Crianças com microcefalia no marketing de Bolsonaro?

Com popularidade queda, presidente institui pensão vitalícia para casos decorrente do zika vírus — mas só entre 2015 e 2018, embora continuem acontecendo. Leia também: Walmart investe em assistência médica nos EUA

Foto: Marcos Corrêa / Agência Brasil

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

MP DA ZIKA

O governo federal editou ontem uma medida provisória que institui pensão especial vitalícia para crianças com microcefalia decorrente da infecção por zika vírus. Mas só para quem nasceu entre 2015 e 2018, embora os casos continuem acontecendo. O valor da pensão é de um salário mínimo. 

Hoje, 3.112 crianças com microcefalia nascidas nesse período já têm direito ao Benefício de Prestação Continuada, acessado por famílias que tenham renda per capita menor que ¼ do salário mínimo vigente. Mas as famílias que optarem pela pensão especial, deixarão de receber o BPC. “As mães não podiam ter emprego porque, aumentando a renda, perderiam o benefício”, disse o ministro da Cidadania Osmar Terra ontem, na cerimônia de apresentação da MP. No evento, o presidente Jair Bolsonaro assinou o documento ao lado de uma criança com microcefalia e sua mãe, que chorava abraçada na primeira-dama.

Tudo isso num momento em que sua aprovação está em baixa… O último número do Datafolha mostra que Sergio Moro tem uma avaliação positiva de 54%, superando em 25 pontos a aprovação do chefe (e, fica cada vez mais claro, rival).

FALANDO EM PESQUISA

Também no último Datafolha, a saúde foi citada como o principal problema do país. Foi mencionada por 18% dos entrevistados, enquanto educação e desemprego foram lembradas por 15% cada. 

CLÍNICAS WALMART

O Walmart já tem um pé na saúde, com venda de medicamentos e um bom punhado de clínicas médicas espalhadas nos EUA. E está em expansão: na semana passada, confirmou que vai abrir um novo Centro de Saúde na Geórgia, oferecendo atendimento primário, odontológico, laboratórios, radiografias “e muito mais”. “O Walmart está comprometido em tornar a assistência médica mais acessível”, disse um porta-voz. 

No site da ForbesBruce Japsen avalia que a movimentação do Walmart é uma resposta ao avanço de pelo menos duas grandes redes de farmácias nessa frente. A CVS anunciou a abertura de 1,5 mil “HealthHUBs” – lojas que agregam farmácia, clínica e laboratório – até 2021. E o Walgreens também está testando modelos: a empresa se uniu a uma seguradora de saúde (a Humana) para abrir clínicas, e fez parceria com a MedExpress (subsidiária do UnitedHealth Group, dona da Amil) para construir centros médicos anexos a lojas da rede. 

VENENO RESTRITO

Depois da Áustria – que em julho se tornou o primeiro país da União Europeia a proibir o glifosato –, agora a Alemanha anunciou que vai reduzir progressivamente o seu uso a partir do ano que vem. O plano é que ele seja erradicado completamente em 2023, quando vence a aprovação do glifosato concedida pelo bloco, caso ela não seja prorrogada pelos Estados-membros. A medida faz parte de um programa de proteção aos insetos. Tem mais: os estados devem estabelecer reservas para insetos e o governo deve investir 100 milhões de euros por ano em medidas de proteção a esses bichinhos em regiões agrícolas.

Para entender o problema, recomendamos a leitura de uma longa reportagem, traduzida em abril pela revista Piauí. Em várias partes do mundo, estudos estão apontando uma redução drástica (que chega a 90% em alguns casos) na população de insetos. E, nas reservas naturais da Alemanha, eles decaíram 75% em 27 anos. 

BEM NUTRIR

Um relatório da Organização Mundial da Saúde lançado ontem afirma que investir em nutrição adequada pode salvar 3,7 milhões de vidas até 2025. O documento lista intervenções e ações que os serviços de saúde devem garantir em cada estágio da vida das pessoas. Entre elas: fornecer suplementos de ferro e ácido fólico como parte do acompanhamento pré-natal; após o parto, atrasar o corte do cordão umbilical para garantir que os bebês continuem recebendo nutrientes da mãe; proteger e apoiar a amamentação; e fornecer orientações sobre dieta, por exemplo sobre por que limitar a ingestão de açúcares e sal. 

CONTINUA A CRESCER

Saíram ontem mais números do sarampo. O Ministério da Saúde contabiliza 2.753 casos, uma alta de 18% em relação à semana passada. No total, estão sob investigação nos estados 15.430 outros. A distribuição dos casos continua mais ou menos igual, com uma concentração importante em São Paulo, que detém 2.708 deles. De resto, são 15 no Rio, 12 em Pernambuco, sete em Santa Catarina, três no DF e um caso para cada um dos seguintes estados: Goiás, Paraná, Maranhão, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Piauí. A doença afeta 120 municípios no total.

