Antes das eleições, o sumiço de um documento

Autoridade dos Estados Unidos publicou – e apagou – documento que mudaria todos os protocolos de biossegurança para covid-19 no país. Por quê?

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A cinco semanas das eleições presidenciais dos EUA, coisas cada vez mais estranhas acontecem nas agências de saúde no país. É destaque em toda a mídia internacional hoje a misteriosa publicação – e sumiço – de um documento do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) que reconhecia que o novo coronavírus é mais contagioso do que se pensava no início da pandemia por ter no ar o principal meio de transmissão, através das gotículas invisíveis conhecidas como aerossóis. O guia foi publicado no site do CDC na última sexta-feira e retirado de lá ontem. 

A explicação oficial é que se tratava de um “rascunho” divulgado por engano. Mas o documento é de tal importância que modificaria totalmente os protocolos de biossegurança. No New York Times, a epidemiologista Saskia Popescu explica que o reconhecimento da transmissão aérea traria obstáculos praticamente instransponíveis aos hospitais hoje, como a necessidade de isolar cada doente em uma câmara de pressão negativa. Ela aposta que as dificuldades de agir de acordo com as novas orientações foram a razão da volta atrás do CDC. Outros pontuam que a pressão do governo Trump, cuja atuação na pandemia deverá ter peso no pleito que se aproxima, não pode ser desconsiderada.

Lembramos que a OMS reconheceu a transmissão do corona pelo ar em julho, depois que uma carta assinada por 239 cientistas reunindo evidências nesse sentido foi publicada. Mas a resposta da Organização foi considerada tímida: apenas recomendou que as pessoas evitem locais fechados com pouca ventilação. Tanto na época como agora, a OMS considera que a principal forma de transmissão do vírus é de pessoa para pessoa, e rechaça argumentos de que há evidências científicas suficientes para concluir que as partículas ficam em suspensão no ar por horas e são capazes de viajar dez metros de distância, conforme sustentam os especialistas. Por isso também, o posicionamento do CDC poderia representar uma guinada nas medidas de prevenção.

Ontem, Donald Trump voltou a falar sobre vacinas. O presidente disse à Fox News que o governo pode conceder a licença para a candidata da Pfizer “nas próximas semanas”. Na sequência,  seria a vez da candidata da Johnson & Johnson. A declaração acontece depois que o secretário de Estado de Saúde, Alex Azar, proibiu que a FDA (a Anvisa de lá) e outras agências deem a palavra final sobre regulamentações de produtos, incluindo vacinas. Segundo o New York Times, que revelou o documento contendo a decisão, não está claro se a manobra tem o poder de mudar o procedimento de aprovação dos imunizantes. 

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