A história de uma brasileira sem saída

Tâmara Pereira vive na Cidade Tiradentes, bairro com a expectativa de vida mais baixa de SP. Reportagem conta sua peregrinação pelo SUS e o desemprego iminente. Leia também: lei no Brasil aumenta lucro das farmacêuticas

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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SEM SAÍDA

Depois de acompanhar a rotina de Tâmara Pereira por 25 dias, João de Mari escreve no Intercept os problemas dessa mulher para cuidar da saúde do pai e dos três filhos, que cria sozinha desde que o caçula (três anos) nasceu. A família mora em Cidade Tiradentes, bairro paulistano. É onde se morre mais cedo na capital de SP, aos 58 anos em média.

Na UBS de referência de Tâmara só há dois médicos responsáveis por atender 9,5 mil pessoas cadastradas. A espera para obter uma consulta dura em média 72 dias, contra 45 no resto da cidade. Se for preciso um especialista, é ainda mais longa.  No bairro, 80% dos residentes dependem do SUS. Mesmo os serviços privados baratos não são uma opção: o pai de Tâmara já cogitou usar o Dr. Consulta, mas um único atendimento lhe custaria 10% do salário de marceneiro. 

À dificuldade para se conseguir uma consulta seguem-se outras, como a compra de remédios que precisam de receitas atualizadas a cada mês. Os dias passam com imensa agonia – as necessidades se acumulam, nada é resolvido e Tâmara ainda está sempre cercada pelo risco iminente de ser demitida da loja onde trabalha porque vive precisando faltar, chegar atrasada ou sair mais cedo para caçar atendimento. No último dia do relato, é justamente isso que acontece.

PREJUÍZO

Quando a Lei de Propriedade Intelectual foi aprovada, em 1996, o lobby do setor farmacêutico foi forte. E conseguiu um artigo que amplia o lucro dessa indústria e prejudica o SUS. É que ele autoriza tempo extra às patentes caso o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) demore mais de dez anos para analisar um pedido. O INPI leva em média 13 anos para concluir uma análise do setor, o que amplia para 23 anos, em média, o monopólio sobre um remédio. No resto do mundo, o prazo é estabelecido em 20 anos. A Repórter Brasil apresenta a seguinte estimativa do Grupo de Economia da Inovação da UFRJ: nos próximos dez anos, o Ministério da Saúde vai desperdiçar R$ 3,8 bilhões com a compra de nove medicamentos para câncer, hepatite C, reumatismo e doenças raras.

O INPI tem hoje 319 funcionários responsáveis pelas análises… E 160 mil pedidos pendentes. O número elevadíssimo de pedidos é uma estratégia da indústria para justamente atrasar o trabalho e perpetuar as patentes – há pedidos múltiplos para um mesmo princípio ativo. 

DESCOBERTA

Estudo publicado na Science na última sexta-feira abre caminho para o desenvolvimento de um novo medicamento contra a malária, doença que causa 200 mil novos casos e mata quase meio milhão de pessoas no mundo anualmente. Um grupo internacional de pesquisadores – entre eles brasileiros da Unicamp – comprovou que uma molécula denominada TCMDC-135051 é capaz de inibir seletivamente uma proteína essencial para o ciclo de vida do Plasmodium falciparum, uma das espécies causadoras da doença. O achado é importante já que um dos obstáculos para a erradicação da malária, atualmente, é o fato de o parasita ter adquirido resistência aos medicamentos existentes. 

MAIS SOBRE A CARTEIRA

Argumentos favoráveis e contrários à instituição da carteira de serviços da atenção básica são discutidos nesta matéria de André Antunes, no site da Escola Politécnica da Fiocruz. “Precisamos nos debruçar sobre quais interesses estão presentes na formulação da carteira nesta conjuntura de desfinanciamento das políticas sociais”, diz a pesquisadora Mariana Nogueira. Uma das preocupações é que os serviços listados pela carteira tendem a se tornar o teto a ser ofertado, não o patamar mínimo e essencial.

Por outro lado, o médico de família e comunidade e membro da direção nacional do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, Stephan Sperling, não avalia que a implementação de uma carteira de serviços, em princípio, concorra para o desmonte do SUS e a restrição de sua integralidade. “Outros sistemas universais de saúde pautados pela gratuidade, pela equidade e pela integralidade do cuidado utilizam a carteira de serviços. Ela é um instrumento necessário para organizar os escopos de intervenção que são produzidos na atenção primária”, argumenta na entrevista, complementando: “Quando a gente diz que o SUS precisa oferecer tudo a todos precisamos aferir isso de fato. É preciso um instrumento que nos permita enxergar o que tem sido feito dentro desse ‘tudo para todos’ e se, de fato, estamos fazendo um serviço que está produzindo um resultado sanitário positivo”.

LIÇÕES DO PASSADO

A história do surto de sarampo que atingiu mais de dez mil pessoas no Norte do país e foi controlado apenas no início do ano é relembrada em reportagem do UOL, que traça paralelos com a situação atual. Se, no ano passado, o Amazonas foi particularmente atingido, respondendo por 9,8 mil dos casos confirmados, este ano São Paulo concentra 98% deles, com quase 2,4 mil. “É sempre importante fazer esse paralelo entre os surtos. E, no caso, é preciso apontar a queda vacinal”, afirma Carlos Magno Fortaleza, infectologista e professor da Unesp de Botucatu. Um levantamento feito em 2018 aponta que a vacinação infantil atingiu os menores índices em 16 anos. Um em cada quatro municípios tem crianças e bebês com cobertura de todas as vacinas abaixo do ideal e sete de oito vacinas infantis com cobertura abaixo da meta. 

