No acesso às vacinas, retrato da globalização dos extremos

Mais um imunizante demonstra ser muito eficaz contra o coronavírus. Mas por desigualdade e falta de vontade política, centenas de milhares morrerão sem ter acesso a eles em tempo. E mais: na África, as vítimas esquecidas da malária

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NÚMEROS IMPRESSIONANTES

A farmacêutica Moderna entrou ontem com um pedido de aprovação emergencial da sua vacina contra a covid-19 nos Estados Unidos. A solicitação vem logo depois de um novo anúncio dos resultados dos seus testes, ainda mais animadores do que os preliminares, divulgados no último dia 16. Na época, haviam sido detectadas 95 infecções entre os voluntários e a eficácia havia sido de 94,5%.

Agora são 196 casos confirmados – muito mais do que o mínimo de 151 estabelecido pelo protocolo. Entre eles, só 11 estavam entre os participantes que receberam a vacina, o que deixou a eficácia em 94,1% (bem próxima da identificada anteriormente). Mas o mais impressionante é que, entre os infectados que haviam recebido a vacina, nenhum desenvolveu a forma grave da covid-19, contra 30 no grupo do placebo. Ou seja, para prevenir infecções graves, a eficácia foi de 100%. Não houve nenhum efeito colateral grave.

É preciso fazer aquela ressalva que já se tornou habitual: essa foi mais uma divulgação via comunicado à imprensa. No entanto, é impossível não se empolgar com os números.  Ainda mais considerando que, como já comentamos por aqui, essa vacina não precisa de temperaturas tão baixas para conservação, como a da Pfizer/BioNTech. Ela deve ser mantida a -20°C, mas pode ficar por até 30 dias em geladeiras comuns, entre 2°C e 8°C.

A empresa já disse que, além dos EUA, vai solicitar autorização para venda na União Europeia e enviar sua documentação para agências reguladoras de outros países. 

O X DA QUESTÃO

As últimas semanas têm sido coalhadas de boas notícias sobre as vacinas e as primeiras aprovações emergenciais estão batendo à porta. A Pfizer espera conseguir a sua com a FDA (a Anvisa dos EUA) no próximo dia 10; para a Moderna, uma reunião com os reguladores dessa agência deve acontecer uma semana depois, no dia 17. Tudo indica que, de fato, pelo menos uma pequena quantidade de pessoas vai conseguir ser vacinada ainda este ano.

Porém, uma pergunta não deixa de pulsar: quem terá acesso às vacinas? Está bem estabelecido que, dentro de cada país, haverá estratégias para priorizar determinados grupos inicialmente, quando a quantidade de doses for limitada. Mas também achamos importante falar sempre sobre a distribuição global desses imunizantes, e uma reportagem publicada ontem na Nature faz essa discussão a partir dos dados disponíveis até agora.

Pfizer, Moderna, AstraZeneca e o Instituto Gamaleya, que desenvolve a Sputnik V, são os quatro fabricantes que já anunciaram algum resultado de fase 3 (lembrando que, no caso da AstraZeneca, os dados foram acompanhados por várias dúvidas pertinentes e uma necessária continuação dos ensaios).  Somando suas estimativas mais otimistas de produção, elas pretendem garantir doses suficientes para imunizar cerca de um terço da população mundial até o fim do ano que vem. Só que metade dessa capacidade já foi encomendada pelos 27 países da União Europeia e outros cinco países ricos, que juntos têm 13% dos habitantes do planeta. 

Claro, falta colocar no papel outras vacinas que estão em fase 3 de testes, como a CoronaVac. Se as seis principais candidatas forem incluídas na conta, pode haver vacinas para metade da população mundial. Mesmo assim, os países ricos vão continuar abocanhando metade das doses. Foram eles que, tendo dinheiro para isso, fizeram apostas em várias vacinas diferentes, garantindo um cardápio tão extenso quanto variado. O país com o maior número de doses negociadas por habitante é o Canadá, com quase nove por pessoa. Em seguida vêm os EUA (quase oito), o Reino Unido (seis) e a Austŕália (mais de cinco). O Brasil tem em torno de uma e, como dissemos ontem, o governo federal reconheceu que só pretende vacinar 80 milhões de pessoas por ano. O que dá menos de 40% dos brasileiros. 

Quando se trata das vacinas mais caras (que, por enquanto, são também as que têm os melhores resultados), a desigualdade é ainda mais gritante. A Pfizer pretende produzir 1,3 bilhão de doses até o fim de 2021, mas prometeu 1,1 bilhão para EUA, União Europeia, Canadá, Japão e Reino Unido. A Moderna reservou toda a sua produção de 2020 (20 milhões de doses) para os EUA; no ano que vem, pretende fabricar entre 500 milhões e um bilhão de doses, mas, segundo o Global Justice Now, tem acordos para distribuir 750 milhões a países ricos.

É possível que muitas pessoas em países de baixa renda precisem esperar até 2023 ou 2024 para receberem algo, segundo estimativas do Duke Global Health Innovation Center em Durham, Carolina do Norte. Essas nações estão contando basicamente com a Covax Facility, o consórcio internacional que busca fornecer cobertura para pelo menos 20% das populações dos países participantes. Para um retorno à vida normal, a OMS diz que é preciso imunizar entre 60% e 70% das pessoas, de modo que as doses garantidas pela Covax, ainda que bem-vindas, não devem ser suficientes. Além disso, temos acompanhado a dificuldade de conseguir recursos para a iniciativa. Faltam, para o ano que vem, nada menos que US$ 5 bilhões

Um detalhe importante: não sabemos quanto tempo vai durar a imunidade garantida por nenhuma das vacinas em testes. Se a vacinação precisar se repetir a cada ano, o problema será ainda mais grave.

