Exemplo para Bolsonaro, Suécia reconhece erros

Estrategista do modelo sueco na pandemia, Anders Tegnell admitiu que faria diferente “se encontrássemos a mesma doença, sabendo o que sabemos hoje”

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Aconteceu ontem, bem cedinho. Anders Tegnell, o epidemiologista-chefe da Agência de Saúde Pública da Suécia, admitiu, pela primeira vez, que a resposta do país ao coronavírus “tem potencial para melhorar”. A Suécia, como sabemos, não fechou quase nada e contou com a “colaboração” dos cidadãos para botar em marcha sua própria versão de isolamento social. Assim, as escolas infantis permaneceram abertas, viagens domésticas continuaram normais, restaurantes, bares e até cinemas seguiram funcionando (embora em uma configuração mais espaçada)… Encontros de até 50 pessoas eram permitidos. 

Não foram poucos os especialistas de todo o mundo que olharam essas diretrizes e concluíram que se tratava de uma estratégia que visava atingir a imunidade de rebanho. Ou seja, que os suecos adquirissem anticorpos através do contato direto com um vírus ainda largamente desconhecido. Oficialmente, o objetivo principal das diretrizes suecas era evitar o colapso do sistema de saúde. Quando questionado, Tegnell – um homem de 64 anos que adquiriu status de celebridade entre a população pela maneira tranquila de se expressar – dizia coisas como: “Estamos em uma maratona, não em uma corrida rápida”. 

Em entrevista à rádio pública, o mentor da resposta sueca afirmou: “Se encontrássemos a mesma doença, sabendo o que sabemos hoje, acho que acabaríamos fazendo algo no meio entre o que a Suécia fez e o que o resto do mundo fez. Há potencial para melhorar o que fizemos na Suécia, é claro. E seria bom saber exatamente o que deveria ser fechado para impedir melhor a propagação”. Horas mais tarde, dada a repercussão internacional das declarações, Tegnell voltou atrás e disse na coletiva de imprensa diária da Agência que seus comentários foram exagerados e que a Suécia tem, no geral, uma boa estratégia. 

A Suécia enfrentou seus piores dias em abril, quando o número de mortes por milhão de habitantes patinou em 11 (aqui há um gráfico que mostra isso). O país, que tem dez milhões de habitantes, teve na semana que vai de 26 de maio a 2 de junho a maior taxa de mortalidade per capita do mundo, com 5,29 por milhão. Não foram poucas vezes que Tegnell afirmou que acreditava que boa parte da população sueca já estava imune – em uma entrevista ao Estadãochegou a falar em 25%. O balde de água fria veio quando uma pesquisa do próprio país mostrou que na capital, Estocolmo, apenas 7% tinham tido contato com o vírus. Até leigos conseguem concluir que o percentual está bastante aquém do que poderia ser necessário para a população adquirir uma imunidade que atrapalhasse a problemática circulação do coronavírus.   

Agora, a estratégia dirigida por Anders Tegnell na Agência de Saúde Pública está sendo questionada por quem antes a apoiou. Pressionado pelo Parlamento, o primeiro-ministro Stefan Löfven anunciou na última segunda-feira a abertura de uma investigação sobre a gestão da emergência sanitária. “Precisamos adotar uma abordagem geral para ver como funcionou a gestão em nível nacional, regional e local”, disse ele ao jornal sueco Aftonbladet. “Temos que admitir que a parte encarregada do atendimento aos idosos, em termos de disseminação da infecção, não funcionou. É óbvio. Há muitos idosos que faleceram”, reconheceu. Cerca de metade das quase 4,5 mil mortes pela covid-19 no país aconteceram em casas de repouso – que não foram isoladas. O público foi apenas aconselhado a não visitar parentes lá internados.

Essa história é especialmente interessante para o Brasil, já que o presidente Jair Bolsonaro usou a Suécia seguidamente como exemplo a ser seguido por aqui. 

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