“Vimos de perto o problema causado pela percepção de risco da doença por parte das famílias. Antes se convivia com o adoecimento, o agravamento e até sequelas causadas por sarampo. Hoje, isso não acontece mais. Ou, melhor, não acontecia”, conta, por sua vez, Rosemary Costa Pinto, epidemiologista e diretora da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas. “Essa falta de sensibilidade sobre como a vacina é necessária, aliada à falta de confiança nas orientações médicas, fez com que perdêssemos 20 anos de combate a doenças imunopreviníveis”, completa. A matéria traz alguns exemplos de como o sarampo era uma doença desconhecida para os jovens pais de crianças e também para profissionais da saúde, que tiveram muitas vezes dificuldade em diagnosticá-lo, fazendo com que pacientes precisassem ir duas, três vezes às unidades de saúde até receberem o diagnóstico correto.

Na sexta, a secretaria estadual de São Paulo confirmou a morte de dois bebês por sarampo, passando para três óbitos registrados depois de 22 anos sem registro de vítimas fatais por conta da doença. E, no estado Rio, pode ter ocorrido a primeira morte por sarampo, em Petrópolis.

É PROIBIDO FUMAR

“Não combina o uso do cigarro com um espaço em que se quer preservar a natureza, conviver com a família, praticar esportes”. A frase é do prefeito de São Paulo, Bruno Covas, e parte da justificativa para ele ter sancionado na sexta uma lei que proíbe fumar nos parques públicos municipais da cidade. Quem for pego em flagrante fumando nos parques estará sujeito a uma multa de R$ 500, aplicada em dobro na reincidência. O texto passa a valer em 60 dias.

SAÚDE MENTAL

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) mostram que o número de procedimentos registrados pelos convênios médicos voltados à saúde mental têm crescido em ritmo muito superior à média dos demais tratamentos. Enquanto as consultas médicas como um todo cresceram apenas 0,5% entre 2016 e 2018, o número de atendimentos com psiquiatras saltou 19,5% no mesmo período. Alta ainda maior foi observada nas sessões de psicoterapia, que aumentaram 35,6%. As polêmicas internações psiquiátricas também aumentaram. No ano passado, foram 196,3 mil atendimentos, contra 157,4 mil em 2016, alta de 24,7%. No mesmo período, as internações gerais feitas por planos cresceu apenas 3,8%.

NA CRACOLÂNDIA

A cracolândia no Complexo da Maré é tema deste ensaio de Hannah de Vasconcellos e Mirna Wabi-Sabi na Agência Pública, que trata da relação entre condições sociais e dependência química e defende que o uso de drogas e a dependência são separados pela autonomia – pela possibilidade de depender de uma vasta quantidade de coisas, em vez de uma só. “Autonomia pressupõe escolha, e os frequentadores da ‘cracolândia’ da Maré não a têm – foram roubados. Entre homens e mulheres, majoritariamente jovens e negros, eles e elas vivem embaixo de um viaduto em construção, espremidos entre duas vias da maior avenida do país: não têm dinheiro nem para pagar a casa mais barata da favela. Sem muito a perder, se arriscam entre os carros para chegar de um ponto a outro da avenida. O barulho, a poluição e a violência são tão onipresentes quanto o ar. A perda de autonomia é também a perda de identidade. Com opções limitadas, a oportunidade de fazer escolhas pessoais é escassa”.

SEGUE A EPIDEMIA

Já são mais de três mil casos confirmados de ebola na República Democrática do Congo, e duas mil mortes. E houve mais uma morte em Uganda. 

SUSPENSOS

A partir de 6 de setembro, a ANS vai suspender a venda de 51 planos de saúde, ligados a dez operadoras. A suspensão reflete as reclamações de consumidores feitas ao longo do segundo trimestre deste ano. Foram apontadas falhas na qualidade assistencial dos planos, que atendem cerca de 278,6 mil beneficiários, que terão mantida a garantia à assistência regular. Confira a lista aqui

PARA QUEM VENDEM

Repórter Brasil conseguiu levantar informações apontando que fazendeiros multados por desmatamento vendem para grandes frigoríficos brasileiros, como JBS, Marfrig e Frigol. Mesmo que as três declarem adotar políticas para abolir de suas compras o chamado “boi pirata”, ou seja, produzido em áreas desmatadas sem autorização. 

NOVA CIRURGIA

O presidente Jair Bolsonaro passará por nova cirurgia em decorrência da facada que levou durante ato de campanha em Juiz de Fora. Essa será a quarta intervenção cirúrgica de Bolsonaro, feita para corrigir uma hérnia surgida no abdômen em decorrência das outras cirurgias. O atentado completa um ano na sexta-feira, e é lembrado, a partir do relato dos médicos, em reportagem da Folha.

NOVOS NÚMEROS

E, segundo o Datafolha, a popularidade de Bolsonaro está em processo de erosão. A reprovação do presidente bateu os 38%, contra 33% auferidos pelo instituto de pesquisa em julho. A aprovação, que era de 33%, caiu para 29%. O número é menor do que os 30% que consideram o governo regular. A tendência já tinha sido indicada pela pesquisa CNT/MDA, divulgada na semana passada. 

AGENDA

A Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz completa 65 anos. Durante toda a semana vai haver vários debates sobre Desigualdade, Democracia e Políticas Sociais.

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