Microcefalia: a resposta estaria na água?

Substância liberada por bactérias na água pode gerar malformações quando em contato com vírus zika. Leia também: Capes anuncia corte de mais 5,6 mil bolsas; orçamento de 2020 vai afetar Minha Casa Minha Vida, Fies e Bolsa Família

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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PARTE DA RESPOSTA PODE ESTAR NA ÁGUA

Em fevereiro de 2016, no ápice da epidemia de zika vírus no Brasil quando o país vivia em estado de emergência em saúde – algo que não acontecia desde a gripe espanhola, em 1917 –, circulou uma nota escrita por médicos argentinos que pautou debates sobre o uso de larvicidas na água potável para o combate ao Aedes aegypti. Se faltavam evidências científicas naquele momento para vincular a microcefalia ao uso de piriproxifeno, substância que regula o crescimento de insetos, uma recente descoberta põe em evidência justamente o papel da água na epidemia. 

Pesquisa realizada pelo Instituto D´Or, Fiocruz, UFRJ e Universidade Rural de Pernambuco demonstrou que uma substância liberada por um tipo de bactéria encontrada em reservatórios de água, a saxitoxina, é capaz de acelerar a morte de células neuronais quando expostas à infecção pelo zika. Sendo assim, o vírus pode não ser a única explicação para os casos de malformações congênitas. “Começamos a investigar um possível cofator ao observar que apesar de as regiões Sudeste e Centro-Oeste terem registrado mais casos de infecção pelo zika, o maior número de casos de microcefalia tinha ocorrido no Nordeste, o que parecia contraditório”, explicou ao Estadão Stevens Rehen, professor da UFRJ e do IDOR e um dos autores do estudo. Entre 2015 e 2018, a região concentrou 63% dos casos de microcefalia. 

Na próxima fase, o estudo financiado pelo Ministério da Saúde deve avaliar justamente a correlação com a água consumida no Nordeste, verificando se a saxitoxina está presente no organismo dos moradores da região. Os pesquisadores também vão verificar se a presença de pesticidas na água pode levar a um aumento da proliferação de cianobactérias. E investigar exatamente como a saxitoxina deixa as células neuronais mais vulneráveis ao vírus zika. 

Stevens Rehen não descarta a possibilidade de que os padrões internacionais usados para definir o padrão de potabilidade da água seja mudados em relação a concentração de saxitoxina. “Por mais que esses valores máximos sejam considerados seguros hoje, de forma isolada, eles podem deixar de ser seguros em uma situação de interação com outro fator, como a circulação do vírus zika”, destaca.

MAIS UM CORTE NAS BOLSAS

A Capes, vinculada ao MEC, anunciou ontem um novo corte de mais 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doc que estavam previstas até dezembro. Junto com os dois anúncios anteriores, o total de bolsas canceladas chega a cerca de 11,8 mil. A medida se deve ao contingenciamento do orçamento da Capes, que este ano perdeu R$ 819 milhões, ou 20% dos R$ 4,2 bilhões previstos.

E vai piorar no ano que vem: o projeto de lei orçamentária prevê que a Capes conte com R$ 2,2 bilhões em 2020, ou seja, quase a metade do que havia sido previsto para 2019 e apenas 64,1% do valor real deste ano, após o contingenciamento. De acordo com o presidente da instituição, Anderson Ribeiro Correia, em 2019 a Capes vai deixar de investir R$ 37,8 milhões de reais em pesquisa. Nos próximos quatro anos, R$ 544 milhões devem deixar de ser investidos em bolsas. A matéria da Deutsche Welle ainda aponta que, hoje, o Brasil investe menos de 1% do PIB na área de ciência, tecnologia e inovação – em comparação, na Europa o percentual médio gira em torno de 3%, enquanto nos EUA é de cerca de 2%.

VACAS MAGRAS

O projeto de lei orçamentária do governo Bolsonaro atingirá, em 2020, algumas das políticas mais populares do PT. O Minha Casa, Minha Vida ficou com R$ 4,6 bilhões. Um corte que pode inviabilizar qualquer novo contrato de construção de moradias, e bem contrastante com a média destinada entre 2009 e 2018 (R$ 11,3 bi). O Fies, para o qual foram aprovados R$ 13,8 bi em 2019, nos planos do governo perderá R$ 3,6 bi no ano que vem. E o Bolsa Família ganhará os mesmos recursos: R$ 30 bilhões… Mas na prática, sem nenhum centavo a mais para corrigir a inflação, o programa sofre um corte. O próprio governo prevê que o atendimento, que hoje abarca 13,8 milhões de pessoas, cairá para 13,2 milhões com esses recursos. 

UM ANO DEPOIS

Ontem o incêndio no Museu Nacional completou um ano, e pesquisadores continuam buscando restos de coleções nos escombros. Muita coisa já foi recuperada (aqui estão listados sete destaques), mas ainda falta peneirar algumas montanhas de entulho, e ainda não se sabe exatamente o tamanho do prejuízo causado pelo fogo. Na última contagem tornada pública, em fevereiro, apenas cerca de 2,7 mil itens haviam sido recuperados – de um total de 20 milhões de peças. 