A Pasta planeja para outubro uma ampla campanha de vacinação contra a doença. Segundo estimativa da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), o país tem 39,9 milhões de pessoas não vacinadas. Os mais vulneráveis são os bebês menores de um ano. Para esse grupo, a incidência da doença é de 54,2 casos a cada 100 mil habitantes. Em seguida, estão crianças de um a quatro anos (15,8 casos por 100 mil) e jovens de 20 a 29 anos (10,5 casos).

OUTRA RAZÃO

Está acontecendo em Fortaleza até sábado a Jornada Nacional de Imunizações. Ontem, uma dos debates sobre as razões para as quedas nas coberturas vacinais destacou um fator que não tem merecido tanto destaque: a rotatividade dos profissionais de saúde. Como a tendência tem sido mais e mais evitar concursos públicos e usar as Organizações Sociais (OSs) como forma de contratação de força de trabalho, a rotatividade aumentou. E isso se demonstra problemático diante do complexo cenário brasileiro. “O conhecimento sobre vacina está cada vez mais amplo, e a complexidade também. Você não consegue formar as pessoas adequadamente. A reserva de conhecimento é perdida [com a rotatividade]. Ao final, você tem pessoas minimamente formadas para dar conta de situações pontuais, mas não tem aquele profissional de referência com um acúmulo de conhecimento, que é uma pessoa mais indicada para intervir em situações de postergar vacinação e de contestar falsas contraindicações. Isso requer um conhecimento mais profundo”, disse Tânia Petraglia, presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro.

20 MIL EM 2020

Osmar Terra tem um número em mente: o ministro da Cidadania afirmou que o governo pretende ampliar em nove mil o número de vagas em comunidades terapêuticas, chegando a um total de 20 mil em 2020. Serão necessários mais R$ 92 milhões para que isso aconteça. Terra destacou o que já foi feito: em março, juntamente com a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, assinou contratos com 216 comunidades, no total de R$ 153,7 milhões. A declaração foi dada ontem em audiência da Comissão de Seguridade Social e Família da Câmara. A justificativa para tantos recursos destinados a instituições que, em sua maioria (82%) têm vínculos com igrejas e organizações religiosas, segundo o Ipea, a gente já sabe qual é: a “epidemia de drogas”. 

PREVIDÊNCIA

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou ontem o relatório de Tasso Jereissati (PSDB-CE) sobre a reforma da Previdência. O placar ficou em 18 votos contra sete. No colegiado, também passou a proposta paralela, criada para incluir estados e municípios, além de mudanças no texto original. Os dois seguem agora para o plenário da Casa. Lá, os senadores poderão apresentar emendas e, após cinco sessões de debate, o texto retornará a CCJ para que sua admissibilidade seja votada. Segundo o Valor, o acordo foi feito no colegiado para ganhar tempo de tramitação.

MAIS SOBRE O RICOY

Ainda sobre o caso do rapaz que foi chicoteado em uma loja da rede de supermercados Ricoy, em São Paulo: ontem, o delegado responsável pelas investigações solicitou a prisão dos dois seguranças envolvidos no crime (o que praticou a tortura e o que gravou a cena).

E o Brasil de Fato recebeu fotografias e mais um vídeo com imagens de outros casos envolvendo o Ricoy. Nas fotos, um homem aparece amarrado e com marcas de chicotadas, e perto dele estão empilhados produtos como embalagens de linguiça e frango congelados. No vídeo, há uma criança sentada enquanto um homem diz: “Você vai ficar em uma cela cheio de moleques da sua idade, ou mais velhos, tem uns lá que gostam de abusar de outro moleque. Olha que legal. Tem uns que vão te dar uma surra bem dada. Olha que legal. (…) Você tem uma irmãzinha, não tem? Vai ficar sem ela. Você é ladrão”.

PREVISÍVEL

Um relatório do governo dos EUA afirma que crianças migrantes que foram separadas de seus pais na fronteira com o México no ano passado sofreram estresse pós-traumático e outros problemas graves de saúde mental. O documento se baseou em entrevistas com profissionais de saúde mental que mantiveram interações regulares com as crianças. Um menino de sete ou oito anos (não se tem certeza) achava que seu pai havia sido morto, e ele seria o próximo – precisou de atendimento psiquiátrico de urgência. Outras crianças acreditavam que tinham sido abandonadas pelos pais. E algumas tiveram sintomas físicos devido aos traumas mentais: “Meu peito dói”, “Não consigo sentir meu coração” e “Toda batida do coração dói” eram algumas das frases ouvidas. 

O psiquiatra infantil Dr. Gilbert Kliman, que entrevistou dezenas de crianças migrantes em abrigos, disse à Associated Press que nem todas vão superar isso, mas outras, não: “Quando crianças, eles têm terrores noturnos, ansiedade de separação e problemas de concentração. Quando se tornam adultos, enfrentam maiores riscos de desafios mentais e físicos, da depressão ao câncer.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: