E MAIS CALÓRICOS

Nas últimas três décadas, os lanches ficaram maiores e mais calóricos nas principais redes de fast food dos Estados Unidos. A conclusão é de uma pesquisa publicada no Journal of the Academy and Dietetics, que analisou os cardápios de dez empresas, dentre elas algumas com presença no Brasil, como o McDonald´s, o Burger King e o KFC.  O estudo olhou para três marcos temporais: 1986, 1991 e 2016, e concluiu que a cada década, foram adicionadas em média 30 calorias nas comidas e 62 nas sobremesas. As poções ficaram maiores: cerca de 13 gramas nas entradas e 24 nos doces. Além disso, o nível de sódio das comidas cresceu 4,6% por década.

MÁ INFLUÊNCIA

outro estudo, desta vez conduzido no Reino Unido, mostrou que influenciadores digitais são… má influência – pelo menos quando se trata da dieta infantil. Eles dividiram 176 crianças com idades entre nove e 11 anos em dois grupos. O primeiro viu vídeos com pessoas promovendo hábitos saudáveis, como comer frutas, e num outro grupo, foram expostas ao consumo de fast food. Após assistirem os conteúdos, as crianças tinham que decidir, em dez minutos, que comida escolher – cenoura e uvas ou balinhas e chocolates. Os influenciadores ‘do bem’ não fizeram tanta diferença no grupo que os assistiu. Por outro lado, no grupo que viu pessoas comendo porcarias o consumo de balas e chocolates foi 32% maior, o que se traduziu em um aumento de 90 calorias na dieta diária – o suficiente para uma criança começar a engordar.

CONTRA SINDICATOS

O Carnaval do presidente Jair Bolsonaro não foi feito só de Twitter. Na noite da sexta, ele editou uma medida provisória que altera as regras de cobrança do imposto sindical. Os sindicatos agora não só estão proibidos de descontar compulsoriamente a contribuição (algo que já havia sido decidido na reforma trabalhista) como precisarão emitir boletos para que os trabalhadores paguem. E mais: para enviar os boletos, cada trabalhador vai precisar assinar, por escrito, uma permissão. Centrais como a UGT já anunciaram que vão entrar com recursos contra a MP que tem tudo para impossibilitar, na prática, a sustentabilidade dos sindicatos.

MINERAÇÃO EM TERRAS INDÍGENAS

E o ministro das Minas e Energia, o militar Bento Albuquerque, anunciou na segunda-feira que o governo quer abrir terras indígenas para a exploração de minérios por empresas privadas. Segundo Albuquerque, os povos não terão autonomia para vetar a instalação de minas em seus territórios. A declaração aconteceu em um evento no Canadá, onde o ministro também afirmou que o rompimento da barragem da Vale em Brumadinho foi culpa do “destino”.

AFASTADOS

O executivo-chefe da Vale, Fabio Schvartsman, e outros três diretores da mineradora foram afastados temporariamente de seus cargos. A decisão foi tomada pelo conselho de administração da empresa, que se reuniu na noite de sábado, e aconteceu depois que o Ministério Público Federal, o MP mineiro e a Polícia Federal exigiram o afastamento dos executivos e de uma dezena de funcionários.

MORTES EVITÁVEIS

A Organização Pan-Americana de Saúde lançou na terça um relatório com indicadores gerais de saúde nas Américas. E mais da metade das 150 mil mortes de jovens são evitáveis: 24% delas acontecem por homicídios, 20% devido a acidentes no trânsito e 7% por suicídio. A mortalidade de pessoas entre 10 e 24 anos diminuiu desde 2000, contudo. O Brasil não está no topo da lista de nenhum desses problemas, de acordo com a análise que comparou 48 países.

FILTRO PRA GLIFOSATO

Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul lançaram financiamento coletivo para captar recursos para desenvolver uma espécie de filtro biológico para o glifosato. O projeto, chamado GlyFloat, pretende usar uma bactéria biologicamente programada para degradar os resíduos do agrotóxico e seus derivados presentes na água. No Brasil, há cinco vezes mais glifosato na água do que na União Europeia.

MAIS UM

Mais uma história de terror envolve um falso profissional da saúde. Raphael Gustin da Cunha se apresentava como homeopata, nutrólogo ou nutricionista na clínica Bem-Viver, em São Paulo. Lá, ele usava gás ozônio em tratamentos variados. Está sendo acusado por uma paciente de introduzir o dedo em sua vagina para colocar uma mangueira e aplicar ozônio num suposto tratamento de fertilidade. Cunha, que não tem registro, está sendo processado por exercício ilegal da medicina, falsidade ideológica e violação sexual mediante fraude.

NA TORCIDA

No Quênia, ativistas dos direitos da população LGBTQI estão na expectativa. Na sexta, a Suprema Corte de lá resolveu adiar a decisão de descriminalizar o sexo gay no país. O código penal queniano pune, desde 1963, atos “contrários às ordens naturais”, e isso é usado para restringir as liberdades individuais de pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo, que podem pegar até cinco anos de pena. A lei começou a ser mais usada a partir dos anos 2000, por influência de líderes religiosos. Entre 2010 e 2014, quase 600 pessoas foram investigadas pelo “crime”. O julgamento foi remarcado para 24 de maio.

AVANÇO

O sistema público de saúde da Inglaterra, o NHS, vai começar a oferecer produtos de higiene pessoal para mulheres, como absorventes, de graça. A novidade, anunciada no domingo, vem um ano depois de a Associação Médica Britânica ter criticado o governo pelo fato de o sistema não ter uma política consistente de oferta desses produtos para pessoas mais pobres.

E PREJUÍZO

A agência que regula a competição de mercados no Reino Unido está acusando duas grandes companhias produtoras de medicamentos genéricos de conluio para manter os preços mais altos. Estima-se que isso tenha custado, no mínimo, dois milhões de euros ao NHS por ano entre 2011 e 2015.

CAMINHOS DA ADAPTAÇÃO

No livro Boas razões para os mais sentimentos, o psiquiatra Randolph Nesse explica o desenvolvimento de transtornos e doenças mentais a partir da teoria da evolução. Segundo ele, alguns desses traços foram vantajosos ou desenvolvidos como forma de adaptação dos seres humanos aos ambientes, como a depressão, por exemplo. Em entrevista à Scientific American ele explica:

“Você não pode decidir o que é normal e o que é anormal até entender a função normal de qualquer característica – seja vômito, tosse, febre ou náusea. Você começa com sua função normal e em quais situação ela dá vantagens selecionadas. Mas há muitos lugares em que a seleção natural moldou mecanismos que expressam essas defesas quando não são necessárias, e muitas vezes essa resposta emocional é dolorosa e desnecessária. Então, há uma categoria de emoções que nos fazem sentir mal, mas beneficiam nossos genes. Muitos anseios sexuais [casos extraconjugais ou amor não correspondido], por exemplo, não nos fazem bem algum, mas podem potencialmente beneficiar nossos genes a longo prazo. Então, não é dizer que essas emoções são úteis o tempo todo. É a capacidade para essas emoções que é útil. E os sistemas de regulação [que controlam a emoção] foram moldados pela seleção natural – por isso, às vezes, eles são úteis para nós, às vezes são úteis para nossos genes, às vezes são falsos alarmes no sistema e às vezes o cérebro está quebrado. Não devemos tentar fazer generalizações globais, devemos examinar cada paciente individualmente e tentar entender o que está acontecendo.”

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