O diretor Alexander Kellner planeja construir um prédio de três andares perto do antigo palácio, na Quinta da Boa Vista, e espera ter no ano que vem um museu provisório. Já o Museu Nacional restaurado deve ser reaberto gradualmente entre 2022 e 2025. Por enquanto, os cortes na educação são um entrave: o museu é vinculado à UFRJ, que foi afetada pelos contingenciamentos.

CONTROLE SOCIAL

Na Câmara, a Comissão de Trabalho, de Administração e Serviço Público aprovou ontem o projeto de decreto legislativo 113/19, para suspender aquele decreto presidencial (9.759/19) que acabou com colegiados da administração pública federal, como conselhos, comitês e grupos de trabalho. Para lembrar: o texto assinado por Bolsonaro em abril determinou o fim dos colegiados que não foram criados por lei, caso do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, por exemplo. O PDL 113/19 será analisado agora pela Comissão de Constituição e Justiça, depois segue para o plenário.

NO MESMO BARCO

Foi lançado ontem o movimento “Direitos Já”, frente suprapartidária e com representantes da sociedade civil criada em defesa do Estado Democrático de Direito. Representantes de 16 partidos declararam apoio à iniciativa, dentre eles Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Eduardo Suplicy (PT), Ciro Gomes (PDT) e Flávio Dino (PCdoB). O evento contou com palestra de Noam Chomsky. 

MUITO A DIZER

Saíram mais detalhes sobre a consulta pública feita pelo Ministério da Saúde para a carteira de serviços. Das 1,8 mil contribuições recebidas, 76% foram feitas por profissionais de saúde. Em segundo lugar, mas muito atrás, estão os gestores municipais com 7%. Depois vêm os usuários (5%), estudantes (4%), pesquisadores e gestores estaduais (2% cada). Segundo a Pasta, “essas colaborações serão analisadas para avaliar a necessidade de adequações” à carteira, com lançamento previsto para outubro. 

LIMITES BORRADOS

Fábio Farias da Silva, 24 anos, era fã da série de televisão Grey´s Anatomy. Certo dia, ele vestiu um jaleco branco, pendurou um estetoscópio no pescoço e foi até o pronto-socorro da Santa Casa de São Paulo. Lá, ele fingiu ser médico. Mais especificamente, um especialista bucomaxilofacial. E, de acordo com testemunhas, até deu alta a dois pacientes (que, de acordo com o hospital, não foram efetivadas e, de acordo com Fábio, não existiram). “Eu só queria saber como é o comportamento de um médico. Vestir o jaleco e usar o estetoscópio me fez sentir mais conectado com Grey’s Anatomy. Hoje, analisando os fatos, eu sei que estava fora dos padrões. Consigo ver que aquele não era meu espaço. Pode ter sido um gritar mais alto da emoção, por lembrar que a 15ª temporada estava chegando. Não sei explicar”, justificou em entrevista ao jornal O Globo. Fábio responde por exercício ilegal da medicina em liberdade. 

POR CONTA PRÓPRIA

Enquanto as comidas superprocessadas são mais práticas e, por vezes, mais baratas do que os alimentos in natura, enquanto a venda de orgânicos ainda é restrita e cara, e enquanto “o governo de Jair Bolsonaro retalha a legislação sobre segurança alimentar e nutricional”… Grupos da sociedade civil dão seus jeitos para discutir e promover uma alimentação saudável acessível. N’O Joio e o Trigo, Ana Mosqueira descreve experiências animadoras, como as da Casa Ecoativa e o Prato Verde Sustentável, na cidade de São Paulo, e o Coletivo Verdejar, no Complexo do Alemão (no Rio). O Prato Verde, por exemplo, produz anualmente duas toneladas de alimentos, sendo 70% destinados à doação para a comunidade e apenas 30% para a venda direta, para financiar a iniciativa. 

QUARTA MORTE

Foi confirmada ontem pela secretaria estadual de saúde de Pernambuco a quarta morte por sarampo no país em 2019. A vítima foi um bebê de sete meses e aconteceu no “interior” do estado, sem especificação de cidade. Os outros três óbitos foram divulgados semana passada, e aconteceram em São Paulo. 

DAVID SANDERS

Morreu no fim de semana o médico David Sanders, membro-fundador do People’s Health Movement. Em uma nota de pesar, o Cebes lembra: “No espírito da atenção primária à saúde integral da Declaração de Alma Ata, em seu último artigo publicado no Lancet neste mês reitera a importância da APS e alerta sobre como agências internacionais dão um passo à frente e dois passos atrás ao subsumir a atenção primária à saúde aos objetivos da cobertura universal e restringir o direito à saúde à cobertura por um seguro diferenciado conforme capacidade de pagamento”. 

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