MAIS RÁPIDO

A Anvisa foi aceita para entrar em uma iniciativa global que pode agilizar o processo de certificação das vacinas contra a covid-19. O chamado PIC/S envolve mais de 50 países-membros e, nele, os padrões e práticas de uma agência passa a ser reconhecida pelas outras. Segundo a Folha, há um intercâmbio de documentos que pode reduzir o tempo de análise e a quantidade de inspeções necessárias. 

QUEM DIRIA?

Um dia após a reeleição de Bruno Covas para a prefeitura de São Paulo, o governador do estado, João Doria, anunciou que todos os municípios vão regredir à fase amarela do plano de combate ao coronavírus. Haverá mais restrições a comércio, bares, restaurantes, academias e eventos culturais. Como nota o UOL, há 18 dias Doria afirmou que não aumentaria as restrições após o pleito… “Em nenhum momento nos pautamos por calendário eleitoral“, garantiu Covas, na GloboNews, mas não é fácil comprar essa ideia. “Da maneira que está sendo conduzido, logo após uma campanha eleitoral, que o que mais teve foi aglomeração, é, no mínimo, hipócrita“, diz n’O Globo o infectologista e diretor da Sociedade Paulista de Infectologia, Evaldo Stanislau de Araújo. Nessa e em outras reportagens, especialistas são unânimes ao afirmar que as medidas chegaram tarde.

O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, demonstrou preocupação ao comentar ontem a situação brasileira. De acordo com ele, o país deve ser “muito sério” para lidar com o aumento das mortes que saltou aos olhos este mês.

Em tempo: está cada vez mais certo que vários estados vão precisar endurecer suas medidas de isolamento novamente se quiserem evitar desastres – para sermos mais exatas, isso já deveria estar acontecendo em parte do país. Mas pelo menos seis estados pretendem mudar (ou já mudaram) a classificação das escolas nos seus planos de contenção, incluindo-as como serviços essenciais para permitir que elas continuem abertas mesmo em estágios de maior restrição. Segundo a Folha, essa decisão já foi tomada no Rio Grande do Sul e no Espírito Santo; em São Paulo, Ceará, Pernambuco e Sergipe, está sendo avaliada. 

O PLATÔ DA MALÁRIA

“Morrerão mais pessoas [na África] de malária do que de covid-19 até ao final de 2020. A questão é: por que estamos dando o alarme sobre covid-19 ou ebola, mas parece tão normal que milhares de crianças morram de malária todos os anos?” – embora não negue os problemas do novo coronavírus, o questionamento de Matshidiso Moeti, diretora regional da OMS para África, tenta colocar o foco sobre essa doença que pode estar ainda mais negligenciada durante a pandemia.

O último relatório global da OMS sobre a malária, lançado ontem, traz informações preocupantes. Por um lado, houve grandes avanços nas últimas décadas: a distribuição de mosquiteiros tratados com inseticidas para populações de risco, o aumento dos diagnósticos e os avanços no tratamento levaram a quedas nas contaminações e mortes. Mas esse progresso estagnou.  No ano 2000 havia 80 casos para cada mil habitantes em risco, e essa taxa chegou a cair para 57.5 em 2015; desde então, porém, estabeleceu-se um platô em torno deste número, que foi de 56.8 no ano passado. Já as mortes caíram muito – de 24.7 por cem mil habitantes no ano 2000 em risco para 10.1 em 2019 – mas, também nos últimos cinco anos, a curva está claramente menos acentuada. Nas Américas, em vez do platô, o que se vê é mesmo um aumento nos casos e mortes desde então, puxado principalmente pela Venezuela. Um dos motivos para isso é o financiamento global insuficiente. No ano passado, foi de US$ 3 bilhões, o que dá pouco mais da metade da meta de US$ 5,6 bilhões.

A malária matou 409 mil pessoas em 2019, sendo 385 mil apenas no continente africano (por covid-19, foram até agora 50 mil vítimas por lá). Existe um receio de que a pandemia piore a situação. O relatório prevê que uma redução de apenas 10% no acesso ao tratamento antimalária na África Subsaariana pode levar a 19 mil mortes a mais; uma queda de 50% nos tratamentos levaria a 100 mil mortes adicionais na região. “Isso não é algo novo. Quando tivemos a epidemia de ebola, tivemos muito mais mortes devido à malária do que ebola nos países afetados”, diz Pedro Alonso, diretor do Programa Global da OMS para a Malária. 

ALGUMA SURPRESA?

O Inpe divulgou ontem seu balanço anual, indicando que o desmatamento da Amazônia subiu 9,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020. Com isso, ele chegou ao nível mais alto dos últimos 12 anos. Foram perdidos 11 mil quilômetros quadrados: “É como se a cada minuto do ano passado a Amazônia tivesse perdido o equivalente a três campos de futebol, até somar 1,58 milhão de estádios”, compara o Greenpeace, citado na reportagem do El País. “Os números (…) simplesmente mostram que o plano de Jair Bolsonaro deu certo“, constata o Observatório do Clima, rede com 56 organizações não governamentais e movimentos sociais. 

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